Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia reconhece quem apostou no porquê das coisas

Cerimônia realizada no auditório da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais reuniu autoridades, pesquisadores e parceiros para reconhecer trajetórias que colocaram o Brasil em posição de destaque internacional.
No auditório da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, na noite do dia 20 de outubro, a CBMM realizou a cerimônia de entrega da 8ª edição do Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia, consagrando dois nomes que simbolizam décadas de dedicação ao avanço do conhecimento no País. O Prof. Dr. Jorge Kalil, referência internacional em imunologia, recebeu o prêmio na categoria Ciência e a Dra. Christiane Abreu de Oliveira Paiva, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, foi laureada na categoria Tecnologia, tornando-se a primeira mulher a conquistar o prêmio em qualquer uma das categorias. Com o tema "Para quem busca o porquê das coisas", a premiação reafirmou a convicção da mineradora de nióbio de que o progresso científico e tecnológico é condição indispensável para o desenvolvimento do Brasil e para a geração de impactos concretos na sociedade.
Um palco à altura da ocasião
A escolha do auditório da Filarmônica de Minas Gerais para sediar a cerimônia não foi apenas protocolar. A noite também marcou um capítulo especial no apoio da CBMM à cultura: o concerto que encerrou o evento reuniu, no mesmo palco, músicos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e da Orquestra Jovem de Araxá — cidade onde se localizam as instalações industriais da companhia —, sob a regência do Maestro José Soares. Ao longo de 2024, as duas orquestras desenvolveram um intercâmbio cultural com oficinas, mentorias e ensaios conjuntos, aproximando músicos em formação, de profissionais experientes.
A simbologia do encontro não passou despercebida ao presidente e CEO da CBMM, Ricardo Lima, que abriu a cerimônia destacando a conexão entre a excelência musical e a excelência científica. "Quando músicos em formação dividem o palco com uma orquestra de referência, algo se transforma. O aprendizado vai muito além da técnica. É também a descoberta de que a excelência se constrói com rigor, persistência e a disposição de continuar sempre aprendendo", afirmou Lima. Para ele, investir em cultura, educação e pesquisa faz parte de um mesmo compromisso institucional: "acreditar nesses 70 anos de existência da CBMM em ciência, em tecnologia, em desenvolvimento, em agregação de valor."
O compromisso de quem financia a pergunta
Em seu discurso de abertura, Ricardo Lima traçou um panorama do papel que a CBMM ocupa no ecossistema científico brasileiro. Segundo ele, a empresa destina anualmente entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões exclusivamente ao seu programa de tecnologia, recursos que não se confundem com investimentos em ativos industriais, mas são direcionados a parcerias com universidades e centros de pesquisa ao redor do mundo. "Isso não é investimento em ativo, não é investimento na nossa planta industrial. Isso aqui é investimento em parcerias com universidades, centros de pesquisa, para que a gente possa desenvolver novas tecnologias utilizando nióbio e que a gente possa ajudar o mundo nas suas grandes tendências", explicou o executivo.
O portfólio atual, segundo Lima, inclui mais de 200 projetos de cooperação técnica e iniciativas de pesquisa com clientes, universidades e centros de pesquisa distribuídos por todo o mundo. Foi dessa mesma convicção, sublinhou ele, que nasceu o Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia, em 2019: "Reconhecer quem dedica sua trajetória a ampliar as fronteiras do conhecimento no Brasil é o propósito desse prêmio."
Categoria Ciência: uma vida dedicada a entender o sistema imune
O Prof. Dr. Jorge Kalil é professor titular de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor). Sua trajetória científica é construída sobre uma pergunta central que, segundo ele próprio, o seduziu ainda nos bancos escolares: como o organismo distingue o que lhe é próprio daquilo que lhe é estranho?
Em seu discurso de agradecimento, Kalil descreveu com precisão o momento em que percebeu que a imunologia seria o caminho. Durante a residência médica, notava que as doenças que observava na prática clínica tinham influência imunológica, mas os mecanismos permaneciam obscuros. "Havia sempre a afirmação que o que nós víamos tinha uma influência imunológica, mas não se sabia como é que era. E eu digo, mas então nós temos que saber como é", relatou. A certeza de que queria ir além da clínica veio com força: "Na residência médica, me veio a certeza que na prática clínica eu poderia ajudar muito meu paciente, mas como cientista eu poderia ajudar milhões de pessoas."
