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TERRAS RARAS

Vinte e um projetos, uma mina, nenhuma refinaria

Por Redação Brasil Mineral
Vinte e um projetos, uma mina, nenhuma refinaria

O Brasil chega a 2026 com o inventário de terras raras mais rico da sua história e sem a etapa que transforma minério em indústria. Este estudo parte do histórico das tentativas de refino, passa projeto por projeto pelo que existe hoje, mede o que os institutos nacionais conseguem fazer e em que escala, e compara o esforço brasileiro com o que a China gastou para chegar onde chegou.

Vinte e um projetos, uma mina, nenhuma refinaria

O Brasil chega a 2026 com o inventário de terras raras mais rico da sua história e sem a etapa que transforma minério em indústria. Este estudo parte do histórico das tentativas de refino, passa projeto por projeto pelo que existe hoje, mede o que os institutos nacionais conseguem fazer e em que escala, e compara o esforço brasileiro com o que a China gastou para chegar onde chegou.

Reportagem e análise · Brasil Mineral · Dados fechados em 25.ago.2026 · Câmbio de referência R$ 5,15/US$

O histórico curto: o país já refinou, e parou quatro vezes

Em janeiro de 1999, a unidade de tratamento químico de monazita implantada pela INB nas instalações desativadas da usina de urânio de Caldas, no sul de Minas Gerais, estava pronta para operar. Tinha processo validado em escala de demonstração, engenharia concluída no prazo e um custo que envergonharia qualquer projeto equivalente hoje: a escolha do sítio e da rota derrubou o investimento de R$ 16 milhões para cerca de R$ 2 milhões. Faltava a licença ambiental, que saiu em julho de 2004, com atraso de quase cinco anos e meio. Quando chegou, a equipe que desenvolvera o processo já se dispersara por aposentadoria, mudança de área ou de emprego, e os técnicos remanescentes vinham do urânio. A pré-operação foi tentada e não teve êxito.

Antes disso houve um apogeu real. Em 1949, a Orquima, fundada em São Paulo por um grupo de cientistas europeus refugiados do nazismo e liderado pelo professor Paul Krumholtz, passou a processar monazita na Usina Santo Amaro, com concentrado vindo de Buena, no norte fluminense, de Guarapari, no Espírito Santo, e de Cumuruxatiba, no sul da Bahia. Produzia compostos de terras raras, nitrato de tório e mischmetal em padrão tecnológico mundial, com pesquisa e desenvolvimento próprios e uma equipe que formou profissionais que estagiaram na Rhône-Poulenc, a Rhodia francesa. Durou onze anos. Em 1960, por causa do tório e do urânio contidos no resíduo do ataque químico, conhecido como Torta II, a empresa foi estatizada e absorvida pela estrutura nuclear, que virou Nuclebrás em 1974, Nuclemon em 1976 e INB em 1988. Dali em diante, terra rara deixou de ser objetivo e passou a ser o que sobrava do interesse pelo combustível nuclear.

A competência técnica ainda produziu um último resultado antes de sumir. A partir de 1990, em conjunto com o Instituto de Engenharia Nuclear, foi desenvolvido o processo de obtenção de óxidos individuais em alto grau de pureza, e entre novembro de 1993 e outubro de 1996 a Unidade de Demonstração de Extração por Solventes operou em Buena até que a tecnologia fosse considerada consolidada. Consolidada, no vocabulário da engenharia, significa que o passo seguinte seria a escala industrial. O passo seguinte não veio, e a partir daí o país acumulou planos em vez de plantas: o estudo do CGEE de 2013 já propunha financiamento para separação, rede nacional de pesquisa e formação de especialistas, tudo com início previsto para aquele ano.

O saldo de setenta e cinco anos cabe em uma frase do novo estudo do CGEE, elaborado por demanda do MCTI e publicado em 2026: o Brasil não dispõe de planta de separação de terras raras por extração por solventes em operação industrial. É esse o ponto de partida do que interessa agora, que é o presente.

Gráfico 1 · interativo
As tentativas de refino no Brasil, de 1949 a 2031
Cada marca é uma tentativa de operar uma etapa de transformação química no país. A cor indica o desfecho. Toque ou clique para ler o episódio.
OperouOperou e parouPronta e nunca operouEm implantação ou projeto
Fonte: Brasil Mineral, a partir de Rosental (Clube de Engenharia, 2026), CGEE (2013 e 2026), INB, CETEM e comunicados das companhias.

O inventário real: o que existe hoje, e em que estágio

A base curada pelo Serviço Geológico do Brasil para o PDAC, a maior conferência de investimento mineral do mundo, registra vinte e um depósitos brasileiros com terras raras cadastradas como substância principal. Não são vinte e um projetos em desenvolvimento: são vinte e um pontos do território em estágios que vão da operação comercial à ocorrência conhecida e nunca pesquisada. Separá-los por estágio é a forma mais honesta de ver o setor, porque impede a confusão entre depósito e projeto que domina o debate público.

