Descoberta na Bahia rocha mais antiga da América do Sul

13/05/2022
As rochas foram encontradas em um trecho de cerca de 400 km a leste da Chapada Diamantina, entre os municípios baianos de Juazeiro e Ruy Barbosa.

Um grupo de pesquisadores brasileiros descobriu, no município baiano de Piritiba, na região da Chapada Diamantina, as rochas mais antigas na América do Sul, com 3,65 bilhões de anos (do período Eoarqueano), a primeira era da escala geológica a abrigar uma crosta sólida no ambiente terrestre, que abrange o período entre 4 bilhões e 3,6 bilhões de anos atrás. “Encontrar amostras geológicas tão antigas em uma região tropical como a nossa é quase um milagre”, diz o geólogo Elson Paiva de Oliveira, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp), coautor do estudo publicado na revista Geoscience Frontiers, em fevereiro. 

A descoberta não é a primeira na Chapada Diamantina, já que, em 2020, um estudo liderado por Oliveira e publicado na revista científica Terra Nova constatou rochas com 3,64 bilhões de anos, 10 milhões de anos mais novas do que as descritas agora. A primeira descoberta aconteceu também nos arredores de Piritiba, no chamado cráton São Francisco. “Resolvemos fazer uma busca de norte a sul na região e encontramos rochas ainda mais antigas e uma série de outras que contam a história de como se formou nosso continente”, explica o geólogo Igor Moreira, orientando de doutorado de Oliveira e autor principal do artigo deste ano. Além do material do Eoarqueano, o novo trabalho descreve amostras geológicas de duas outras eras: do Paleoarqueano, entre 3,6 bilhões e 3,2 bilhões de anos atrás, quando os continentes começaram a se formar; e do Neoarqueano, que vai de 2,8 bilhões a 2,5 bilhões de anos atrás, período em que as primeiras bactérias começaram a evoluir. 

O trecho de ocorrência dessas rochas antigas engloba um segmento de cerca de 400 km a leste da Chapada Diamantina, entre os municípios baianos de Juazeiro e Ruy Barbosa – região denominada de Complexo Mairi pelos geólogos, e que faz parte do trecho nordeste do cráton São Francisco. Este é um dos terrenos com evolução mais antiga da Terra, com exposições rochosas na superfície muito bem preservadas. “As rochas metamórficas atravessaram muitos processos geológicos. Por isso, as rochas mais antigas da superfície apresentam essa característica”, explica a geóloga Natali Barbosa, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que não participou do estudo com as amostras de Piritiba. “Os gnaisses são geralmente formados na base de cadeias de montanhas e estão na fronteira entre a crosta superior e inferior da Terra, a profundidade aproximada de 20 km. 

Para apontar a idade das novas amostras de Piritiba foi preciso fazer a datação de cristais do mineral zircão presentes na região. A partir da taxa de decaimento radioativo de formas leves e pesadas do átomo de urânio encontrado no zircão, os pesquisadores determinam a idade de uma amostra geológica. No Laboratório de Geocronologia (Lagis) do IG-Unicamp, foi usada a técnica de ablação a laser, que consiste na perfuração de grãos de zircão por um feixe desse tipo de luz. “Dessa forma, estabelecemos a idade de 3,65 bilhões de anos para as amostras”, conta Oliveira. O estudo de rochas tão ou mais antigas do que as de Piritiba é importante para entender com mais precisão o que ocorreu nos primórdios da Terra e, a partir dessa compreensão, tentar projetar o futuro do planeta. 

Para Oliveira, as amostras geológicas mais antigas da região da Chapada Diamantina, além de sua relevância científica, também devem ser vistas como um patrimônio natural e cultural da região. “Não foi um processo simples convencer a prefeitura de Piritiba da importância das rochas”, conta o geólogo da Unicamp. “Em setembro, o município completa 70 anos de emancipação política e a existência dessa raridade geológica na região vai ser destacada. Áreas de interesse geológico atraem turismo e têm potencial de melhorar a educação local”.