Brasil e China aprofundam agenda de mineração com foco em minerais críticos

Fórum reúne 60 representantes chineses em Pequim para discutir regulação de minerais estratégicos, com o PL 2780/2024 no centro das preocupações de investidores estrangeiros sobre acesso ao subsolo brasileiro.
2º Fórum Brasil-China de Investimento em Mineração reúne delegações dos dois países na capital chinesa e coloca o PL 2780/2024 no centro do debate sobre o futuro das relações minerais bilaterais
A riqueza mineral brasileira voltou a ocupar o centro das atenções em Pequim. No dia 8 de setembro de 2026, a capital da China sediou o 2º Fórum Brasil-China de Investimento em Mineração, evento que reuniu delegações dos dois países em torno de uma pauta cada vez mais estratégica para ambas as economias: o acesso, o financiamento e a regulação de minerais críticos e estratégicos. O encontro integrou a programação da Missão Internacional Brasil-China 2026, iniciativa organizada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), e deixou claro que o grande interesse chinês pelo subsolo brasileiro.
A assimetria numérica entre as delegações já diz muito sobre o apetite do lado chinês. Enquanto a delegação brasileira contou com cerca de 20 representantes — entre executivos e advogados —, o lado chinês mobilizou aproximadamente 60 participantes, entre representantes de empresas, grupos e fundos de investimento. Entre os nomes presentes estavam gigantes do setor como CMOC, China Nonferrous e MMG, empresas que já atuam ou monitoram de perto o mercado de mineração brasileiro. A CMOC está há 10 anos no Brasil, destacando-se na produção de fertilizantes fosfatados, nióbio e agora ouro; a China Nonferrous adquiriu a Mineração Taboca; e a MMG fez a aquisição dos ativos de níquel da Anglo American, em Goiás (negociação que ainda está pendente de aprovação da Comissão Europeia). Para analistas, o desequilíbrio de presença, longe de ser um problema protocolar, reflete a centralidade que o Brasil ocupa nos planos de abastecimento mineral da China para as próximas décadas.
Os projetos que despertaram maior interesse dos investidores e fundos chineses presentes ao fórum são justamente aqueles alinhados à demanda global pela transição energética e pela manufatura de alta tecnologia: bauxita, minério de ferro, cobre, ouro e níquel. São commodities que o Brasil produz em escala relevante e que a China demandará cada vez mais para sustentar sua cadeia industrial, da fabricação de baterias à produção de aço especial.
Além de ser uma vitrine de projetos, o fórum foi um espaço de questionamentos. E a principal dúvida trazida pelos representantes chineses tinha endereço certo: o Projeto de Lei 2780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil. A legislação em tramitação propõe, entre outras medidas, a criação do CIMCE — Conselho com poder de revisar e eventualmente bloquear negócios considerados sensíveis do ponto de vista estratégico nacional. Para investidores estrangeiros, especialmente os chineses, que têm ampliado sua presença em setores considerados críticos ao redor do mundo, entender o alcance e os critérios desse conselho tornou-se uma questão central antes de comprometer capital em novos projetos ou aquisições no Brasil.
A discussão em torno do PL 2780/2024 evidencia uma tensão que permeia toda a agenda mineral global: como atrair investimento estrangeiro necessário para desenvolver projetos de grande porte sem abrir mão da soberania sobre recursos que ganham valor estratégico crescente? O Brasil, à semelhança de outros países ricos em minerais críticos, busca equilibrar abertura e controle e o fórum em Pequim foi um bom termômetro da ansiedade dos investidores diante desse processo.
Destaque da Bahia e das terras raras
Entre os destaques da participação brasileira no fórum, a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) protagonizou uma das apresentações mais aguardadas da delegação. Representada por seu presidente, Henrique Carballal, e pelo vice-presidente, Carlos Borel, a CBPM levou a Pequim um retrato abrangente do potencial mineral da Bahia, um estado que, embora ainda não tenha o protagonismo de outros como Pará e Minas Gerais, concentra uma diversidade mineral notável. Segindo seus representantes, a Bahia abriga 47 das 93 substâncias minerais produzidas em todo o Brasil. O portfólio do estado inclui minerais de altíssima relevância para as cadeias tecnológicas do século XXI, como terras raras, níquel, vanádio, grafita, cobre, cobalto, fosfato e sílica de alta pureza. Para o período de 2026 a 2030, a projeção é de mais de R$ 56 bilhões em investimentos no setor mineral baiano, um volume que posiciona o estado como uma das fronteiras mais promissoras da mineração brasileira.
Um dos temas que mais desperta atenção no relacionamento mineral entre Brasil e China é justamente o das terras raras, das quais o Brasil detém reservas significativas e a China domina cerca de 60% da produção mundial, bem como uma parcela ainda maior do processamento global.
No fórum de Pequim, como não poderia deixar de ser, as terras raras estiveram na pauta, porém sob o ponto de vista essencialmente comercial. Não houve negociações de natureza estratégica entre os governos brasileiro e chinês pelo controle ou fornecimento desses minerais. A distinção é importante, porque indica que o Brasil mantém cautela quanto a acordos que possam comprometer sua autonomia sobre um recurso que se tornou peça-chave no tabuleiro geopolítico global.
Essa postura reflete, em parte, o próprio espírito do PL 2780/2024: estabelecer um marco que permita ao país explorar o valor estratégico de seus minerais críticos de forma soberana, atraindo parceiros sem criar dependências estruturais. O desafio, naturalmente, é que investidores de grande porte, especialmente os chineses, preferem previsibilidade e acesso assegurado. A gestão dessa tensão tende a moldar a agenda bilateral nos próximos anos.
O Brasil como destino, a China como parceira possível
Embora não tenha gerado contratos assinados, o 2º Fórum Brasil-China de Investimento em Mineração funcionou como espaço de construção de confiança, mapeamento de interesses e nivelamento de expectativas. Nesse sentido, o encontro de Pequim cumpriu seu papel.
Para o Brasil, a mensagem transmitida foi a de um país que tem muito a oferecer — diversidade mineral, extensão territorial, estabilidade institucional relativa e um marco regulatório em evolução —, mas que também está redefinindo os termos do relacionamento com o capital externo no setor mineral.
Para a China, o Brasil continua sendo uma das geografias mais relevantes do mundo para garantir acesso a minerais que sustentam sua indústria e sua agenda de crescimento. Empresas como CMOC, China Nonferrous e MMG já conhecem o terreno brasileiro e outras começam a olhar o país com maior interesse. (Equipe Brasil Mineral)
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