Três estão produzindo, e apenas um deles produz terras raras como produto: a Serra Verde, em Minaçu, em Goiás. Os outros dois são operações de fosfato que carregam terras raras na rocha e não as separam, o complexo do Barreiro, em Araxá, da Mosaic, com reservas provadas e prováveis de 527 milhões de toneladas a 2,1% de nióbio, e Angico dos Dias, da Galvani, na Bahia, com 65 milhões de toneladas a 11,7% de pentóxido de fósforo. Dois projetos estão em estudo de viabilidade com terras raras como alvo principal, Caldeira e Carina, além de Morro Preto, da CMOC, em Goiás, que é fosfato com nióbio e terras raras associados.

Na categoria de depósito conhecido e não explorado está o maior recurso do país. Seis Lagos, no Amazonas, é classificado como world-class, com 2.897 milhões de toneladas a 2,81% de nióbio e 0,15% de terras raras, e permanece sem desenvolvimento há décadas. Ao lado dele aparecem Maecuru, no Pará, com titânio, fosfato e terras raras, Repartimento, em Roraima, e Itapemirim, no Espírito Santo, com terras raras, titânio e zircônio. Na faixa de exploração inicial estão o Alvo IV, da Appia, em Goiás, os sete alvos que compõem o projeto Colossus, da Viridis, em Minas Gerais, e duas ocorrências que fecham um círculo desconfortável: Cumuruxatiba, na Bahia, e Buena, no Rio de Janeiro, as mesmas areias monazíticas que alimentaram a Usina Santo Amaro em 1949, hoje classificadas como exploração inicial.

Gráfico 2 · interativo
Os depósitos brasileiros de terras raras por estágio
Registros com terras raras cadastradas como substância principal na base do Serviço Geológico do Brasil preparada para o PDAC. Toque ou clique em um depósito para ver recurso, empresa e situação.
Fonte: Serviço Geológico do Brasil, base curada de recursos minerais para o PDAC 2024, cruzada com o cadastro de direitos minerários ativos da ANM e com comunicados das companhias até agosto de 2026.

O que o cadastro mostra e a lista de projetos esconde

O cruzamento entre a base geológica e o cadastro de direitos minerários ativos revela três coisas que nenhuma lista de projetos mostra sozinha.

A primeira é que as empresas mais avançadas têm pegada muito maior do que o projeto pelo qual são conhecidas. A Aclara não trabalha apenas em Nova Roma: mantém frentes de pesquisa em Monte Alegre de Goiás e na província de Caetité, Ibiassucê e Lagoa Real, na Bahia, a mesma região do urânio brasileiro. E uma dessas frentes em Goiás já está em expectativa de outorga de lavra, estágio regulatório mais avançado do que o alvará de pesquisa que sustenta juridicamente o projeto principal, o que sugere que a companhia pode ter uma segunda entrada em produção antes do previsto. A Serra Verde, por sua vez, não está apenas em Minaçu: mantém área de pesquisa em Apuí, no Amazonas.

A segunda é que Poços de Caldas virou um distrito, não um projeto. Na mesma estrutura vulcânica, Meteoric e Viridis desenvolvem empreendimentos distintos, em municípios vizinhos, sobre o mesmo tipo de argila de adsorção iônica e no entorno da antiga mina de urânio da INB, que ainda está em descomissionamento. É a razão técnica pela qual o Ibama assumiu, em julho de 2026, a elaboração de um estudo de impactos cumulativos e sinérgicos para a região, e pela qual o Ministério do Meio Ambiente passou a avaliar federalizar o licenciamento. Concentração geológica é vantagem industrial e passivo político ao mesmo tempo.

A terceira é a mais reveladora para o argumento deste estudo. Vários depósitos que contêm terras raras não as declaram como substância no cadastro, porque o processo foi aberto para fosfato ou para nióbio. É o caso provável do Barreiro, de Angico dos Dias, de Morro Preto e de Maecuru. Isso significa que parte relevante das terras raras brasileiras é, ainda hoje, estatisticamente invisível: elas não aparecem como recurso porque nunca foram tratadas como produto. É a mesma lógica que colocou o país nesta situação em 1960, quando a terra rara era o que sobrava do tório, e que segue operando em Catalão, onde minerais portadores associados à extração de fosfato vão para a pilha de rejeito, e em Araxá, onde a CBMM investe há anos em estudos para recuperar terras raras dos rejeitos do beneficiamento de nióbio sem que a produção em escala industrial tenha se concretizado.

Os seis projetos que decidem a próxima década

Entre os depósitos cadastrados, seis reúnem estudo técnico, capital e cronograma. Eles são o ciclo atual, e a pergunta que organiza a leitura de todos é sempre a mesma: onde cada etapa da cadeia vai acontecer.

Gráfico 3 · interativo
Quem faz o quê, e onde
Etapa por etapa, conforme os planos divulgados pelas próprias companhias até agosto de 2026. Toque ou clique em uma célula para ver o detalhe.
No Brasil, em operaçãoNo Brasil, previstoNo exteriorIndefinido
Fonte: comunicados e estudos técnicos de Serra Verde, USA Rare Earth, Meteoric Resources, Viridis, Aclara, Brazilian Rare Earths, Carester, POSCO International e St George Mining.

