Reservas para 20 anos, 17 anos para abrir uma mina: a conta que pressiona o ouro

No seminário Além das Onças, executivos mostraram que licenciamento, falta de profissionais, engenharia imatura e juros altos, e não a geologia, travam os novos projetos no Brasil.
Com a onça do ouro negociada em torno de US$ 4.300, depois de ter superado US$ 5.000 no pico recente, o setor mineral brasileiro vive um momento raro de margens amplas, captações bem-sucedidas em bolsa e investidores à procura de ativos. Mas o recado mais repetido no seminário "Além das Onças: presente e futuro dos projetos de ouro no Brasil", realizado pela Brasil Mineral em 22 de setembro, no Auditório Mattos Filho, na Avenida Faria Lima, em São Paulo, foi outro: preço alto não resolve, sozinho, os gargalos que separam um bom depósito de uma mina lucrativa.
A programação foi dividida em cinco blocos. Uma palestra de abertura tratou do mercado de ouro, globalmente e no Brasil. Os três painéis seguintes discutiram, nesta ordem, a passagem da prospecção à mina, os novos players do ouro no país e a produção responsável. Um bate-bola de encerramento foi dedicado aos caminhos para financiar projetos. Ao longo da tarde, o evento tratou de lead time, falta de profissionais, engenharia imatura, juros, insegurança regulatória, garimpo, rastreabilidade, descarbonização e acesso ao mercado de capitais. Esta é a primeira de cinco matérias da Brasil Mineral sobre o seminário, uma para cada bloco, e reúne a abertura, a palestra sobre o mercado global de ouro e as principais conclusões do encontro.
O evento contou com o patrocínio das seguintes empresas: MID Infraestrutura, SBF Engenharia, Core Case (Categoria Master); AngloGold Ashanti, PA Gold, Ero Brasil Xavantina, Geosol, G Mining Ventures, Kinross e CMOC (Categoria Ouro); Brink's, Tracbel, Metso, Fagundes (Categoria Prata), além do apoio da Mattos Filho, AP Consultoria e Frederico Bedran Advogados.
O tom foi dado na abertura por Francisco Alves, editor da Brasil Mineral, responsável pela organização do evento. Ele reconheceu que poderia parecer estranho dedicar um seminário ao ouro num momento em que a pauta do setor é dominada pelos minerais críticos, mas lembrou que o metal ocupa há muito tempo o segundo lugar na produção mineral brasileira e que o país produziu entre 3 mil e 3,5 mil toneladas de ouro desde o século XVIII. O encontro deu sequência à edição de 2025, também dedicada ao metal.
Anfitrião do encontro, Adriano Trindade, sócio e head de mineração do Mattos Filho e conselheiro de Brasil Mineral, contou que o escritório começou há três anos a promover eventos com o objetivo de "trazer a mineração para a Faria Lima", aproximando o setor do mercado financeiro paulista. Segundo ele, naquela época talvez ninguém imaginasse que a mineração se tornaria tema de campanha eleitoral e do discurso do presidente da República na Assembleia Geral das Nações Unidas. "Isso mostra o tanto que a mineração tem se tornado mais dinâmica e talvez até mais desafiadora para pensar o futuro."
O advogado Frederico Bedran, do escritório Frederico Bedran Advogados e também conselheiro da revista, brincou que no evento anterior "o valor da onça subiu só por conta do nosso evento", mas foi ao ponto ao descrever o descompasso entre a demanda de investidores e a oferta de ativos. Segundo ele, toda semana algum investidor nacional ou estreante no setor pergunta se ele tem um projeto de ouro licenciado e em produção. "A minha resposta é: pois é, se você tiver, também tenho interesse." Para Bedran, o papel de encontros como esse é mostrar a dinâmica real do setor, que não é fácil e tem desafios, mas que justamente por isso exige reunir as melhores cabeças.

