Vale vê produção mineral brasileira bem abaixo do potencial geológico

Presidente da Vale destaca que a produção mineral brasileira está aquém de seu potencial geológico, focando na capacidade de oferta e competitividade externa.
Para o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, o problema global do setor não é de demanda, mas de capacidade de oferta.
Um ano após sua participação na Exposibram 2025 — ocasião em que o foco esteve na governança interna, na mineração responsável e na conquista da licença social para operar —, o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, subiu ao palco principal do evento em Belo Horizonte com uma abordagem inteiramente voltada ao ambiente externo e à competitividade estrutural do país: “no ano passado, foquei muito no olhar interno, na mineração responsável e no legado para as comunidades. Este ano queria olhar para fora: menos do ponto de vista do que fazemos dentro de casa e mais sobre como podemos, como país, destravar todo esse potencial minerário de que tanto falamos. Nosso setor tem um enorme privilégio que poucas indústrias têm hoje no mundo: nós não temos um problema de demanda; nosso problema é capacidade de oferta”.
Pimenta destacou que as megatendências globais — como a expansão dos veículos elétricos, data centers voltados para Inteligência Artificial, automação e a eletrificação abrangente das economias — criaram uma corrida sem precedentes por insumos minerais. Citando dados da Agência Internacional de Energia (AIE), o executivo lembrou que o mundo precisará multiplicar a oferta de minerais por um fator de cinco a seis vezes nas próximas décadas para atender a esses compromissos tecnológicos e ambientais.
O Brasil, argumentou o executivo, possui uma posição geopolítica e geológica privilegiada. Em um cenário internacional marcado pela fragmentação diplomática e por disputas comerciais, o país se destaca por ter a "tabela periódica inteira em seu território" e por manter relações comerciais neutras, diplomáticas e previsíveis com os principais blocos mundiais.
Apesar das abundantes reservas de minério de ferro, níquel, cobre, bauxita e terras raras, o desempenho do Brasil na última década ficou muito aquém do seu potencial geológico. Pimenta apresentou um diagnóstico detalhado sobre a evolução da produção em mercados estratégicos entre os anos de 2010 e 2025.
No segmento de minério de ferro, por exemplo, o Brasil produzia cerca de 380 milhões de toneladas em 2010, enquanto a Austrália registrava 400 milhões. Atualmente, a Austrália atingiu a marca de 1 bilhão de toneladas anuais, enquanto a produção brasileira permaneceu estagnada no patamar de 400 milhões de toneladas. Cenário semelhante ocorreu com o níquel e o cobre, mercados nos quais países como Indonésia, Filipinas e Chile registraram saltos de produção e atração de investimento direto estrangeiro, enquanto o avanço brasileiro foi discreto.
Essa estagnação refletiu-se diretamente nos rankings internacionais do setor. Em 2014, o valor total da produção mineral brasileira ocupava a 4ª posição no mundo; em 2023, o país caiu para o 7º lugar. O executivo lembrou que a Austrália, um país desenvolvido, abraçou a mineração como vetor de transformação e hoje o setor representa 14% do seu PIB. No Chile, a atividade responde por 12% do PIB nacional. No Brasil, apesar de responder por 50% do saldo da balança comercial e gerar cerca de 3 milhões de empregos diretos e indiretos, a mineração contribui com apenas 4% do PIB, um número tímido perto da capacidade do país.
As Quatro Agendas Prioritárias para o Destravamento do Setor
Com o objetivo de transformar os gargalos em propostas concretas para o debate público, a Vale encomendou um estudo comparativo internacional à consultoria global Accenture ao longo do último ano. O levantamento analisou os modelos regulatórios e operacionais dos principais países mineradores do mundo, resultando na proposição de quatro agendas prioritárias e quinze iniciativas estratégicas para o Brasil.