Serra Verde, em Minaçu: a única mina, e o que ela mostrou ser possível

A operação de Pela Ema é a única com produção comercial no país e detém as únicas concessões de lavra de terras raras já outorgadas no Brasil. Segundo o IBRAM, a empresa levou cerca de quinze anos até produzir, e chegou lá porque combinou pesquisa mineral, desenvolvimento tecnológico e capacidade de processamento, desenvolvendo rota própria até o carbonato de terras raras. Esse é o dado técnico mais importante do ciclo atual: a etapa de lixiviação e produção de carbonato já é dominada em solo brasileiro, com tecnologia desenvolvida aqui, por uma empresa que não precisou importar processo chinês.

O que veio depois deslocou o resto da cadeia. Em abril de 2026, a Serra Verde anunciou combinação de negócios com a norte-americana USA Rare Earth, avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, aproximadamente R$ 14,4 bilhões, e contrato de fornecimento de quinze anos com uma sociedade de propósito específico capitalizada por agências do governo americano e investidores privados, que absorve toda a produção da Fase I. A empresa resultante terá oito operações entre Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido, cobrindo mineração, processamento, separação, metalização e fabricação de ímãs. A parte brasileira é a base upstream. A separação, os metais e ligas, estes na Less Common Metals, no Reino Unido, e a manufatura de ímãs ficam nos ativos estrangeiros do grupo. A produção atual é de cerca de 100 toneladas anuais de óxidos, com meta de aproximadamente 6.400 toneladas até o fim de 2027, e cerca de um terço deve vir da fração pesada. Em 24 de agosto de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos comprometeu US$ 750 milhões, cerca de R$ 3,9 bilhões, na sociedade compradora, elevando sua capitalização a US$ 1,55 bilhão, o equivalente a R$ 8 bilhões.

Caldeira, da Meteoric: o maior recurso em viabilidade, com destino coreano

O estudo de viabilidade definitivo divulgado em 31 de julho de 2026 prevê investimento de US$ 498,4 milhões, cerca de R$ 2,57 bilhões, com primeira produção de carbonato misto em 2029, licença de instalação esperada para o último trimestre de 2026 e decisão final de investimento no primeiro trimestre de 2027. O recurso global é de 1,63 bilhão de toneladas a 2.317 partes por milhão de óxidos totais, e o alvo Capão do Mel, que a base do Serviço Geológico classifica como world-class, respondia sozinho por 409 milhões de toneladas a 2.626 partes por milhão na estimativa de 2023. A planta piloto de Poços de Caldas, de 25 quilos de argila por hora, produz cerca de 455 quilos de carbonato por ano.

Em 27 de julho de 2026, a companhia assinou memorando não vinculante com a POSCO International pelo qual a coreana poderia adquirir até 30% do material por até sete anos, com preço inicialmente referenciado ao Asian Metal Index, e avaliar participação acionária e apoio de agências de crédito coreanas. Testes metalúrgicos indicam que o carbonato de Caldeira pode ser processado pela POSCO sem etapas adicionais de refino. O destino desse material é o empreendimento da mina ao ímã que a coreana planeja nos Estados Unidos.

Carina, da Aclara: o desenho mais explícito da cadeia partida

O estudo de viabilidade concluído em abril de 2026 sob a norma NI 43-101 prevê investimento de US$ 780,9 milhões, cerca de R$ 4,02 bilhões, e produção média de 4.378 toneladas anuais de óxidos contidos em concentrado misto, com 27,2% de neodímio e praseodímio e 4,2% de disprósio e térbio na cesta, proporção de pesadas que poucos projetos ocidentais alcançam. A receita líquida média anual estimada é de US$ 599 milhões e o EBITDA médio anual de cerca de US$ 460 milhões, aproximadamente R$ 2,37 bilhões. A lavra é a céu aberto, sem perfuração e desmonte com explosivos, sem britagem, moagem ou barragem de rejeitos, com lixiviação por sulfato de amônio e cerca de 93% da água recirculada.

A rota declarada, porém, é direta: o carbonato de alta pureza produzido em Goiás seguiria para uma planta de separação na Louisiana, nos Estados Unidos, onde sairiam óxidos individuais, metais e ligas. A empresa inaugurou em março de 2026 uma planta piloto de separação na Virginia Tech e foi selecionada pelo Departamento de Energia americano para desenvolver tecnologia de separação de pesadas com inteligência artificial. No Brasil, instalou em Aparecida de Goiânia, com mais de R$ 30 milhões, uma planta piloto semi-industrial capaz de processar 250 toneladas de argila e produzir concentrado com mais de 95% de pureza. O presidente-executivo, Ramón Barúa, defende que o governo brasileiro está correto em querer a separação no país, mas que isso deveria ser tratado como política de longo prazo, alcançada por etapas.

Colossus, da Viridis: financiamento fechado, refino francês

O projeto soma US$ 449 milhões, aproximadamente R$ 2,31 bilhões, com recurso mineral de 215 milhões de toneladas em concessões contíguas, recuperação metalúrgica de 77% e áreas com teores de óxidos de disprósio e térbio acima de 500 partes por milhão. A licença prévia veio em dezembro de 2025, o pedido de licença de instalação foi protocolado em maio de 2026, a decisão final de investimento está prevista para o quarto trimestre de 2026 e a produção comercial para 2028. Em agosto de 2026 a companhia garantiu até US$ 120 milhões em compromissos de investimento, incluindo até US$ 75 milhões da gestora One Investment Management, superando a necessidade estimada de capital próprio. A parceria de offtake e integração downstream é com a Solvay, que opera separação na França. No Brasil, a empresa inaugurou um centro de pesquisa e desenvolvimento de carbonato misto com investimento de R$ 25 milhões.

