
O Brasil tem projetos minerais, demanda industrial e conhecimento acumulado em separação, mas continua sem uma refinaria de terras raras em operação contínua. Estudo do CGEE identifica justamente esse elo como a lacuna transversal da cadeia. Esta análise parte daí para uma pergunta mais prática: qual é a menor infraestrutura industrial capaz de destravar várias rotas ao mesmo tempo sem amarrar o país a uma mina, a um comprador ou a um único ciclo de preços?
A resposta começa fora do Brasil. Em 2024, a China respondeu por 91% do refino mundial das terras raras magnéticas, embora sua participação na mineração fosse de cerca de 60%. Fora dela, a capacidade industrial relevante se concentra em poucos sítios: a Lynas na Malásia, Mountain Pass e White Mesa nos Estados Unidos, Silmet na Estônia e La Rochelle na França. O gargalo estratégico está menos em encontrar minério do que em transformar misturas de terras raras em óxidos separados, regulares e qualificáveis.
O Brasil aparece no extremo oposto dessa fotografia. Tem base geológica, uma mina em produção e dezenas de projetos, mas participação zero no refino industrial. O próprio CGEE chama separação e refino de vetor de habilitação transversal: quatro das cinco cadeias a jusante analisadas dependem criticamente desse elo. Antes de escolher se o destino final será ímã, liga, catalisador, fósforo ou material óptico, é preciso criar acesso doméstico a óxidos separados.
Participação estimada no refino global em 2024 e projeção-base para 2030. Mesmo com os projetos de diversificação em curso, a China continuaria concentrando cerca de quatro quintos da capacidade no fim da década.
O problema não é apenas construir. É sobreviver ao ciclo
Se o refino é o gargalo, a reação intuitiva seria construir a maior cadeia integrada possível. O histórico de preços recomenda cautela. Entre 2010 e 2011, o óxido de neodímio subiu cerca de quinze vezes e o de disprósio, vinte e quatro. Nos cinco anos seguintes, devolveram quase toda a alta. Cada choque de oferta produz uma corrida de projetos; a normalização seguinte separa os que tinham contrato e estrutura de custo dos que dependiam apenas da escassez.
A Molycorp é o caso mais conhecido. Reabriu Mountain Pass no ciclo de alta, investiu pesadamente para reconstruir a cadeia e pediu concordata em 2015, quando as restrições chinesas foram retiradas e os preços desabaram. O episódio brasileiro tem parentesco: Orquima, Nuclemon, INB e depois a CBMM dominaram diferentes degraus da separação, mas não consolidaram produção contínua quando a oferta chinesa passou a chegar a preços muito inferiores.
O aprendizado não é que o Brasil deva esperar o preço certo. É o contrário: uma nova capacidade precisa ser desenhada para continuar útil quando o preço estiver errado.
Preço real dos óxidos de neodímio, disprósio e térbio entre 2006 e 2026. A escala logarítmica torna visível a amplitude dos ciclos. Os pontos vazados são interpolações anuais e não cotações observadas.
Daí surgem quatro critérios de projeto
O diagnóstico do CGEE e o histórico de preços apontam para a mesma direção. A primeira capacidade brasileira não deveria maximizar integração vertical; deveria maximizar opcionalidade. Isso significa quatro coisas.
Mais de uma alimentação. Receber carbonato misto de terras raras (MREC), óxido misto (MREO) ou soluções de lixiviação previamente qualificadas de fornecedores diferentes, dentro de janelas químicas definidas.
Módulos independentes. Adicionar os cortes químicos conforme feedstock, contrato e mercado, sem precisar construir toda a cascata de uma vez.
Mais de um cliente. Atender catálise, metalurgia, óptica, ímãs e exportação em vez de depender de um único mercado final.
Risco compartilhado. Separar quem fornece o material, quem opera, quem compra e quem financia, para que nenhum balanço carregue sozinho todos os riscos.
É dessa combinação, e não de uma preferência ideológica por “hub”, que a proposta aparece: uma planta multipropósito de separação, operada como infraestrutura industrial compartilhada, com circuitos adicionados conforme a demanda.
Essa leitura não contradiz o estudo do CGEE. O capítulo técnico afirma que a heterogeneidade dos materiais brasileiros afasta uma solução única e rígida e abre espaço para uma planta multipropósito. Na atualização institucional de 2026, o próprio estudo cita um hub de processamento por encomenda como uma das rotas possíveis após o veto à TerraBras.
A fronteira do hub começa depois do pré-tratamento específico de cada depósito. O que entra é um licor, carbonato ou óxido misto dentro de uma especificação química. A partir daí, os circuitos de separação podem ser construídos e qualificados um a um.
O Brasil não parte do zero
A dúvida seguinte é se essa infraestrutura está dentro da capacidade técnica atual. O mapa brasileiro é assimétrico: lavra e concentração são maduras; a separação industrial contínua não existe; mas o conhecimento científico e a memória industrial de separação são maiores do que o vazio fabril sugere.
