Com margem recorde, ouro reprecifica o pipeline de projetos brasileiro

State Street ve US$ 5 mil a onça de volta ao radar em seis meses. Com os 10% mais caros da industria produzindo a US$ 2.500, o Brasil volta a mesa de investimento, tema do seminario Além das Oncas, em 22 de setembro.
A State Street Investment Management divulgou seu monitor mensal do ouro apontando agosto como um ponto de virada. O spot subiu quase 10% no mês, o melhor desempenho desde janeiro, depois que o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou a ampliação da recompra de títulos públicos de prazo longo. O metal entrou no mês abaixo de US$ 4.100 por onça, tocou a faixa de US$ 4.650 a US$ 4.700 e terminou agosto perto de US$ 4.400, o equivalente a R$ 22,5 mil por onça, ou R$ 723 por grama, ao câmbio de R$ 5,11. A perda de ritmo na reta final veio do discurso de Jackson Hole do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, classificado pela gestora como francamente duro.
Para a equipe liderada por Aakash Doshi, head de estratégia de ouro da casa, o saldo do mês é a consolidação de US$ 4.000 por onça (R$ 20,4 mil, ou R$ 657 por grama) como suporte mais firme e a volta de US$ 5.000 (R$ 25,6 mil por onça, ou R$ 821 por grama) ao horizonte dos próximos seis meses. Em entrevista à Kitco, o mesmo estrategista foi além e tratou a hipótese de US$ 10 mil a onça como questão de tempo, não de possibilidade, num ambiente de dívida soberana pressionada, argumentando que o chamado debasement trade nunca desapareceu e apenas hibernou enquanto juros em alta e dólar forte cobravam seu preço.
Os fluxos sustentam a tese. Os ETFs lastreados em ouro captaram US$ 17,1 bilhões em agosto (cerca de R$ 87 bilhões), levando o acumulado do ano a US$ 27,7 bilhões (R$ 142 bilhões), com US$ 7,7 bilhões vindos de fundos europeus e US$ 7,5 bilhões dos americanos, um alargamento geográfico que sucedeu o suporte asiático durante a correção de março a junho. Do lado físico, a China importou um recorde de 1.000 toneladas de ouro não monetário nos sete primeiros meses de 2026, alta de 78% sobre o mesmo período do ano anterior, mesmo com o preço local rodando cerca de 45% acima. Para a gestora, essa demanda de varejo, somada às compras de bancos centrais, funciona como amortecedor das oscilações do investimento ocidental via ETF.
O ano, porém, não foi linear. O spot chegou a tocar US$ 5.595 por onça em janeiro, segundo o World Gold Council, antes de recuar com a guerra no Irã e a reprecificação dos juros americanos. No segundo trimestre, o preço médio caiu 7,2% sobre o trimestre anterior, mas permaneceu bem acima de US$ 4.000. Mesmo com a correção, a média do primeiro semestre ficou perto de US$ 4.690 por onça, contra US$ 3.432 em 2025 e US$ 2.386 em 2024. Em seis anos, o preço médio praticamente triplicou.
Preço médio anual do ouro contra o custo dos 10% mais caros da indústria. Fontes: LBMA e World Gold Council/Metals Focus.
Essa escala é o que reprecifica projetos, e a régua para medir isso é o custo. O custo total de sustentação da indústria, o AISC, subiu 16% em 12 meses e chegou a US$ 1.785 por onça no primeiro trimestre de 2026 (R$ 9,1 mil), no 28º trimestre consecutivo de alta na comparação anual. O principal vetor foi paradoxal: os próprios royalties, que subiram 85% em um ano e passaram de 6% do custo médio de uma operação, em 2021, para 12% agora, empurrados por regimes de alíquota móvel adotados em Gana, Burkina Faso e Mali, com percentuais que sobem conforme o preço do metal.
Ainda assim, o preço correu mais rápido que o custo. A margem média por onça bateu recorde em US$ 3.076 no primeiro trimestre (R$ 15,7 mil), alta de 134% em 12 meses. O número decisivo para quem avalia projeto novo, porém, é outro: mesmo os 10% de produtores com o custo mais alto do mundo registraram margem de US$ 2.363 por onça. Isso implica um custo de sustentação da ordem de US$ 2.500 por onça (R$ 12,8 mil) nessa faixa. Em outras palavras, operações que só se pagavam com o metal acima de US$ 2.500 estavam fora do jogo em toda a década passada e hoje operam com folga de quase US$ 2 mil por onça.
Repartição do preço da onça entre custo total de sustentação e margem. Fonte: World Gold Council/Metals Focus.