Rocha da Rocha, da Brazilian Rare Earths: a exceção que separa no Brasil

É o único projeto do ciclo atual que prevê produzir óxido separado em território nacional. O estudo de escopo divulgado em 13 de agosto de 2026 aponta investimento de US$ 969 milhões até a primeira produção, cerca de R$ 4,99 bilhões, valor presente líquido pós-impostos de US$ 7,9 bilhões, taxa interna de retorno de 89%, payback de 1,1 ano e EBITDA médio anual de aproximadamente US$ 1,37 bilhão, com início de produção previsto para 2031. O depósito Monte Alto, entre Jiquiriçá e Ubaíra, é de rocha dura, com teor médio de 11,3% de óxidos totais na mineralização primária e residual e interceptos que chegaram a 35,3%, e carrega urânio, tântalo e escândio como coprodutos. A província Rocha da Rocha se estende por uma faixa de aproximadamente 160 quilômetros.

O portfólio de produtos é deliberadamente enxuto: óxido de neodímio e praseodímio separado, com média prevista de aproximadamente 5.276 toneladas anuais, e um concentrado rico em pesadas, o HRE+, com 2.253 toneladas anuais, das quais cerca de 247 toneladas de disprósio e térbio combinados e 989 toneladas de ítrio. A separação está planejada para o Complexo Petroquímico de Camaçari, e a engenharia vem de acordo assinado em outubro de 2025 com a francesa Carester, que atua como consultora e prestadora de serviços técnicos para a construção da refinaria integrada e, ao mesmo tempo, comprará por dez anos, em contrato vinculante, o concentrado de pesadas, com até 150 toneladas anuais de disprósio e térbio, para processar na planta Caremag, em Lacq, no sudoeste da França. A planta piloto está sendo desenvolvida no SENAI CIMATEC, com operação prevista para setembro de 2026. Ou seja: o único projeto que separa no Brasil o faz importando engenharia francesa e exportando o concentrado pesado para ser separado na França. É um arranjo honesto, provavelmente o mais realista disponível, e é a medida exata da distância entre ter jazida e ter cadeia.

Araxá, da St George: nióbio financiando terras raras, e a rota ainda aberta

Os recursos declarados partiram de 70,91 milhões de toneladas a 4,06% de óxidos totais e 0,62% de óxido de nióbio, e a atualização de agosto de 2026 elevou a estimativa de terras raras em 75%, aproximando o projeto de 95 milhões de toneladas somados os dois minérios, com a companhia afirmando ter o maior volume de neodímio e praseodímio nas categorias medida e indicada entre depósitos hospedados em carbonatito. O investimento previsto é de até US$ 350 milhões, cerca de R$ 1,8 bilhão, com planta piloto de US$ 25 milhões prevista para o fim de 2026 em parceria com o CEFET e testes de flotação no CIT SENAI, planta industrial a partir de 2027 e operação em 2029. A fabricante de baterias Amperex Technology Limited entrou como acionista em junho de 2026, e a empresa integra a iniciativa MagBras. O modelo de negócio é o mais interessante para a política industrial brasileira, porque usa o nióbio como pilar de estabilidade financeira para bancar a curva de aprendizado das terras raras, e é o único cuja rota de separação continua indefinida, o que o torna o mais sensível a uma decisão pública que a defina.

Onde o valor se separa

A razão econômica para insistir no refino aparece quando se olha o preço por quilo em cada estágio e por elemento. Uma cesta típica de argila iônica brasileira, com aproximadamente 19% de neodímio e praseodímio, 1% de disprósio, 0,2% de térbio, metade de cério e lantânio e cerca de 10% de ítrio, vale por volta de US$ 29 por quilo de óxido total quando vendida como carbonato misto. Os mesmos elementos, separados, deixam de ter um preço e passam a ter vários, distribuídos ao longo de três ordens de grandeza. Entre o lantânio e o térbio há um fator superior a mil vezes.

É por isso que a rentabilidade de um projeto não depende do teor total de óxidos e sim da composição da cesta, e é por isso que a fração pesada dos depósitos brasileiros recebe a atenção internacional que recebe. Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio costumam representar cerca de um quinto da massa e a maior parte do valor.

