Departamento de Guerra dos EUA eleva aporte a R$ 3,9 bilhões e destrava a compra da Serra Verde

Em 2025, Minaçu embarcou 678 toneladas de terras raras para a China e 51 quilos para os Estados Unidos. Em 2026, nenhum quilo saiu para a China, e o primeiro carregamento americano, de 2 toneladas, foi despachado em fevereiro.
Washington deu nesta segunda-feira, 24 de agosto, o passo que faltava para transformar a única mina de terras raras em operação comercial no Brasil em peça de uma cadeia de suprimentos militar e industrial americana. O Departamento de Guerra dos Estados Unidos, antigo Departamento de Defesa, comprometeu US$ 750 milhões, cerca de R$ 3,9 bilhões, na sociedade de propósito específico que vai comprar a totalidade da produção da Fase 1 da mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. O valor é US$ 250 milhões, ou R$ 1,3 bilhão, superior ao previsto no desenho original do negócio, e elevou a capitalização do veículo a US$ 1,55 bilhão, o equivalente a R$ 8 bilhões. Com isso, cai uma das condições precedentes para o fechamento da aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth, anunciada em 20 de abril por cerca de US$ 2,8 bilhões, ou R$ 14,4 bilhões. Os acionistas da compradora se reúnem em assembleia extraordinária no dia 28, e a companhia afirma esperar concluir a operação poucos dias depois.
Ao lado do aporte do Departamento de Guerra, o veículo obteve carta-compromisso de um banco institucional de primeira linha, não identificado, para uma linha rotativa sênior de até US$ 500 milhões, ou R$ 2,6 bilhões, garantida por ativos e destinada a financiar o capital de giro das compras junto à SV Management Switzerland, braço comercial do grupo. Somadas, as duas pernas dão à sociedade capacidade de financiamento de US$ 1,25 bilhão, cerca de R$ 6,4 bilhões. A ela se acrescenta um contrato de compra futura pelo qual o próprio governo americano adquirirá não menos que US$ 300 milhões, ou R$ 1,5 bilhão, em produtos pagáveis de terras raras ao longo de cinco anos. O contrato de fornecimento firmado em abril tem prazo de 15 anos, cobre 100% da produção da Fase 1 e combina cláusula take-or-pay com pisos de preço para os quatro elementos magnéticos, com repartição do excedente entre mineradora e comprador quando a cotação de mercado supera o piso.
Os patamares divulgados pela companhia, de US$ 2.050 por quilo de térbio, cerca de R$ 10,6 mil, e US$ 575 por quilo de disprósio, cerca de R$ 3 mil, são os primeiros mecanismos do gênero aplicados a terras raras pesadas. O setor convive há duas décadas com um problema que nenhum estudo de viabilidade resolve sozinho: os preços de referência são formados dentro de uma cadeia controlada por um único país, o que permite a compressão deliberada de margens sempre que um projeto ocidental se aproxima da decisão de investimento.
Pela Ema é a única mina de argila iônica em produção comercial fora da Ásia e a única operação em escala fora do continente capaz de entregar simultaneamente neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, além de ítrio. Foram mais de 16 anos de desenvolvimento e mais de US$ 1 bilhão, ou mais de R$ 5 bilhões, investidos até a entrada em produção comercial, no início de 2024. A operação ainda está em ramp-up e produz hoje algo em torno de 100 toneladas de óxidos por ano, com meta de cerca de 6.400 toneladas de TREO até o fim de 2027, número que revisa para cima a capacidade nominal de 5 mil toneladas informada nas primeiras comunicações do projeto. Uma segunda fase, ainda em avaliação, poderia dobrar a produção de minério até 2030. Ao longo da vida útil, a cesta de óxidos se distribui, em percentual de valor, entre ítrio com 42%, neodímio e praseodímio com 22%, disprósio com 19% e térbio com 13%, perfil raro justamente por concentrar as pesadas escassas no Ocidente. A companhia projeta Ebitda anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões, de R$ 2,8 bilhões a R$ 3,3 bilhões, ao fim de 2027, e estima que a Serra Verde responderá por mais da metade do suprimento de terras raras pesadas críticas fora da China no mesmo horizonte. A mina emprega cerca de 350 pessoas, com maioria de mão de obra local.
A guinada comercial aconteceu em menos de dois anos e explica boa parte do interesse americano. Durante o desenvolvimento do projeto, a produção de Minaçu esteve amarrada a contratos de dez anos com a chinesa Shenghe Resources, e chegou a ter até 85% do óxido direcionado à cadeia industrial chinesa de veículos elétricos e turbinas eólicas. Em dezembro de 2025, a Serra Verde antecipou o encerramento desses contratos, sete anos antes do prazo, movimento que coincidiu com a ampliação do empréstimo da International Development Finance Corporation.
Ao longo de 2025, o município de Minaçu exportou cerca de 678 toneladas de terras raras para a China e apenas 51 quilos para os Estados Unidos, uma proporção de mais de 13 mil para um. Em 2026, o fluxo simplesmente inverteu de sinal: nenhum embarque seguiu para a China e, em fevereiro, 2 toneladas foram despachadas para o mercado americano, primeiro volume relevante da série. Quando as 6.400 toneladas anuais de TREO previstas para o fim de 2027 entrarem em regime, esse volume estará contratualmente comprometido por 15 anos com um veículo capitalizado pelo Departamento de Guerra americano.
