Geopolítica redefine estratégias da mineração e reforça Brasil na transição energética

Painel discutiu riscos, investimentos, minerais críticos e oportunidades para o país em um cenário global cada vez mais complexo.
A geopolítica deixou de ser um tema restrito às relações diplomáticas e passou a influenciar diretamente decisões estratégicas das empresas de mineração. Investimentos, cadeias de suprimentos, acesso a mercados, segurança energética, descarbonização e desenvolvimento de novos projetos estão cada vez mais condicionados a fatores que extrapolam as fronteiras dos países. Essa foi uma das principais conclusões do primeiro talk-show sobre “Mineração e Geopolítica”, realizado durante a abertura da Exposibram 2026.
Moderado por Patrícia Procópio, presidente do WIM Brasil e CEO da Geraes Strategy, o debate reuniu Gisele Salvador, CFO da Alcoa Brasil; Grazielle Parenti, vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale; Jean Silva Cintra, CFO da Lundin Mining Brasil; e Mariette Bylsma, presidente de Joint Ventures da BHP. As executivas e o executivo discutiram como as transformações globais vêm alterando a forma como as mineradoras planejam seus negócios e avaliam riscos.
Logo na abertura, Patrícia destacou que a mineração ocupa posição central no debate sobre transição energética. Segundo ela, não existe transição energética sem mineração, o que reforça a necessidade de o setor definir qual papel pretende desempenhar na construção de um futuro mais sustentável e conectado às demandas da sociedade. A executiva também ressaltou as vantagens competitivas do Brasil, que reúne abundância de recursos minerais, matriz energética predominantemente renovável e disponibilidade de mão de obra qualificada.
Representando a Alcoa Brasil, Gisele Salvador afirmou que a instabilidade geopolítica passou a fazer parte da realidade corporativa e que as empresas precisam desenvolver mecanismos permanentes de adaptação. Para ela, governança e planejamento de cenários tornaram-se ferramentas fundamentais para lidar com mudanças constantes sem comprometer estratégias de longo prazo.
Segundo a executiva, a competitividade deixou de depender apenas de fatores tradicionais, como custos e demanda. Hoje, aspectos como energia renovável e previsível, ambiente regulatório, infraestrutura, tecnologia e qualificação profissional passaram a integrar as análises de investimento.
Gisele destacou ainda que o objetivo da governança não é eliminar as incertezas, mas permitir respostas mais rápidas diante de cenários diversos. “A estratégia permanece, mas as empresas precisam estar preparadas para reagir com agilidade quando o ambiente muda”, resumiu.
Na avaliação de Grazielle Parenti, da Vale, a mineração vive uma oportunidade sem precedentes impulsionada pela transição energética e pela crescente demanda por minerais críticos. A executiva observou que, embora o setor opere com horizontes de décadas, as empresas precisam compreender as transformações que ocorrem ao longo das cadeias de valor e antecipar tendências globais.
Para ela, o Brasil reúne condições únicas para assumir posição de destaque nesse processo. O país combina reservas minerais relevantes com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, fatores que podem se transformar em diferenciais competitivos para a produção mineral de baixo carbono.
Grazielle também reforçou que a descarbonização deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a representar uma oportunidade concreta de negócios. Nesse contexto, temas como rastreabilidade, transparência, governança e certificação ganham importância crescente para garantir acesso aos mercados internacionais.
Riscos e investimentos de longo prazo
Jean Silva Cintra, da Lundin Mining Brasil, destacou que a gestão de riscos se tornou um dos pilares centrais para a tomada de decisões no setor mineral. Segundo ele, os impactos geopolíticos afetam desde operações em andamento até a viabilidade econômica de novos empreendimentos.
O executivo explicou que a avaliação de projetos hoje precisa incorporar variáveis antes pouco consideradas, como riscos geopolíticos, estabilidade regulatória e segurança jurídica. Esses fatores influenciam diretamente o custo de capital e a atratividade dos investimentos, especialmente em projetos de longo prazo voltados à produção de minerais estratégicos, como o cobre.
Jean também chamou atenção para os impactos da instabilidade internacional sobre as cadeias de suprimentos. O aumento de custos de combustíveis, fertilizantes, explosivos e fretes marítimos exige das mineradoras maior capacidade de inovação e desenvolvimento de fornecedores regionais, reduzindo a dependência de mercados distantes.
Representando a BHP, Mariette Bylsma afirmou que as mudanças geopolíticas exigem organizações mais resilientes e disciplinadas em seus processos de investimento. Para a executiva, fatores como segurança energética, inteligência artificial, crescimento populacional e demanda por alimentos estão ampliando a necessidade de minerais estratégicos e fortalecendo a relevância da mineração no cenário global.
Ela destacou que a demanda por cobre deverá crescer significativamente nas próximas décadas, impulsionada pela eletrificação, digitalização e expansão de centros de dados voltados à inteligência artificial. Ao mesmo tempo, observou que novos depósitos minerais tendem a ser mais complexos e exigir modelos inéditos de colaboração entre empresas, governos, comunidades e fornecedores.
Nesse contexto, Mariette apontou as parcerias estratégicas como elemento essencial para viabilizar novos projetos e fortalecer cadeias de valor capazes de responder às exigências do futuro.
Estratégia de longo prazo
Ao final do painel, os participantes convergiram em um ponto: o Brasil possui condições de transformar suas vantagens minerais em protagonismo geopolítico, mas isso dependerá da capacidade de construir estratégias de longo prazo, promover estabilidade institucional e criar um ambiente favorável à inovação e aos investimentos.
Mais do que reagir aos acontecimentos globais, a mensagem predominante foi a necessidade de o país planejar o futuro de forma coordenada, aproveitando a crescente importância dos minerais na transição energética, na segurança energética e na nova configuração das cadeias produtivas mundiais.
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