
Debate reuniu Vale, Gerdau e Siemens Brasil para discutir como integrar sistemas de tecnologia da informação e operacional, apontando a cultura organizacional como principal barreira para a transformação digital na mineração.
A mesa-redonda de Automação e TI “Governança digital na indústria: preparando sistemas para o futuro” foi realizada no dia 9 de setembro, das 14h às 15h40, no Auditorium Vale Mineração do Futuro, no Pro Magno Centro de Eventos, em São Paulo, durante a 10ª ABM Week. O painel teve coordenação de Erico Fonseca Rossi, gerente técnico de Automação da Gerdau, e de Danielle Cavalcanti, consultora, com moderação de Erik Maran, presidente da Seção São Paulo da International Society of Automation (ISA/SP). Participaram como palestrantes Constantino Seixas Filho, senior advisor da Accenture, Pablo Roberto Fava, CEO da Siemens Brasil, Priscila Guedes, gerente de Projetos de Tecnologia da Vale, e Rafael Oliveira, gerente geral de Portfólio Digital e Indústria 4.0 da Gerdau.
Duas ideias organizaram o debate: a de que todos dentro da empresa precisam perseguir o mesmo objetivo e a de que escalar é a palavra-chave do que a inteligência artificial deve provocar nas companhias do setor. As duas apontam para o mesmo lugar, o de que a barreira da digitalização industrial hoje é menos técnica e mais de organização entre áreas. Controladores lógicos programáveis, sistemas de supervisão e equipamentos de chão de fábrica operam em redes fechadas, sem conexão com sistemas corporativos ou com a internet. A integração desses dois mundos virou requisito de competitividade, mas a velocidade da integração não foi acompanhada pela velocidade da defesa. O Brasil lidera o ranking de incidentes cibernéticos industriais na América do Sul, e a manufatura se tornou o setor preferencial para ataques de ransomware. Priscila Guedes, gerente de Projetos de Tecnologia da Vale, tratou justamente da separação entre esses dois times. “Não podemos ter essa segregação de TI ou OT, todos podem trabalhar juntos”, afirmou. A diferença de cultura entre as áreas é conhecida no setor: a tecnologia da informação trabalha com atualizações frequentes e proteção de dados, enquanto a tecnologia operacional prioriza disponibilidade ininterrupta e confiabilidade da linha, o que faz uma parada para atualizar sistema custar caro. Para Priscila, o caminho para juntar as duas áreas passa por entender como cada uma opera. “Quando juntamos pessoas de diferentes universos é necessário entender todos os lados, sempre buscando o resultado pela companhia. Pessoas são o centro de tudo”, disse.
Governança e gestão de dados aparecem em último lugar entre as prioridades orçamentárias do setor de mineração e metais para os próximos 12 meses, atrás de inteligência artificial, plataformas digitais e inovação, segundo levantamento da EY. O dado contrasta com o diagnóstico da Deloitte para o setor em 2026, que aponta a integração entre operação, tecnologia e governança como fator central para a captura de valor. Esse descompasso apareceu na mesa pela via do método. “A tecnologia é um habilitador e não um fim; é necessário primeiro entender o problema antes de apontar um projeto com a tecnologia”, defendeu Guedes, invertendo a ordem usual de projetos que começam pela ferramenta escolhida e depois procuram onde aplicá-la. Rafael Oliveira, gerente geral de Portfólio Digital e Indústria 4.0 da Gerdau, levou o ponto para a parceria entre empresas e para a comparação de práticas entre companhias do setor. “É importante saber com quem trabalhar. O meu parceiro pode ter um potencial na resolução de problemas e vice-versa”, disse, ao defender que uma empresa pode encontrar em outra a competência que lhe falta.
A distância entre a prova de conceito e a operação em escala foi o segundo eixo do debate. Pablo Roberto Fava, CEO da Siemens Brasil, apontou onde o processo costuma travar. “É necessário ter um valor estruturante. Pelo que a gente vê, a coleta de dados funciona. Mas para a escalada, é importante contextualizar e padronizar esses dados”, afirmou. A dificuldade descrita por ele aparece nos números do setor. Empresas com visibilidade completa sobre os próprios sistemas operacionais contêm um ataque em cinco dias, em média, contra 42 dias nas que operam sem monitoramento dedicado, segundo o 9th Annual Year in Review, da Dragos. No recorte nacional, quase um terço das empresas brasileiras já migrou para um modelo centrado em plataformas, o maior índice da América Latina, mas ambientes fragmentados e infraestrutura legada seguem entre os principais obstáculos operacionais. Constantino Seixas Filho, senior advisor da Accenture, tratou do que fazer diante dessa distância entre piloto e escala. “É necessário que a empresa teste várias vezes para entender o que funciona, sempre evitando bloqueios internos”, afirmou, apontando a tolerância a tentativas frustradas como parte do processo, desde que a estrutura não interrompa o ciclo.
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