O que aprender com 50 anos de uma indústria que quase desapareceu

Executivo do setor relembra o colapso da indústria de alumínio para alertar contra riscos similares na exploração de minerais críticos e estratégicos.
Executivo do setor apresenta, em palestra, a trajetória da cadeia do alumínio no Brasil como roteiro de lições para a nova política de minerais críticos e estratégicos
O Brasil já foi um dos maiores exportadores de alumínio primário do mundo. Chegou a produzir quase 1,7 milhão de toneladas por ano, exportava metade disso para mercados internacionais e tinha fábricas funcionando a plena capacidade no Norte e no Nordeste do país. Então, em menos de uma década, o país perdeu mais da metade dessa produção. Fábricas fecharam. Técnicos brasileiros foram trabalhar no exterior. O Brasil, que detinha a terceira (hoje quarta) maior reserva de bauxita do mundo, chegou ao ponto de precisar importar alumínio primário para abastecer sua própria indústria de transformação. Foi essa história — de ascensão, colapso e recuperação parcial — que Octavio Carvalheira, executivo do setor de alumínio e ex-dirigente da ABAL (Associação Brasileira do Alumínio), trouxe ao evento sobre minerais críticos e estratégicos promovido pela AMC (Associação de Minerais Críticos). Sua mensagem, direta, é: se o Brasil não aprender com o que aconteceu com o alumínio, corre o risco de repetir os mesmos erros com o lítio, o nióbio, o cobalto, as terras raras e os demais minerais que hoje definem a geopolítica global da transição energética.
A janela que se abre, mas pode se fechar
Carvalheira abriu sua apresentação com um alerta sobre timing. O momento atual, disse ele, representa uma janela de oportunidade para o Brasil no campo dos minerais críticos, mas lembrou que as janelas podem se fechar. "O mundo tem alternativas. Nós temos grandes vantagens competitivas quando comparados com outros países, mas o capital tem opções. Os países estão se mexendo", afirmou o executivo, mencionando que, já na semana seguinte ao evento, a Indonésia realizaria um congresso similar para discutir sua própria estratégia mineral.
Para ele, a corrida global por minerais críticos — insumos essenciais para baterias, painéis solares, turbinas eólicas e semicondutores — transformou a geologia em geopolítica. Países ricos em recursos estão sendo disputados por blocos econômicos que buscam reduzir dependências, especialmente da China, que domina o processamento de grande parte desses minerais. O Brasil, com reservas expressivas de lítio, nióbio, grafita, terras raras e outros minerais da lista crítica, está no centro desse tabuleiro. Porém, estar no tabuleiro não garante ganhar a partida.
A história que o alumínio conta
Para explicar o que está em jogo, Carvalheira recorreu à memória. A cadeia do alumínio brasileira é, segundo ele, um dos poucos casos no mundo em que um país construiu uma indústria verdadeiramente integrada, indo da mineração da bauxita até a reciclagem do metal. Mas isso não aconteceu por acaso, nem rapidamente. "Foi necessária uma visão de longo prazo, a participação do Estado naquela época, com desenvolvimentos importantes de mineração na Amazônia, depois de já ter começado a indústria em Poços de Caldas, Minas Gerais, que foi o berço da indústria do alumínio brasileira", recordou.
Ele disse que a ABAL, desde sua fundação, teve como missão central justamente articular essa cadeia, desde o minerador até o reciclador. “E esse é um modelo que tem se mostrado muito eficiente", disse o executivo. O resultado foi uma posição de destaque global que o Brasil ocupou por décadas.
Mas a história não é linear. A partir de 2008, a produção de alumínio primário brasileiro entrou em colapso. De 1,6 a 1,7 milhão de toneladas anuais, o país caiu para menos da metade ao final da primeira década do século. As fábricas continuavam lá, a bauxita também, a mão de obra qualificada continuava disponível — aliás, era exportada para outros países. O que sumiu foi a competitividade. E a causa principal, segundo Carvalheira, foi uma só: energia.
