Departamento de Guerra dos EUA eleva aporte a R$ 3,9 bilhões e destrava a compra da Serra Verde

Aporte destranca a compra de R$ 14,4 bilhões da mina Pela Ema e inclui contrato de compra futura de US$ 300 milhões pelo governo americano ao longo de cinco anos.
O Departamento de Guerra dos Estados Unidos, antigo Departamento de Defesa, comprometeu US$ 750 milhões, cerca de R$ 3,9 bilhões, na sociedade de propósito específico que vai comprar a totalidade da produção da Fase 1 da mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. O valor é US$ 250 milhões, ou R$ 1,3 bilhão, superior ao previsto no desenho original do negócio, e elevou a capitalização do veículo a US$ 1,55 bilhão, o equivalente a R$ 8 bilhões. Com isso, cai uma das condições precedentes para o fechamento da aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth, anunciada em 20 de abril por cerca de US$ 2,8 bilhões, ou R$ 14,4 bilhões. Os acionistas da compradora se reúnem em assembleia extraordinária no dia 28, e a companhia afirma esperar concluir a operação poucos dias depois.
Ao lado do aporte do Departamento de Guerra, o veículo obteve carta-compromisso de um banco institucional de primeira linha, não identificado, para uma linha rotativa sênior de até US$ 500 milhões, ou R$ 2,6 bilhões, garantida por ativos e destinada a financiar o capital de giro das compras junto à SV Management Switzerland, braço comercial do grupo. Somadas, as duas pernas dão à sociedade capacidade de financiamento de US$ 1,25 bilhão, cerca de R$ 6,4 bilhões. A ela se acrescenta um contrato de compra futura pelo qual o próprio governo americano adquirirá não menos que US$ 300 milhões, ou R$ 1,5 bilhão, em produtos pagáveis de terras raras ao longo de cinco anos. O contrato de fornecimento firmado em abril tem prazo de 15 anos, cobre 100% da produção da Fase 1 e combina cláusula take-or-pay com pisos de preço para os quatro elementos magnéticos, com repartição do excedente entre mineradora e comprador quando a cotação de mercado supera o piso.
Os patamares divulgados pela companhia, de US$ 2.050 por quilo de térbio, cerca de R$ 10,6 mil, e US$ 575 por quilo de disprósio, cerca de R$ 3 mil, são os primeiros mecanismos do gênero aplicados a terras raras pesadas. O setor convive há duas décadas com um problema que nenhum estudo de viabilidade resolve sozinho: os preços de referência são formados dentro de uma cadeia controlada por um único país, o que permite a compressão deliberada de margens sempre que um projeto ocidental se aproxima da decisão de investimento.
Pela Ema é a única mina de argila iônica em produção comercial fora da Ásia e a única operação em escala fora do continente capaz de entregar simultaneamente neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, além de ítrio. Foram mais de 16 anos de desenvolvimento e mais de US$ 1 bilhão, ou mais de R$ 5 bilhões, investidos até a entrada em produção comercial, no início de 2024. A operação ainda está em ramp-up e produz hoje algo em torno de 100 toneladas de óxidos por ano, com meta de cerca de 6.400 toneladas de TREO até o fim de 2027, número que revisa para cima a capacidade nominal de 5 mil toneladas informada nas primeiras comunicações do projeto. Uma segunda fase, ainda em avaliação, poderia dobrar a produção de minério até 2030. Ao longo da vida útil, a cesta de óxidos se distribui, em percentual de valor, entre ítrio com 42%, neodímio e praseodímio com 22%, disprósio com 19% e térbio com 13%, perfil raro justamente por concentrar as pesadas escassas no Ocidente. A companhia projeta Ebitda anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões, de R$ 2,8 bilhões a R$ 3,3 bilhões, ao fim de 2027, e estima que a Serra Verde responderá por mais da metade do suprimento de terras raras pesadas críticas fora da China no mesmo horizonte. A mina emprega cerca de 350 pessoas, com maioria de mão de obra local.
Durante o desenvolvimento do projeto, a produção de Minaçu esteve amarrada a contratos de dez anos com a chinesa Shenghe Resources, e chegou a ter até 85% do óxido direcionado à cadeia industrial chinesa de veículos elétricos e turbinas eólicas. Em dezembro de 2025, a Serra Verde antecipou o encerramento desses contratos, sete anos antes do prazo, movimento que coincidiu com a ampliação do empréstimo da International Development Finance Corporation.
O empréstimo da DFC, elevado a US$ 565 milhões, ou R$ 2,9 bilhões, em fevereiro, integra o Project Vault, programa de US$ 12 bilhões, cerca de R$ 62 bilhões, para formação de estoques estratégicos, e prevê opção de participação minoritária. Em janeiro, o Departamento de Comércio firmara com a USA Rare Earth pacote de até US$ 1,6 bilhão, ou R$ 8,2 bilhões, com emissão de 16,1 milhões de ações ordinárias e cerca de 17,6 milhões de bônus de subscrição ao governo americano.
Concluída a fusão, a companhia combinada terá operações nos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil, com expansão prevista para a França, reunindo a mina de Round Top, no Texas, os metais e ligas da Less Common Metals, no Reino Unido, a fábrica de ímãs de Stillwater, em Oklahoma, com meta de 600 toneladas anuais de capacidade até o quarto trimestre, e a separação e reciclagem da Carester, na França. A separação de óxidos está prevista para uma planta em desenvolvimento nos Estados Unidos, e a metalização, no Reino Unido. A empresa afirma avaliar uma unidade de separação no Brasil, com decisão final de investimento prevista para o início de 2027, e essa data vale mais para o setor nacional do que a assembleia do dia 28.
O mercado leu o anúncio com cautela: as ações da USA Rare Earth recuaram cerca de 5,7% na segunda-feira, a US$ 18,17, em faixa de 52 semanas entre US$ 11,45 e US$ 43,98. (Brasil Mineral)
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