Demanda estrutural e reservas que duram pouco
A palestra de abertura coube a Gilberto Azevedo, engenheiro de minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, com MBA empresarial e mestrado em administração pela Fundação Dom Cabral. Ex-presidente da Kinross Brasil Mineração, maior produtora de ouro do país, ele hoje ocupa a vice-presidência sênior de Novos Negócios da empresa. Azevedo abriu com uma foto de aves no Parque Estadual de Paracatu, que apresentou como um dos legados da companhia, e com um mapa de palavras gerado por inteligência artificial para medir, de forma qualitativa, os temas que mobilizam a conversa sobre o setor. Ele chamou atenção para a predominância de verbos como ampliar, pesquisar, investir, desenvolver e explorar, que, em sua opinião, denotam uma dinâmica intensa.

Na leitura do executivo, mais importante do que o crescimento de cerca de 17% na demanda global nos últimos 15 anos é a mudança de perfil dessa demanda. A participação de bancos centrais e do investimento saltou de cerca de 40% em 2010 para aproximadamente 60% em 2025. É um dos vetores que impulsionam a procura por novos projetos e por ativos de ouro.
O outro vetor, que segundo ele "nem sempre aparece tanto", é a necessidade de reposição de reservas. As reservas globais somam cerca de 2 bilhões de onças, para uma produção anual de aproximadamente 104 milhões de onças, o que resulta numa relação reserva/produção média de cerca de 20 anos. A reposição, lembrou, só pode vir de duas fontes: a conversão de recursos em reservas ou a descoberta de novos depósitos. Quando ela ocorre pela conversão de recursos, viabilizada justamente pela alta de preço, carrega implícita uma elevação do custo de produção.
O problema é o tempo. O lead time médio entre descoberta e início de operação é de 16 anos no mundo e de cerca de 17,3 anos no Brasil, sem levar em conta a taxa de insucesso da exploração. Se a conta começar no início da pesquisa, o prazo fica ainda maior. "A relação reserva/produção é de 20 anos, muito próximo desse lead time de 16 anos. Então a gente tem essa pressão por tempo para a reposição das reservas."
Os quatro desafios
Azevedo organizou os desafios em quatro frentes. A primeira é o licenciamento, que responde por boa parte do lead time e cuja principal fragilidade é a falta de previsibilidade dos prazos. A segunda é o conhecimento geológico: apenas 28% do território brasileiro está mapeado na escala de 1:100.000 e 53% na de 1:250.000, o que traz incerteza, encarece a pesquisa e reduz, num primeiro momento, a atratividade para investimento. A terceira é a necessidade de capital. Com um intervalo tão longo entre a descoberta e a entrada em operação, o projeto precisa ser financiado por muitos anos com fluxo de caixa negativo, o que exige cooperação dentro do setor.

A quarta frente é a sustentabilidade, que ele definiu como equilíbrio entre ambiente, benefício social e resultado econômico. Nesse campo, Gilberto destacou a pressão crescente pelo consentimento prévio e informado das comunidades e três temas de gestão ambiental: biodiversidade, água e rejeitos. Somam-se a eles a previsibilidade do licenciamento, a descarbonização e a eficiência energética, tanto pela questão climática quanto pelo custo da energia, e a sustentabilidade econômica de longo prazo. "A sustentabilidade é o fiel dessa balança", afirmou. Ele encerrou sua apresentação deixando uma pergunta para os painéis seguintes: como maximizar a eficiência da mineração de ouro nesse contexto?
Preço, custo e planejamento conservador
Questionado pela plateia sobre projeções de preço, Azevedo disse não tê-las e que não se considera especialista no tema. Ofereceu, porém, um raciocínio. Pelo lado da oferta, não há tantos projetos novos entrando, os projetos em pesquisa ainda demandam muito tempo e a reposição por conversão de recursos pressiona custos. Pelo lado da demanda, o aumento da participação de bancos centrais e investimento é uma mudança estrutural que tende a sustentar os preços. "A minha expectativa é de sustentação e talvez de alta, olhando esses dados."
Edson Onofre, representante comercial da Core Case do Brasil, perguntou se o custo de produção atual da Kinross estimula a empresa a produzir mais. Azevedo afirmou que a companhia está bem posicionada na curva de custos e é reconhecida pela disciplina na gestão de custos e pela excelência operacional. No caso de Paracatu, disse, a mina compensa o teor muito baixo com escala e eficiência. A expectativa é produzir pouco mais de 600 mil onças neste ano, repetindo o volume do ano passado, numa operação que ele descreveu como bastante estável. O executivo não revelou números de custo, mas enfatizou que a empresa é conservadora nas projeções e não usa o preço spot para planejar o médio e o longo prazo. "A nossa indústria é uma indústria de ciclo longo. Tudo que a gente faz agora tem que ter essa visão, principalmente no planejamento de mina e de produção."