1. Licenciamento Ambiental e a Força-Tarefa dos Grandes Projetos
A primeira agenda aborda a morosidade e a incerteza nos processos de licenciamento. Pimenta apontou que o tempo médio global para maturar um projeto minerário — desde a pesquisa geológica inicial até o início da produção — varia de 10 a 15 anos, um ritmo incompatível com as demandas da transição energética.
A indústria defende o reforço das equipes técnicas e dos recursos tecnológicos dos órgãos ambientais, permitindo a análise concomitante de múltiplos processos. O estudo aponta também a necessidade de atualizar o marco regulatório de cavidades, parado há duas décadas, adotando padrões internacionais que protejam cavernas de alta relevância ecológica sem paralisar atividades em áreas de menor impacto.
Dentro dessa agenda, Pimenta propôs a criação de uma força-tarefa governamental voltada para acelerar os grandes empreendimentos. O executivo lembrou que o último projeto de classe mundial licenciado no Brasil foi o S11D, da própria Vale, em 2016. O país está há dez anos sem licenciar um projeto dessa magnitude, motivo pelo qual a força-tarefa deveria priorizar os dez maiores projetos minerais estratégicos do país, independentemente da empresa operadora.
2. Cadeia Integrada e Competitividade de Insumos
A segunda agenda trata da competitividade industrial para o processamento de minerais e a descarbonização, como na produção de HBI (ferro briquetado a quente para aço verde). Pimenta frisou que a industrialização local depende diretamente do custo da energia e dos insumos.
No caso do gás natural, enquanto o insumo é ofertado no Oriente Médio a cerca de US$ 3 por MMBTU, o preço no Brasil gira em torno de US$ 14 por MMBTU, o que inviabiliza projetos de agregação de valor local. Para viabilizar a produção de aço verde, o valor do gás no Brasil precisaria ser reduzido para o patamar de US$ 5 a US$ 6 por MMBTU. O executivo ressaltou ainda que, embora o processamento local seja importante, o maior desafio atual está na liberação de capital para o desenvolvimento das minas (upstream).
3. Estabilidade Regulatória e Ambiente de Negócios
A terceira agenda enfatiza que os investimentos em mineração possuem ciclos extremamente longos, que variam de 30 a 40 anos de operação contínua. Por essa razão, a previsibilidade jurídica, fiscal e regulatória é o fator determinante para que o capital internacional escolha o Brasil em detrimento de outras nações mineradoras que disputam os mesmos recursos.
4. Valor Compartilhado e Desenvolvimento Regional
A quarta agenda propõe uma evolução no relacionamento entre as mineradoras, a sociedade e os municípios mineradores. Além de adotar tecnologias de menor pegada ambiental — como processamento a seco, reutilização de água e automação —, as empresas precisam atuar em conjunto com o poder público local para garantir o uso eficiente da CFEM e a diversificação econômica das cidades, assegurando a perenidade do desenvolvimento mesmo após o encerramento das jazidas.
Para demonstrar o impacto prático das medidas propostas, Gustavo Pimenta apresentou projeções sobre o retorno econômico para a sociedade brasileira caso o país consiga recuperar sua fatia de mercado global nos próximos dez anos.
Nos últimos dez anos, o setor arrecadou cerca de R$ 74 bilhões em tributos e royalties (CFEM) para cofres municipais, estaduais e federais. Caso o país consiga destravar sua produção e atrair novos investimentos, a arrecadação pública acumulada da indústria nos próximos dez anos pode praticamente dobrar, atingindo a marca de R$ 150 bilhões. Esse volume adicional de recursos seria equivalente ao financiamento de 23 milhões de vagas em escolas de tempo integral ou à construção de 870 mil leitos hospitalares no país.
Em relação ao mercado de trabalho, a estimativa do estudo indica que a expansão da produção mineral e da sua cadeia de fornecedores tem o potencial de elevar o número total de empregos gerados pelo setor no Brasil dos atuais 3 milhões para até 5 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos nos próximos anos.
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