Gráfico 4 · interativo
Três ordens de grandeza entre o lantânio e o térbio
Preço por quilo de óxido, em escala logarítmica. Alterne entre a cotação de mercado na China e os pisos garantidos pelo governo americano em contratos de fornecimento, incluindo o da produção brasileira da Serra Verde.
Elemento (óxido)ReferênciaUS$/kgR$/kgUso dominante
Térbio (Tb4O7)piso contratado, EUA2.05010.558ímãs de alta temperatura
Térbio (Tb4O7)mercado, China8974.620ímãs, fósforo verde
Disprósio (Dy2O3)piso contratado, EUA5752.961ímãs de alta temperatura
Disprósio (Dy2O3)mercado, China1961.007ímãs de alta temperatura
NdPr (óxido)mercado, China117603ímãs permanentes
NdPr (óxido)piso contratado, EUA110567ímãs permanentes
Hólmio (Ho2O3)mercado, China78400lasers, controle nuclear
Érbio (Er2O3)mercado, China30153fibra óptica, lasers
Cesta em carbonato mistocálculo Brasil Mineral29149o produto que o Brasil exporta
Gadolínio (Gd2O3)mercado, China26136ressonância magnética
Cério (CeO2)mercado, China3,2816,89polimento, catalisadores
Lantânio (La2O3)mercado, China0,663,41catalisadores, óptica
Fonte: cotações de óxidos publicadas por serviços de mercado chineses em fevereiro e abril de 2026; pisos divulgados pela Reuters em abril de 2026 para os contratos da MP Materials e da Serra Verde. Conversão a R$ 5,15/US$.

O que a China fez, e por que isso é um argumento sobre dinheiro público

A vantagem chinesa não é geológica. A China detém menos da metade das reservas mundiais e, no auge do seu domínio, comprava concentrado brasileiro para alimentar as próprias refinarias. O que ela construiu foi outra coisa, em camadas, ao longo de quatro décadas, e cada camada custou dinheiro de Estado.

A primeira camada é científica. Nos anos 1970, o químico Xu Guangxian desenvolveu na Universidade de Pequim a teoria da extração em cascata, que permitiu calcular previamente os parâmetros de baterias de extração por solventes com centenas de estágios em vez de descobri-los por tentativa e erro na planta. O comissionamento de uma linha caiu de anos para meses e o custo do óxido individual desabou. Foi vantagem de engenharia de processo, financiada por pesquisa pública de longo prazo.

A segunda é industrial. Do fim dos anos 1980 em diante, o Estado chinês tratou a separação como política, com crédito dirigido, tolerância a prejuízo e escala deliberada. Os preços caíram a ponto de inviabilizar concorrentes estabelecidos: Mountain Pass, nos Estados Unidos, então a maior fornecedora mundial, encerrou a produção no início dos anos 2000, e produtores europeus e japoneses fecharam ou viraram clientes. A terceira é ambiental, e é a menos confortável: durante décadas, parte do custo foi paga em passivo ambiental na região de Baotou, onde o beneficiamento associado a Bayan Obo acumulou um vasto reservatório de rejeitos químicos e radioativos. Um país que internaliza menos custo ambiental produz mais barato, e essa diferença virou barreira competitiva.

A quarta é de controle. Em 2010, durante crise diplomática com o Japão, o fornecimento foi interrompido na prática. A China perdeu em 2014 o contencioso na Organização Mundial do Comércio sobre cotas de exportação e as retirou no ano seguinte, mas nesse intervalo consolidou dezenas de operadores em poucos grupos estatais de grande porte, instrumento mais eficiente que qualquer cota. No fim de 2023 proibiu a exportação de tecnologia de extração, separação e fabricação de ímãs. Em 4 de abril de 2025 impôs controles sobre sete elementos médios e pesados e seus compostos, metais, ligas e ímãs, com efeito imediato sobre montadoras nos Estados Unidos e na Europa. Em outubro de 2025 ampliou para todas as pesadas e, em novembro, suspendeu essa segunda onda por um ano, mantendo os controles de abril e passando a conceder licenças gerais a exportadores selecionados. O regime em vigor não é embargo: é licenciamento discricionário, e por isso é mais eficaz.

O resultado é uma participação de aproximadamente 91% na separação e no refino, cerca de 94% na fabricação de ímãs e algo próximo de 99% no processamento de terras raras pesadas, contra cerca de 69% da produção mineral. A concentração está sempre no elo químico, nunca no elo geológico.

Gráfico 5 · interativo
Onde a China realmente domina
Participação chinesa por elo da cadeia. A barra clara é o resto do mundo somado. Toque ou passe o cursor para ver a posição brasileira em cada elo.
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026; Agência Internacional de Energia; estimativas de mercado para pesadas compiladas pela Reuters e pela Benchmark Mineral Intelligence.

O tamanho do instrumento brasileiro comparado ao tamanho do problema

Nenhuma capacidade de refino fora da China foi construída sem Estado. Os Estados Unidos não subsidiaram o investimento, garantiram a receita: em julho de 2025, o acordo entre o Departamento de Defesa e a MP Materials fixou piso de US$ 110 por quilo para o óxido de neodímio e praseodímio, e o preço chinês de referência, então em US$ 63 por quilo, quase dobrou nos meses seguintes. Em abril de 2026 o mesmo desenho foi estendido à produção brasileira da Serra Verde, com pisos de US$ 110 para o NdPr, US$ 575 para o disprósio e US$ 2.050 para o térbio, em contrato de quinze anos. O Japão chegou a solução equivalente depois de 2010, combinando estoque estratégico, participação em produtores fora da China e um programa de substituição que reduziu a intensidade de disprósio em seus ímãs. A França sustenta a Caremag com apoio do governo e de parceiros japoneses. A União Europeia opera pela via regulatória, com a lei de matérias-primas críticas. A Austrália optou por reserva estratégica e financiamento direto.