O que fica do seminário
A primeira conclusão do encontro é que o ciclo atual do ouro tem fundamentos mais estruturais do que conjunturais. A participação de bancos centrais e investimento na demanda subiu de 40% para cerca de 60% em 15 anos, os juros reais continuam baixos nas principais economias, o dólar perde força como reserva de valor e a relação reserva/produção, de cerca de 20 anos, é próxima do lead time de novos projetos. Nenhum dos participantes arriscou projeções, mas a leitura predominante foi de preços sustentados por mais tempo.
A segunda conclusão é que o gargalo brasileiro não é geológico. O país tem boa parte do território pouco mapeado, o ouro lidera as análises feitas para pesquisa mineral e há exemplos de implantação rápida, como os 23 meses da G Mining em Tocantinzinho. Os limites estão na execução. Faltam profissionais: os ingressantes em Engenharia de Minas e Geologia caíram de 32 mil para 7 mil em pouco mais de uma década, centenas de operadores se aposentam nos próximos anos e seis minas subterrâneas disputam os mesmos trabalhadores. Falta maturidade de engenharia antes da decisão de construir, como mostrou o relato da Hochschild. O licenciamento é imprevisível. A legislação trabalhista do subsolo é de quase um século atrás. E o custo de capital, com a Selic de 13,75%, afasta o investidor local de projetos pré-operacionais.
A terceira conclusão diz respeito à disciplina. Da Hochschild, que segura um projeto já licenciado até a engenharia amadurecer, à PA Gold, que avalia ativos com o ouro a US$ 3.000, passando pela Pan American, que mira custos abaixo de US$ 2.000, os executivos insistiram que o preço atual não deve orientar decisões de longo prazo. O alerta de Camilo Farace sobre o ciclo em que a onça caiu de US$ 1.900 para US$ 1.050 ecoou nas falas sobre escalada de custos e salários.
A quarta conclusão é que a rota mais rápida para crescer tem sido a retomada ou a compra de ativos existentes. A história da Yamana, que nasceu comprando uma mina que a Vale ia fechar, e os casos de Jacobina, da Ero e da Amapá Minerals mostram que operações consideradas inviáveis num contexto podem ser muito rentáveis em outro. Ao mesmo tempo, a bolsa de Toronto volta a aparecer como caminho para financiar projetos brasileiros por meio de equity, diante das dificuldades do mercado local.
Por fim, o painel de ouro responsável indicou uma mudança de abordagem em relação ao garimpo, que passa a ser tratado como realidade territorial a ser formalizada por meio de parcerias com regras claras, e não apenas como ilegalidade a ser removida. O caso do Gurupi, onde o confronto travou o licenciamento por anos e a parceria destravou licenças em meses, foi o exemplo mais citado. A questão da origem, porém, segue sem uma resposta regulatória que satisfaça quem opera legalmente: o projeto de lei de rastreabilidade foi criticado por trazer custo e burocracia sem atacar as cerca de 35 toneladas que ainda deixam o país ilegalmente. E a coordenação entre empresas para formar mão de obra, defendida em quase todos os painéis, ainda está por ser construída.
Esta matéria faz parte da cobertura da Brasil Mineral sobre o seminário "Além das Onças", publicada em cinco partes. Leia também:
Patrocínio do seminário
A cobertura completa
Você está aquiParte 1 · AberturaReservas para 20 anos, 17 anos para abrir uma mina: a conta que pressiona o ouro
Parte 2 · Painel 1Preço alto não é licença para investir mal: o que separa um recurso de uma mina
Parte 3 · Painel 2Novos players do ouro apostam em ativos conhecidos e esbarram na falta de mão de obra
Parte 4 · Painel 3Parceria com o garimpo e rastreabilidade viram eixo do ouro responsável
Parte 5 · EncerramentoDe casca na bolsa a gigante: o caso Yamana e o IPO da Amapá Minerals em Toronto






