A oportunidade de aprofundar essa vocação chegou sob a forma de um convite para um doutorado na França. Kalil foi para Paris, onde permaneceu por cinco anos e teve a experiência singular de presenciar o seu orientador, Jean Dausset, receber o Prêmio Nobel de Medicina. O convite para permanecer definitivamente no país veio diretamente de Dausset, com apoio do então primeiro-ministro francês. Kalil recusou. "Voltamos ao Brasil, pois eu tinha uma missão a cumprir: ajudar a desenvolver a ciência no país que era meu e que investira em mim. Algo que a nossa geração realmente fez, e a ciência brasileira cresceu muito nos últimos 30 anos", afirmou.
De volta ao Brasil, Kalil construiu uma carreira marcada por sucessivas lideranças científicas e administrativas. Assumiu a direção do Instituto Butantã por seis anos, num período em que a instituição atravessava graves dificuldades financeiras, e depois a presidência do InCor, igualmente em situação de crise. Em sua fala, o pesquisador foi enfático ao creditar as recuperações ao trabalho coletivo: "Quando eu digo eu, é um monte de gente."
Ao longo da carreira, acumulou passagens como International Scholar do Howard Hughes Medical Institute, período sabático em Stanford, presidência da Sociedade Internacional de Imunologia e, mais recentemente, a posição de Distinguished Visiting Professor em Harvard. Em cada uma dessas etapas, surgiram convites para permanecer no exterior. Em cada uma delas, a resposta foi o retorno ao Brasil.
As pesquisas de Kalil abrangem os mecanismos de rejeição e tolerância em transplantes de órgãos, o papel de microrganismos no desencadeamento de doenças autoimunes, e o desenvolvimento de vacinas para doenças como estreptococo, HIV, dengue e Covid-19. Ele coordena também pesquisa em xenotransplante na USP, iniciativa voltada ao desenvolvimento dessa área no Brasil. Ao receber o prêmio, sintetizou o alcance do campo que escolheu: "A imunologia nos ajuda a compreender um dos desafios mais complexos da biologia: como o organismo reconhece o que é próprio e o que é estranho e, a partir disso, constrói uma resposta adequada. Entender esses mecanismos é fundamental para avançarmos em áreas como transplantes, doenças autoimunes e infecciosas e desenvolvimento de vacinas."
Em um dos momentos mais reflexivos de seu discurso, Kalil tocou numa ferida aberta da ciência brasileira: a dificuldade crescente de reter talentos formados no país. "O valor das bolsas derreteram nesses últimos anos e com isso foi ficando cada vez mais difícil reter talentos. Hoje em dia eu tenho pessoas que não passaram em concursos aqui no Brasil, mas que são professores no MIT, na Rockefeller, na New York University, e a gente perdeu esses talentos", lamentou. E concluiu com uma declaração que resume sua trajetória de mais de cinco décadas: "A minha obsessão é sempre tentar contribuir para o Brasil, independentemente da orientação do governo de plantão. Estou há 50 anos fazendo ciência, mas a missão não acabou."
Categoria Tecnologia: dezoito anos de pesquisa que chegaram ao campo
Se a trajetória de Kalil é marcada pela profundidade teórica da imunologia, a da Dra. Christiane Abreu de Oliveira Paiva, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, é definida pela obsessão em transformar conhecimento científico em solução prática para quem trabalha na terra. Especialista em microbiologia aplicada à agricultura, Christiane dedica sua carreira ao estudo de microrganismos capazes de ampliar a disponibilidade de nutrientes para as plantas, estimular seu crescimento e auxiliar no controle de doenças — contribuindo para uma agricultura mais eficiente e menos dependente de insumos químicos.
Sua principal contribuição até o momento é o BiomaPHOS, o primeiro produto biológico brasileiro para disponibilização de fósforo às plantas a partir de microrganismos solubilizadores de fosfato. O produto atua sobre o fósforo já presente no solo, tornando-o assimilável pelas plantas e reduzindo a necessidade de fertilizantes minerais convencionais. Foram 18 anos de pesquisa para chegar ao produto final. "Essas tecnologias representam anos de pesquisa. Ela frisou, em seu discurso, que embora recebesse o prêmio individualmente, a conquista pertence à equipe inteira que a acompanhou ao longo do caminho.