O empréstimo da DFC, elevado a US$ 565 milhões, ou R$ 2,9 bilhões, em fevereiro, integra o Project Vault, programa de US$ 12 bilhões, cerca de R$ 62 bilhões, para formação de estoques estratégicos, e prevê opção de participação minoritária. Em janeiro, o Departamento de Comércio firmara com a USA Rare Earth pacote de até US$ 1,6 bilhão, ou R$ 8,2 bilhões, com emissão de 16,1 milhões de ações ordinárias e cerca de 17,6 milhões de bônus de subscrição ao governo americano. Ao fim do processo, o Estado americano é credor, acionista, comprador e garantidor de preço do mesmo ativo, uma concentração de papéis que não tem paralelo recente na mineração ocidental.
Para o Brasil, a pergunta relevante não é quem detém o título minerário, que segue submetido à Agência Nacional de Mineração, mas em que degrau da cadeia o país permanece. Concluída a fusão, a companhia combinada terá operações nos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil, com expansão prevista para a França, reunindo a mina de Round Top, no Texas, os metais e ligas da Less Common Metals, no Reino Unido, a fábrica de ímãs de Stillwater, em Oklahoma, com meta de 600 toneladas anuais de capacidade até o quarto trimestre, e a separação e reciclagem da Carester, na França. Nesse arranjo, a etapa brasileira se concentra na lavra e na produção de carbonato misto de terras raras, produto de valor agregado superior ao minério bruto, porém anterior à separação, que é onde a margem se forma. A separação de óxidos está prevista para uma planta em desenvolvimento nos Estados Unidos, e a metalização, no Reino Unido. A empresa afirma avaliar uma unidade de separação no Brasil, com decisão final de investimento prevista para o início de 2027, e essa data vale mais para o setor nacional do que a assembleia do dia 28. Convém registrar ainda uma nuance societária pouco explorada: o Serra Verde Group é sediado em Zug, na Suíça, e a comercialização passa pela SV Management Switzerland, de modo que a operação brasileira, a Serra Verde Pesquisa e Mineração, ocupa a ponta física de uma estrutura cuja receita é reconhecida fora do país.
A linha de US$ 500 milhões existe até aqui como carta-compromisso, e não como crédito contratado, e pela redação do aditivo ao contrato de fornecimento essa condição pode ser satisfeita pela carta, o que obriga a compradora e sua subsidiária incorporadora a concluir a fusão mesmo sem funding desembolsado no veículo. A própria companhia registra em documentos enviados à SEC que o apoio financeiro do governo americano pode ser reduzido, adiado ou retirado diante de mudanças de política, restrições orçamentárias ou desdobramentos políticos, e que sua inclusão em lista chinesa de controle de exportações afeta o acesso a insumos originados na China. Em junho, apurações locais em Goiás indicaram possível interrupção de um contrato de fornecimento de equipamentos considerados estratégicos para a retomada da produção em Minaçu, efeito colateral dessa mesma listagem. Somam-se a transição de comando planejada, condicionada ao fechamento tempestivo da aquisição, e a assunção do endividamento retido da Serra Verde, com covenants restritivos, pela companhia combinada. O mercado leu o anúncio com cautela: as ações da USA Rare Earth recuaram cerca de 5,7% na segunda-feira, a US$ 18,17, em faixa de 52 semanas entre US$ 11,45 e US$ 43,98.
No Brasil, o negócio segue sob escrutínio, ainda que sem trava formal identificada até aqui. A superintendência-geral do Cade abriu em maio procedimento administrativo para avaliar se a combinação de negócios e o contrato de fornecimento configuram ato de concentração. O Ministério de Minas e Energia, respondendo a requerimento da Câmara, informou que a venda do controle societário não transfere automaticamente a autorização de lavra e, portanto, não exige anuência prévia do governo federal, registrando que a transferência não havia sido protocolada na ANM. No Supremo Tribunal Federal, a Rede Sustentabilidade protocolou a ADPF 1320, sob relatoria do ministro Nunes Marques, questionando as operações societárias à luz do artigo 176 da Constituição, enquanto deputados do PSOL levaram à Procuradoria-Geral da República representação pedindo a anulação da venda. No Congresso, tramita no Senado o projeto de política nacional de minerais críticos e estratégicos, voltado a beneficiamento e industrialização, e o Ministério de Minas e Energia formatou proposta de criação de um Conselho Nacional de Política Mineral com poder de analisar e autorizar operações envolvendo ativos estratégicos, além da discussão sobre uma estatal de terras raras. Em Goiás, o estado havia criado em agosto de 2025 a Autoridade Estadual de Minerais Críticos e assinado, em março de 2026, memorando de entendimento em minerais críticos com os Estados Unidos, movimento que abriu atrito com Brasília em torno da competência da União sobre os recursos do subsolo.
O caso Serra Verde condensa o dilema brasileiro nos minerais críticos. O país detém reservas potenciais estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, cerca de 23% do total mundial e a segunda maior posição global, mas a China concentra a maior parte da produção e mais de 90% da capacidade de refino, gargalo que nenhuma reserva resolve. A operação mostra que há capital disponível para destravar ativos brasileiros de pesadas, desde que o destino da produção e a etapa de agregação de valor sejam definidos fora do país. Enquanto o marco regulatório nacional não oferecer instrumento equivalente ao piso de preço, ao contrato de longo prazo e ao capital paciente que Washington acaba de colocar na mesa, a lógica que levou Pela Ema para dentro da cadeia americana tende a se repetir nos próximos projetos, na Bahia, em Minas Gerais ou em Goiás. (Brasil Mineral)
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