Votorantim vende controle da Nexa Resources para a sueca Boliden

Transação estruturada como troca de ações avalia a mineradora latino-americana a partir de uma taxa de câmbio de 0,250 ação da Boliden por papel da Nexa; conclusão está prevista para o primeiro trimestre de 2027.
Em um movimento que promete reconfigurar o setor de metais básicos no Brasil e no Peru, a Votorantim SA firmou, em 27 de agosto de 2026, um acordo definitivo para a venda de sua participação majoritária na Nexa Resources SA à Boliden AB, gigante sueca do setor metalúrgico com cerca de 8.000 funcionários e receita anual próxima de 90 bilhões de coroas suecas. A operação, estruturada como uma troca de ações, marcará a transferência do controle de uma das maiores produtoras integradas de zinco das Américas para um grupo europeu com histórico consolidado em mineração e fundição — e sinaliza uma mudança de era para um ativo que a Votorantim construiu ao longo de mais de seis décadas de operações na América Latina.
Uma holding centenária abre mão do comando
A Votorantim, holding brasileira com mais de cem anos de história e presença em 19 países, controlava a Nexa Resources desde sua constituição como empresa integrada de polimetálicos. A decisão de desfazer esse vínculo — ainda que parcialmente, já que o grupo brasileiro seguirá como acionista relevante da Boliden — representa uma inflexão estratégica significativa para uma das poucas empresas brasileiras a ostentar grau de investimento nas três principais agências de classificação de risco.Nos termos do acordo divulgado em Luxemburgo, sede legal da Nexa, a Votorantim transferirá suas ações da companhia à Boliden mediante uma troca de papéis, recebendo 0,250 novas ações ordinárias da Boliden para cada ação ordinária da Nexa detida. Com isso, após a conclusão da operação, a Boliden passará a deter 64,68% do total de ações e direitos de voto da Nexa, assumindo o posto de acionista controladora. A Votorantim, por sua vez, receberá aproximadamente 7% do capital total da Boliden e terá o direito de indicar um representante para eleição ao Conselho de Administração da empresa sueca — indicação sujeita à aprovação da autoridade sueca de Investimento Estrangeiro Direto.
A Nexa em números: um ativo de peso
Para compreender a dimensão da transação, é necessário olhar para o que está sendo transferido. A Nexa é, conforme descrito em seu próprio perfil corporativo, "uma produtora integrada de polimetálicos em larga escala e baixo custo, tendo o zinco como seu principal produto", com "mais de 65 anos de experiência no desenvolvimento e operação de ativos de mineração e fundição na América Latina".O portfólio operacional da companhia inclui cinco minas polimetálicas — quatro subterrâneas de longa vida útil (duas na região dos Andes Centrais do Peru e duas no Brasil, nos estados de Minas Gerais e Mato Grosso) e uma a céu aberto também no Peru. Além disso, a empresa opera três fundições de zinco: as unidades de Três Marias e Juiz de Fora, em Minas Gerais, e a de Cajamarquilla, em Lima, descrita como "a maior fundição de zinco das Américas". Trata-se, portanto, de um conjunto de ativos estratégicos com relevância continental — e que agora passará ao controle de um grupo europeu.
A Boliden: quem é o novo dono
A compradora não é uma recém-chegada ao universo dos metais. A Boliden é uma empresa sueca do setor metalúrgico com operações distribuídas pela Europa, atuante nas frentes de exploração, mineração, fundição e reciclagem. Suas ações são negociadas no segmento Large Cap da Nasdaq Estocolmo, e a companhia se posiciona institucionalmente como voltada a "fornecer metais essenciais para a transição para uma sociedade sustentável".A aquisição do controle da Nexa representará para a Boliden um salto geográfico expressivo — de suas bases europeias para operações na América do Sul —, além de acesso a uma cadeia integrada de produção de zinco com escala e infraestrutura consolidadas. A complementaridade operacional entre as duas empresas foi destacada pelo próprio CEO da Nexa ao comentar o negócio.Ignacio Rosado, presidente-executivo da Nexa Resources, manifestou entusiasmo com a transação ao afirmar que ela representa "uma oportunidade empolgante para a Nexa trabalhar ao lado de um grupo global de mineração e metais com operações altamente complementares".
Em nota divulgada junto ao anúncio, Rosado delineou as prioridades da companhia durante o período de transição: "Ao longo deste processo, nosso foco permanece na operação de nossos ativos no Brasil e no Peru com os mais altos padrões, priorizando segurança, excelência operacional, sustentabilidade, inovação e produção responsável."O executivo também projetou o horizonte de colaboração com o novo controlador: "Aguardamos com expectativa a oportunidade de trabalhar juntos para continuar construindo uma empresa sólida, guiados por nossos compromissos compartilhados e com foco na criação de valor a longo prazo."