Além do BiomaPHOS, Christiane liderou a pesquisa que originou o Eficaz Control, biofungicida voltado ao controle de patógenos do solo, lançado comercialmente em 2025. O produto amplia a aplicação de microrganismos no combate a doenças que afetam as plantas, reforçando a proposta de substituir ou reduzir o uso de agroquímicos por alternativas de base biológica.
Em seu discurso, a pesquisadora contextualizou a relevância estratégica desse tipo de solução para o Brasil: "O bioinsumo que eu desenvolvi é um biofertilizante que vai utilizar esses microrganismos da nossa flora tropical, do solo, das plantas, para aumentar o fósforo, esse elemento tão importante, para contribuir para que a nossa agricultura seja mais produtiva em pequenas áreas, sem precisarmos desmatar, e mais sustentável por usarmos um recurso natural e biológico, que são as bactérias." Ela também destacou a dimensão econômica da inovação num momento de pressão sobre a cadeia de abastecimento de fertilizantes: "Essa tecnologia biológica é uma solução para contornar também os problemas que a gente está enfrentando hoje de abastecimento de fertilizantes e o preço, que para o produtor é muito alto o adubo fosfatado."
O feito histórico de ser a primeira mulher a receber o prêmio em qualquer categoria não passou em silêncio. Christiane o mencionou com emoção e consciência do seu significado para as próximas gerações: "Eu recebo esse prêmio hoje com uma grande alegria, que ainda é maior por ser a primeira mulher a receber. Então é algo histórico. Fazemos história aqui hoje. É muito emocionante, muito significativo para mim, não só para mim, mas porque eu tenho certeza que essa conquista vai inspirar outras mulheres, especialmente as jovens cientistas, para acreditar no seu potencial, persistir nos seus sonhos, ocupar cada vez mais espaços de liderança e protagonismo, tanto na ciência quanto na tecnologia."
Para além do reconhecimento pessoal, Christiane enxergou no prêmio uma afirmação do potencial do Brasil em bioinovação: "Acredito profundamente que o Brasil tem muita oportunidade de gerar outras soluções biológicas e outras tecnologias mais importantes ainda para a agricultura e mais inovadoras. Porque a gente tem muita biodiversidade, muito recurso natural importante, talento, instituições científicas e muita capacidade de inovação também."
A ciência como missão coletiva
A 8ª edição do Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia deixou uma mensagem que transcende os currículos dos dois laureados. Tanto Kalil quanto Christiane descreveram suas trajetórias não como percursos individuais de ascensão, mas como missões coletivas — sustentadas por famílias, orientadores, equipes, alunos e instituições. Os dois enfrentaram pressões para migrar definitivamente para o exterior e, em momentos decisivos, optaram por permanecer e construir no Brasil.
O tema escolhido para esta edição — "Para quem busca o porquê das coisas" — funcionou como linha condutora de toda a noite. Christiane o traduziu com precisão ao descrever a essência do trabalho científico: "A gente quer compreender, mas também chegar na solução, saber o porquê, ter as respostas, mas principalmente transformar essas respostas em descobertas e lá na frente entregar para a sociedade alguma coisa que vai ter benefício e fazer parte do bem comum."
Kalil, por sua vez, encerrou seu discurso com uma observação que resume o estado da arte da medicina contemporânea e, ao mesmo tempo, justifica a escolha de uma vida inteira dedicada à imunologia: "Os enormes avanços terapêuticos que nós temos em medicina hoje são praticamente todos imunológicos."
Para a CBMM, a premiação é também um exercício de coerência. Uma empresa que extrai e processa nióbio — elemento que saiu do quase anonimato para se tornar componente estratégico de aços de alta resistência, tecnologias de mobilidade e soluções para a transição energética — sabe, por experiência própria, o que acontece quando a curiosidade científica encontra investimento e persistência. O prêmio que leva seu nome é, nesse sentido, um reconhecimento de pares: de quem também apostou no porquê das coisas.
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