"Eu tive a dor de ter que fechar uma fábrica, porque nós não tínhamos condição de manter a tecnologia. Fator fundamental: energia", declarou. Enquanto o Brasil perdia competitividade energética, Canadá e Noruega mantinham suas indústrias funcionando. A China, por razões distintas e em escala própria, expandia. O Brasil encolhia.
Do colapso à cota de importação: quando orgulho cede à realidade
O ponto mais dramático da narrativa veio quando Carvalheira descreveu o momento em que a indústria brasileira de alumínio precisou ir a Brasília pedir autorização para importar o metal que ela mesma já produzia em abundância. "Eu lembro bem quando precisamos ir até Brasília pedir, porque o Brasil não tinha mais alumínio primário para manter toda aquela cadeia de produção de semimanufaturados, que é onde está a maior parte dos empregos do Brasil", relatou.
A situação durou anos. A cada ano, os representantes do setor precisavam renovar o pedido de cota de importação, enfrentando ceticismo dos interlocutores governamentais. "Ah não, vamos acabar com a cota que vocês não vão voltar mais à produção", reproduziu o executivo, descrevendo a resistência que encontravam. A resposta do setor era de persistência: sabiam que os ativos estavam preservados, que as pessoas estavam disponíveis, que a retomada era possível, embora sem ter certeza de como e quando.
Após três anos de negociações e cotas anuais, o setor conseguiu viabilizar a reabertura de um dos fornos que haviam sido desligados. Hoje, segundo Carvalheira, o Brasil voltou a uma posição de autossuficiência em alumínio primário, embora muito aquém do que poderia ser. "Hoje nós não temos mais aquela capacidade para 1,6, ou 1,7 milhão de toneladas, mas o último smelter que estava ainda em condições de ser retomado, retomou a produção e hoje o Brasil se coloca novamente numa posição de autossuficiência em produção de alumínio, o que já é um passo importante, porém muito abaixo do que nós poderíamos estar", argumentou.
Cinco pilares para não repetir o erro
Após estabelecer o diagnóstico histórico, Carvalheira apresentou o que chamou de cinco pilares para uma estratégia consistente de minerais críticos — uma "provocação", como ele mesmo qualificou, para o debate que o evento se propunha a fazer.
Papel do Estado: O primeiro pilar é o mais estrutural. O executivo defende um Estado que ofereça segurança jurídica e mecanismos que garantam simultaneamente a soberania nacional e a atratividade para o capital privado. Mas que também resolva o problema que, em sua experiência, é um dos que mais afugentam o investimento: a demora no licenciamento. "Eu quero deixar muito claro: celeridade não significa queimar etapas, nem baixar o nível de exigências socioambientais para os projetos acontecerem. Celeridade significa ter um processo claro, com tempos e prazos determinados para que o empresário, o capital, consiga se planejar", ponderou. E deu um exemplo nesse sentido: "Eu tenho experiência de esperar 10 anos para obter uma licença prévia. Isso é absolutamente impraticável em qualquer ambiente, mas é a realidade que muitos de nós vivemos e isso precisa de fato ser endereçado."
Tecnologia e indústria: O segundo pilar diz respeito à capacidade tecnológica nacional. Carvalheira reconheceu que o Brasil já teve posição de destaque em tecnologias de mineração e metalurgia, perdeu terreno e precisa recuperá-lo. "É hora de recuperar, de investir nas universidades, em parcerias. E de fato, sem essa tecnologia, nós não vamos conseguir atrair investimento."
Pessoas: O terceiro pilar é o capital humano. Aqui, o executivo fez um diagnóstico preocupante: a mineração perdeu atratividade para as novas gerações. "Nossa indústria precisa voltar a ser sexy novamente”, disse, acrescentando que tem buscado pessoalmente mostrar aos jovens que o setor vai muito além das imagens negativas que aparecem na mídia e que mineração leva oportunidades a populações que dificilmente as teriam de outra forma.