É exatamente aí que entra o Brasil. Depósitos de teor baixo, corpos profundos, projetos com logística cara ou com necessidade de planta própria, tudo aquilo que travava em estudo de pré-viabilidade quando o preço rodava entre US$ 1.800 e US$ 2.000, volta para a mesa. O Instituto Brasileiro de Mineração já capturou o movimento: a previsão de investimento das empresas na extração de ouro no quadriênio saltou de US$ 1,4 bilhão para US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,7 bilhões), alta de 39% e a maior revisão entre todos os bens minerais, atrás apenas de terras raras. Na ponta regulatória, os requerimentos de autorização de pesquisa mineral no país cresceram 81% do primeiro ao quarto trimestre de 2025, segundo a ANM.
O ponto de partida é modesto para o tamanho da geologia. O Brasil produziu 84 toneladas em 2024, o equivalente a 2% da extração global, e ocupa a 15ª posição no ranking mundial de produção. Em reservas, no entanto, são cerca de 2,4 mil toneladas, 4% do total mundial, o que coloca o país entre as dez maiores. O pipeline de projetos em desenvolvimento anunciados pelas companhias, que inclui Volta Grande, Cuiú-Cuiú, Castelo dos Sonhos e Água Azul no Pará, Matupá em Mato Grosso, Lavras do Sul no Rio Grande do Sul, Monte do Carmo no Tocantins, Gurupi no Maranhão e Onça do Pitangui em Minas Gerais, pode agregar de 15 a 20 toneladas por ano à produção nacional, sem contar iniciativas de menor porte ainda em análise inicial.
Produção brasileira de ouro e potencial do pipeline de projetos. Fontes: ANM, USGS e projetos anunciados pelas companhias.
Parte disso já saiu do papel. A Aura Minerals colocou Borborema, em Currais Novos (RN), em operação em setembro de 2025, comprou a Mineração Serra Grande, em Crixás (GO), da AngloGold Ashanti por US$ 76 milhões mais 3% de royalties sobre lucros futuros, e trabalha para mais que dobrar o processamento de Almas, no Tocantins, de 1,3 milhão para 3 milhões de toneladas de minério por ano até o início de 2027. A companhia registrou 157.574 onças no primeiro semestre de 2026, o maior volume de primeiro semestre de sua história. A PA Gold, que já opera planta em Mato Grosso, desenvolve o Projeto Sertão, em Faina (GO), com meta de 150 mil onças anuais até 2032 e implantação prevista para 2029. E o mercado de ativos se moveu junto: a MVV foi vendida pela Appian à chinesa Baiyin Nonferrous Group por US$ 420 milhões.
O que o preço não resolve é o prazo. Entre a decisão de investimento e a primeira barra fundida há licenciamento, engenharia, capital e infraestrutura, e o setor mostrou disciplina justamente nessa conta. A produção global de ouro cresceu apenas 2% entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, mesmo com um rali de 45% no preço no intervalo. A física ajuda a explicar: para obter os cerca de 6 gramas de uma aliança, é preciso movimentar pelo menos uma tonelada de rocha. O gargalo brasileiro, portanto, deixou de ser geológico ou de preço e passou a ser de execução e de estrutura de capital.
É esse o eixo do seminário “Além das Onças: presente e futuro dos projetos de ouro no Brasil”, que a Brasil Mineral realiza em 22 de setembro, a partir das 14h, no auditório do Mattos Filho, na Faria Lima, em São Paulo. Depois da edição de 2025, que discutiu se os projetos de ouro no Brasil eram um bom negócio, a agenda de 2026 se desloca da tese para a entrega, com foco em como transformar descobertas em minas, quem são os novos entrantes, como produzir de forma responsável e quais são os caminhos reais de capitalização.
Gilberto Azevedo abre o encontro com um panorama do mercado global de ouro e da posição brasileira. O primeiro painel, “Da prospecção à mina: viabilidade técnica e investimento”, moderado por Helcio Guerra, reúne João Luiz N. Carvalho (Geosol), Ediney Drummond (Hochschild) e Walace Monteiro (MID Infraestrutura). O segundo, “Novos players em ouro no Brasil”, sob moderação de Camilo Farace, traz Leonardo Guimarães Oliveira (PA Gold), Eduardo De Come (Ero Nova Xavantina), Edvaldo Amaral (Pan American) e Eduardo Leão (G Mining). O terceiro, “Ouro responsável e tendências para os próximos anos”, moderado por Adriano Trindade, coloca lado a lado Luís Lima (AngloGold), Isadora Machado e Castro (Integratio) e Filipe Coelho (Brink’s). O encerramento fica com um bate-bola com Antenor Firmino Silva, que implantou a Yamana no Brasil e hoje se dedica à South Atlantic Potash.
O seminário é uma realização da Brasil Mineral, com apoio de Mattos Filho, AP Consultoria e Frederico Bedran Advogados, e patrocínio master de MID Infraestrutura, SBF Engenharia, Core Case e Tracbel, patrocínio ouro de AngloGold Ashanti, PA Gold, Ero Brasil Nova Xavantina, Geosol e G Mining, e patrocínio prata de Brink’s, Metso e Fagundes. O evento é exclusivo para convidados, e profissionais interessados podem manifestar interesse pelo formulário em seminarioouro.brasilmineral.com.br.
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