Listagem mantida, gestão preservada
Um dos aspectos que mais chama a atenção no desenho da operação é a intenção declarada da Boliden de preservar a estrutura operacional e gerencial da Nexa. Conforme o comunicado, após a conclusão da transação, "a Nexa continuará a existir como uma entidade jurídica separada, organizada sob as leis de Luxemburgo, deverá permanecer listada na Bolsa de Valores de Nova York e continuará a reportar seus resultados de acordo com a Lei de Valores Mobiliários dos EUA de 1934".No plano de governança, o Conselho de Administração da Nexa deverá ser composto por sete diretores após o fechamento, quatro dos quais afiliados à Boliden. A empresa sueca também indicou que "a atual equipe de gestão da Nexa permaneça em seus cargos" e que "a Nexa será operada e reportada como uma empresa separada". Essa arquitetura sugere uma integração gradual, com a Boliden exercendo seu controle por via acionária e de governança, sem dissolução imediata da identidade corporativa da Nexa.
OPA para minoritários e obrigações no Peru
O acordo prevê ainda obrigações relevantes em relação aos acionistas minoritários da Nexa. Simultaneamente à assinatura do acordo principal entre Votorantim e Boliden, a Nexa celebrou acordos separados com a compradora que estabelecem, entre outros pontos, que a Boliden deverá iniciar uma oferta pública de aquisição voluntária (VTO) para comprar em dinheiro todas as ações remanescentes detidas por minoritários dentro de trinta dias do fechamento. O preço por ação será determinado com base na mesma taxa de câmbio de 0,250 e no preço médio ponderado pelo volume de negociação das ações da Boliden na Nasdaq Estocolmo nos vinte dias de negociação consecutivos anteriores ao fechamento.No Peru, a legislação local impõe obrigações adicionais. Após a conclusão da transação, a Boliden deverá iniciar ofertas públicas de aquisição obrigatórias (OPA) para as ações remanescentes de certas subsidiárias da Nexa listadas no país, conforme exigido pela legislação peruana aplicável. A expectativa é que essas ofertas sejam iniciadas dentro de seis meses após o fechamento do negócio.Há ainda uma cláusula de proteção aos minoritários com prazo de três anos: salvo exceções específicas, quaisquer aquisições adicionais de ações da Nexa pela Boliden, ou a facilitação de uma transação de mudança de controle envolvendo a companhia, exigirão o consentimento de um comitê independente e imparcial do Conselho de Administração da Nexa.
Aprovações e cronograma
A conclusão da operação está condicionada ao cumprimento de uma série de condições precedentes, incluindo a aprovação pelos acionistas da Boliden, a aprovação de um novo Conselho de Administração pelos acionistas da Nexa e a obtenção das aprovações regulatórias pertinentes. O prazo estimado para o fechamento é o primeiro trimestre de 2027.Para conduzir o processo, a Nexa Resources contratou o Goldman Sachs como consultor financeiro e o escritório Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP como consultor jurídico principal, com suporte adicional dos escritórios Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados (Brasil), Elvinger Hoss Prussen (Luxemburgo) e Rebaza, Alcázar & De Las Casas (Peru).
Uma transação que vai além dos números
Do ponto de vista analítico, a venda da Nexa pela Votorantim à Boliden é mais do que uma transação de fusões e aquisições. É o sinal de uma reorientação estratégica de uma holding brasileira que, após décadas de construção de um conglomerado industrial diversificado, parece optar por uma posição acionária em um grupo europeu de classe global em vez de manter o controle direto de uma operadora de minas e fundições na América do Sul.Para a Boliden, a aquisição representa um salto de escala e de presença geográfica sem precedentes em sua história, incorporando ativos de zinco de primeira linha em dois dos países mais relevantes para a mineração na América Latina — Brasil e Peru. A transação também dialoga diretamente com a narrativa da transição energética: o zinco, produto central da Nexa, é insumo fundamental para a galvanização do aço usado em infraestrutura renovável e para diversas aplicações em baterias e componentes eletrônicos.Para o Brasil, a operação acende um alerta sobre a capacidade do país de reter o controle estratégico de seus ativos minerais — e, ao mesmo tempo, abre espaço para que padrões europeus de governança, sustentabilidade e gestão operacional se instalem nas minas de Minas Gerais e Mato Grosso. O próximo capítulo desta história será escrito a partir do primeiro trimestre de 2027, quando a Boliden assumirá formalmente o leme de uma das maiores operações de zinco do continente.
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