Capital: O quarto pilar trata dos mecanismos de financiamento. Carvalheira observou que praticamente todas as empresas de mineração presentes no evento captaram recursos em bolsas estrangeiras, sinal de que o setor tem reputação internacional sólida, mas também de que o mercado de capitais brasileiro ainda não está maduro o suficiente para essa indústria. "Eu acho que essa precisa ser a missão: atrair o capital dos brasileiros para que tenhamos mais sócios e não apenas stakeholders", propôs.
Sustentabilidade: O quinto pilar, pelo qual Carvalheira afirmou ter "uma paixão especial", é o da atuação socioambiental responsável. Com experiência de liderança em operações no coração da Amazônia, ele foi enfático ao afirmar que não basta cumprir obrigações legais ou pagar compensações. "Precisamos ser um bom vizinho e mostrar que temos um poder transformador”.
A nova política e o voto de confiança
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, recentemente aprovada e em processo de regulamentação, foi tema central da segunda parte da palestra. Carvalheira demonstrou otimismo cauteloso, mas avaliou positivamente o fato de a política existir e de já estar em grande parte regulamentada. E saudou a possibilidade de projetos estratégicos receberem prioridade por meio do Conselho de Minerais Críticos e Estratégicos. Também elogiou o acordo firmado entre a AMC e o Serviço Geológico do Brasil, citando-o como exemplo do tipo de esforço coordenado que o setor precisa.
Mas ele fez questão de contextualizar o Conselho dentro de uma perspectiva mais ampla. "Fundamental é enxergar não só a política. O Conselho de Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos já por si só traz uma alusão clara que a ideia é industrializar, verticalizar, mas precisa ficar claro que nós não vamos conseguir fazer tudo", ponderou. A verticalização — transformar o minério em produtos de maior valor agregado dentro do país — é o objetivo desejável, mas precisa ser perseguido com realismo sobre o que é factível em curto, médio e longo prazo.
A grande incógnita, admitiu Carvalheira, é a implementação. "A grande dúvida que fica é como vai ser implementada essa nova política e a nova prática. Mas temos que dar o voto de confiança", disse.
Nesse sentido, a articulação entre a Política Nacional de Minerais Críticos e a Nova Indústria Brasil foi apontada como essencial. "Essas duas partes, como eu falei anteriormente, precisam se unir. Nós precisamos usar os mecanismos que essas políticas trazem, seja o mecanismo de financiamento, seja o de celeridade no processo."
Conexão global, sem ilusões de autossuficiência
Carvalheira também abordou o debate sobre autonomia versus integração internacional. Para ele, o discurso de autossuficiência total é ilusório e historicamente refutado. "Esse mundo não existe e acho que nunca existiu no passado. Os países que fizeram isso foram claramente deixados para trás", afirmou.
O Brasil, segundo o executivo, tem o ativo raro de manter relações diplomáticas e comerciais com múltiplos blocos geopolíticos, algo que deve ser preservado e aproveitado. O objetivo não é eliminar parcerias internacionais, mas diversificá-las para reduzir dependências críticas. "Não dá para ficar com 95% ou 97% de dependência de nenhum país. É importante que essas parcerias aconteçam, para que os projetos sejam viabilizados", disse, em clara referência à concentração atual no processamento de minerais críticos pela China.
O que fazer agora
No encerramento, o executivo condensou sua proposta em três frentes de ação imediata. A primeira é implementar a política com segurança e previsibilidade — "implementar", sublinhou, porque o debate já passou da fase de regulamentação. A segunda é construir parcerias, tanto público-privadas quanto entre empresas privadas e entre países, para diversificar a cadeia e reduzir dependências. A terceira é desenvolver pessoas, para formação de talentos no setor.
O objetivo final, sintetizou, é "gerar resultado para o Brasil e para os investidores. “Isto, embora seja fácil de falar – PowerPoint aceita tudo – é difícil de fazer”, concluiu o executivo. (Equipe Brasil Mineral)
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