O Brasil, que detém a segunda maior reserva mundial, oferece instrumentos de custo, não de receita. A chamada pública do BNDES e da Finep para transformação de minerais estratégicos, no âmbito da Nova Indústria Brasil, recebeu 124 propostas de 136 grupos econômicos em 23 estados, somando R$ 85,2 bilhões em intenção de investimento, e selecionou 56 planos que totalizam R$ 45,8 bilhões, dez deles voltados a terras raras. O recurso disponibilizado foi de até R$ 5 bilhões, sendo R$ 4 bilhões do BNDES e R$ 1 bilhão da Finep, e o banco estuda reforço. O PL 2780, aprovado na Câmara em 6 de maio de 2026 sob relatoria do deputado Arnaldo Jardim e hoje no Senado, cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos com incentivos escalonados conforme o grau de transformação, prioridade de licenciamento, fundo garantidor de R$ 2 bilhões e incentivos fiscais de até R$ 5 bilhões. E o projeto que persegue o ciclo completo até o ímã, o MagBras, opera com R$ 73 milhões do programa MOVER.

Postos lado a lado, esses números dizem o essencial. O aporte que o Departamento de Guerra dos Estados Unidos fez em uma única mina brasileira supera o fundo garantidor previsto no marco legal brasileiro para todo o setor. O capital anunciado por cinco projetos privados no país supera em três vezes tudo o que o principal edital público disponibilizou. E o programa que pretende levar o Brasil da mina ao ímã custa menos que um centésimo de qualquer um dos projetos de mina em desenvolvimento.

Gráfico 6 · interativo
Instrumentos públicos, capital privado e o dinheiro estrangeiro
Valores anunciados, em bilhões de reais, convertidos a R$ 5,15/US$. Toque ou passe o cursor sobre cada barra para ver o que ela representa.
Fonte: BNDES, Finep, SENAI, Câmara dos Deputados, Departamento de Guerra dos Estados Unidos e estudos de viabilidade das companhias.

Os institutos que podem sustentar o elo que falta

A pergunta relevante não é se existe competência científica no país. Existe, e é antiga. A pergunta é em que estágio de maturidade essa competência está, elo por elo. A escala usada aqui é a da própria engenharia: bancada, quando o processo funciona em laboratório com poucos quilos; piloto, quando roda em regime contínuo e permite dimensionar equipamento; demonstrador industrial, quando reproduz a planta real em escala reduzida com balanço de massa fechado; e industrial, quando opera comercialmente com produto especificado e cliente.

Gráfico 7 · interativo
Maturidade brasileira por etapa da cadeia
Avaliação a partir de evidência pública de operação, não de capacidade declarada. Toque ou passe o cursor sobre cada barra para ver as instituições e os projetos que sustentam a nota.
Fonte: Brasil Mineral, a partir de CGEE (2026), CETEM, SENAI, IPT, UFSC, USP, INB, CNEN e comunicados das companhias. Avaliação editorial, sujeita a atualização a cada nova planta comissionada.

CETEM, o centro de gravidade da separação

O Centro de Tecnologia Mineral, unidade do MCTI que completou 48 anos, concentra o conhecimento nacional de separação. A equipe desenvolve e domina rotas hidrometalúrgicas e de extração por solventes, com infraestrutura piloto e patentes, e opera com os dois sistemas extratantes de referência mundial, o D2EHPA e o P-507, em testes contínuos que já mediram fatores de separação para pares difíceis como samário e neodímio e para a separação de didímio e lantânio, usando concentrado de hidróxidos de terras raras leves fornecido pela CBMM, ou seja, matéria-prima brasileira real e não sintética.

Dois projetos marcam a fronteira. O INCT-PATRIA desenha o fluxograma de processamento do minério de Pitinga, no Amazonas, para produzir soluções contendo pesadas e separar as frações ricas em samário e disprósio como subsídio à produção de ímãs. O REGINA desenvolve, em parceria com instituições alemãs, tecnologias de separação e purificação dos elementos de Araxá empregados na fabricação de ímãs. As linhas de concentração física e flotação, conduzidas por Elves Matiolo, e de rotas químicas de separação de óxidos, conduzidas por Ysrael Marrero Vera, cobrem as duas pontas do beneficiamento. O centro organiza ainda o Seminário Brasileiro de Terras Raras, na sétima edição em julho de 2026 sob a direção de Silvia França, e produz com o IBRAM a trilogia de estudos sobre minerais críticos, cujo terceiro volume, coordenado pela pesquisadora Lúcia Xavier, introduziu indicadores de maturidade produtiva e registrou que as terras raras brasileiras estão estritamente concentradas na extração primária, sem avanço em downstream nem reciclagem.

A rede SENAI, o elo mais perto do produto final

Se a separação está no CETEM, o ímã está no SENAI. O projeto MagBras articula FIESC, FIEMG e BNDES com institutos, fundações e empresas para implantar no país o ciclo completo de produção de ímãs permanentes em escala de demonstrador industrial, da mina ao ímã, incluindo reciclagem. O coordenador, Luís Gonzaga Trabasso, pesquisador-chefe do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, em Joinville, e professor do ITA, fixa 2030 como horizonte. O centro físico é o CIT SENAI ITR, em Lagoa Santa, em Minas Gerais, que já opera planta piloto e é hoje o principal centro nacional dedicado a materiais magnéticos, com infraestrutura para escala piloto e semi-industrial. A rede se estende aos ensaios de flotação de nióbio e terras raras para o projeto de Araxá, com unidade de até 300 quilos por hora prevista para o fim de 2026, e ao SENAI CIMATEC, na Bahia, onde a planta piloto do Monte Alto deve começar a operar em setembro de 2026. É o elo em que o Brasil está mais perto do estado da arte fora da China, e também o mais dependente de uma decisão que ainda não foi tomada, a de garantir demanda cativa para o ímã nacional.

IPT, UFSC, USP e o sistema nuclear

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas responde pela metalurgia do pó e pela caracterização magnética das ligas de neodímio, sem a qual não existe controle de qualidade de ímã, e mantém parceria com a CBMM no desenvolvimento de rotas de separação individual de óxidos. Na UFSC, o grupo de Paulo Antônio Pereira Wendhausen e Juliano Engerroff trabalha processamento térmico e sinterização de ímãs permanentes no âmbito do REGINA, com ensaios de desempenho em ligas de NdFeB conduzidos por Matheus Amorim Carvalho. Na USP, a Escola Politécnica concentra em Fernando Landgraf a autoridade nacional em ímãs de terras raras, e o IPEN acumula décadas de química de purificação herdada do ciclo nuclear.

O sistema nuclear guarda competências que a cadeia não contorna, porque parte relevante do potencial brasileiro está em monazita e em depósitos com tório e urânio associados. Foi o Instituto de Engenharia Nuclear que desenvolveu com a Nuclemon o processo de óxidos individuais, é a INB que detém as instalações de Caldas e o histórico de Buena, é a CNEN, por meio de grupos como o GRANIOTER, que trata do manejo seguro da Torta II, e é a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear que hoje responde pelas análises independentes de risco radiológico dos projetos. É um acervo de engenharia parado que qualquer estratégia séria de refino terá de reativar, agora sob regulação mais rigorosa e escrutínio social muito maior.

Completam o quadro o Serviço Geológico do Brasil, que atualiza o mapeamento das províncias e cuja base curada sustenta a primeira parte deste estudo, com meta fixada pelo CGEE de levar a cobertura geológica da Amazônia a 20% do território até o fim da década, a UFU, que pesquisa depósitos de adsorção iônica, a SATC, que trabalha recuperação de minerais críticos em subprodutos carboníferos, o CEFET, sócio da planta piloto de Araxá, e a PUC-Rio, coautora do novo estudo estratégico nacional. Em julho de 2026, Landgraf esteve na reunião convocada pelo presidente da República sobre minerais críticos, ao lado de Alexandre Magno Rocha, do IFRN, Giorgio de Tomi, da Poli-USP, e Giorgio Romano Schutte, da UFABC. É a primeira vez em muito tempo que a comunidade técnica do tema chega ao centro da decisão.

O balanço é direto. O Brasil tem laboratórios, rotas, patentes e pesquisadores capazes de levar um licor de terras raras a óxidos individuais de alta pureza. O que não tem é uma planta que faça isso todo dia, com dezenas de milhares de metros cúbicos de solução por ano, produto especificado por cliente e custo caindo com a curva de aprendizado. Essa distância não se atravessa com mais pesquisa. Atravessa-se com capital, demanda contratada e uma década de operação contínua, e é aí que a comparação com a China deixa de ser retórica e vira orçamento.

O que precisa ser decidido, e em que ordem

O roteiro do CGEE para 2026 a 2040 propõe implantar a primeira planta industrial nacional de separação entre 2026 e 2030, estruturar capacidade de refino de óxidos individuais de alta pureza, desenvolver produção nacional de metais, criar capacidade piloto para ligas magnéticas e chegar a uma planta piloto de ímãs de neodímio-ferro-boro até 2030, com separação, escalonamento industrial e formação de pessoal concentrados entre 2031 e 2035 e consolidação até 2040. Das cinco cadeias de aplicação analisadas, quatro dependem criticamente da separação, e apenas parte da indústria de catalisadores poderia avançar antes que esse elo esteja estruturado. Sobre esse desenho, quatro decisões concretas separam o plano da planta.

A primeira é o instrumento de receita. Fundo garantidor, incentivo fiscal e prioridade de licenciamento reduzem o custo do capital, e nenhum deles protege uma planta brasileira contra uma queda deliberada de preço decidida por um fornecedor dominante. Piso de preço, contrato público de compra de longo prazo ou estoque regulador são instrumentos de outra natureza, e são exatamente os que estão financiando o refino em todos os países que o estão construindo. É por isso que material brasileiro está sendo separado com garantia americana e não brasileira: quem paga o piso decide onde fica a planta.

A segunda é a demanda. O Brasil importa mais de 85% dos ímãs que consome e não tem mecanismo que agregue compras públicas e privadas em um contrato plurianual capaz de sustentar uma linha nacional. O marco regulatório do setor elétrico, com ampliação do mercado livre e leilões de reserva de capacidade que já preveem baterias, a expansão de data centers e o programa MOVER criam demanda dispersa por motores, geradores e armazenamento que hoje não conversa com a agenda mineral. Como observou o economista Amaro Pereira, da COPPE/UFRJ, no seminário do CETEM, a verticalização não pode se limitar a upstream e midstream: precisa contemplar o downstream e a recuperação dos componentes.

A terceira é a previsibilidade do licenciamento, e ela é mais difícil do que parece porque as exigências ambientais são legítimas. O caso de Poços de Caldas mostra o problema em estado puro: dois projetos e uma antiga mina de urânio em descomissionamento sobre a mesma estrutura, com estudo de impactos cumulativos assumido pelo Ibama, novas análises radiológicas a cargo da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear e possibilidade de federalização do licenciamento. Nada disso é excessivo. O que falta é prazo conhecido, e o precedente de Caldas, com cinco anos e meio entre planta pronta e licença emitida, mostra o que acontece quando o cronograma regulatório e o cronograma de engenharia correm em velocidades diferentes.

A quarta é gente, e é a que menos aparece em anúncio de investimento. A operação contínua de uma bateria de extração por solventes é conhecimento tácito, aprendido em planta, e o Brasil interrompeu a planta três vezes. O roteiro do CGEE recoloca a formação de especialistas como política a executar entre 2026 e 2030, envolvendo MCTI, MEC, Capes, SENAI e universidades, e propõe uma rede nacional de pesquisa em terras raras, a mesma recomendação que o estudo de 2013 já fazia. A rede de institutos federais e de escolas técnicas está distribuída pelas regiões minerárias de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Amazonas, e adaptar currículos de mineração e química para processamento de minerais críticos custa uma fração de qualquer planta.

Há ainda uma contranarrativa legítima que precisa ser registrada, formulada pelo diretor técnico do IBRAM, Julio Neri, no lançamento do Green Paper produzido com o CETEM: a China alcançou a liderança com subsídios pesados e investimentos massivos, subir na cadeia exige recursos da mesma ordem, e nem sempre a agregação de valor gera no curto prazo o mesmo saldo comercial que a exportação de concentrados, que é o que sustenta o superávit brasileiro. A posição não é contra a verticalização, é a favor de fazê-la de forma planejada, explicitando o que ela custa. As duas leituras convergem em um ponto prático: sem instrumento que torne financiável uma planta de separação em um mercado que pode ser inundado a qualquer momento, nenhuma delas se realiza.

Como saber qual cenário está se realizando

O cenário inercial é o mais provável se nada mudar. O Brasil chega a 2030 com quatro a seis operações em produção, exportando concentrado e carbonato misto sob contratos de longo prazo com compradores que separam em seus territórios. Receita, emprego e arrecadação crescem, e a posição do país na cadeia continua onde está. É o cenário que o CGEE identifica na experiência indiana: reservas relevantes, ausência de cadeia de separação, exportação de concentrado de baixo valor agregado.

O cenário do refino contratado depende de três decisões que ainda não foram tomadas: uma linha de financiamento específica para separação, que o próprio CGEE recomenda lançar em 2026, um fundo de desenvolvimento da cadeia previsto para 2027 e a exigência legal de que projetos beneficiados avancem para etapas de transformação. Camaçari é hoje o candidato mais concreto, e o cronograma da Brazilian Rare Earths coloca 2031 como data. O cenário da cadeia integrada até o ímã, que o MagBras persegue para 2030, exige tudo isso mais o instrumento de receita e o agregador de demanda.

A história das tentativas anteriores sugere onde olhar para saber qual deles está acontecendo, e não é no anúncio de investimento, que já existe em volume inédito. É em três indicadores discretos: a data de emissão das licenças de instalação dos projetos em fila, o número de operadores de processo formados por ano nas escolas técnicas das regiões minerárias e a assinatura do primeiro contrato de compra de longo prazo de óxido separado por um comprador brasileiro. Enquanto os três não se moverem juntos, o país estará repetindo, com capital estrangeiro e vocabulário novo, o mesmo ciclo que começou em 1949.

Referências

Os valores em dólar deste estudo foram convertidos a R$ 5,15, cotação de referência do fim de agosto de 2026. Cotações de óxidos correspondem a fevereiro e abril de 2026.

Rosental, Simon. As Terras Raras no Brasil. Clube de Engenharia, 31 de julho de 2026

Lei nº 14.514, de 29 de dezembro de 2022. Planalto

Novas oportunidades para o setor mineral trazidas pela Lei 14.514. Demarest

Serra Verde anuncia fusão com a USA Rare Earth e contrato de 15 anos para fornecimento aos EUA. Brasil Mineral

Brazilian Rare Earths estima valor de US$ 7,9 bilhões para projeto na Bahia. Brasil Mineral

Meteoric e POSCO assinam parceria para o projeto Caldeira. Mining Technology

Caldeira rare earths project, Brazil: atualização e recursos. Mining Weekly

Acompanhamento do setor: cobertura de terras raras. Brasil Mineral

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