A Usina Santo Amaro produziu cério e lantânio em escala industrial. A Usina de Interlagos operou extração por solventes para separar grupos de leves e pesadas. Buena demonstrou separação individual em escala semi-industrial. A CBMM montou em Araxá uma planta-piloto de 6 a 8 toneladas anuais de óxidos, com circuitos para remoção de cério, agrupamento de médias e pesadas e separação de lantânio e didímio. O CETEM detém patente para separação contínua de lantânio e didímio e avança para uma planta-piloto de terras raras magnéticas.
O salto que falta, portanto, não é descobrir a química; é transformar conhecimento disperso em operação estável, contínua, qualificada e comercial.
Escala de competência instalada segundo os mapas setoriais do CGEE. Toque em um elo para ler o diagnóstico.
A ordem dos módulos reduz o risco tecnológico
Nem todo corte químico é igualmente difícil. Cério pode ser removido seletivamente por mudança de valência; separar grupos de leves e pesadas é muito mais simples do que separar vizinhos imediatos. O corte entre lantânio e didímio, a mistura de praseodímio e neodímio usada pela indústria de ímãs, já foi demonstrado no país e é bem menos exigente do que separar praseodímio de neodímio individualmente.
Por isso, a sequência faz diferença. O primeiro módulo comercial pode começar com lantânio e cério, produtos de menor valor mas com clientes domésticos e menor complexidade relativa. A razão econômica é mais forte do que a técnica. Na média de dez anos, o óxido de lantânio e o de cério valeram cerca de R$ 11 por quilo, contra R$ 4.606 do óxido de térbio, uma distância de mais de quatrocentas vezes dentro da mesma cesta. E lantânio e cério são baratos justamente porque sobram: cada quilo de didímio separado vem acompanhado de vários quilos deles. Na maioria das operações do mundo essa fração vira estoque parado. O Brasil é um dos poucos lugares onde ela tem para onde ir, e isso muda a conta do primeiro circuito. O passo seguinte é lantânio/didímio, onde começa a captura de valor magnético. Disprósio e térbio só deveriam entrar quando houver feedstock adequado, prova tecnológica e contrato de venda suficiente para justificar a cascata mais complexa.
Essa progressão é também a recomendação do capítulo 11 do CGEE: lantânio e cério (La e Ce) no curto prazo, praseodímio e neodímio (Pr e Nd) no curto a médio, disprósio e térbio (Dy e Tb) no médio, e as demais pesadas apenas depois.
O padrão internacional é compartilhar o risco, não necessariamente o ativo
Não existe um único modelo institucional fora da China. O que se repete é a separação de funções. Operador, fornecedor de matéria-prima, comprador âncora, financiador e governo raramente são o mesmo agente. Mesmo quando o ativo é privado, algum mecanismo distribui o risco de implantação.
Os casos não são cópias do modelo brasileiro. Eles mostram peças que podem ser combinadas: financiamento por usuário estratégico, piso de preço, brownfield, alimentação de terceiros, expansão modular e uso compartilhado.
O caso japonês é particularmente útil porque desmonta a ideia de que o poder público precisa ser dono da refinaria. Em 2011, Sojitz e JOGMEC criaram a JARE e colocaram US$ 250 milhões entre empréstimo e capital na Lynas, uma empresa privada australiana, em troca de segurança de suprimento ao Japão. Nos Estados Unidos, o Departamento de Defesa passou a combinar participação preferencial, empréstimo, piso de preço e compromisso de compra com empresas privadas como a MP Materials. Em Louisiana, a Ucore está implantando uma unidade privada em brownfield com verba federal, incentivos locais e projeto para receber carbonato e óxido mistos de múltiplas fontes.
O denominador comum é simples: ninguém tenta financiar sozinho a geologia, a separação, o risco de preço e o mercado final.
Uma arquitetura possível é uma SPE privada ou mista. O Estado pode participar como financiador, garantidor e coordenador regulatório sem ser o operador nem o controlador do ativo.
Produtores de feedstock
Entregam MREC, MREO ou licor dentro de especificação e contratam tolling. Podem aportar capital proporcional ao uso.
risco principal: volume e qualidadeOperador + tecnologia
Projeta, qualifica e opera os circuitos. Pode combinar know-how nacional com parceiro industrial experiente.
risco principal: processo e ramp-upClientes industriais
Definem especificações e assinam offtake: catálise, metalurgia, magnetos, óptica, defesa ou exportação.
risco principal: demanda e qualificaçãoCapital financeiro
BNDESPAR, fundos privados, bancos e parceiros estratégicos financiam CAPEX com contratos de utilização como garantia.
risco principal: execução e créditoEstado
Coordena licenciamento, pode oferecer garantia, piso, crédito fiscal ou compra estratégica. Participação acionária é opcional.
função: reduzir risco sistêmicoHá matéria-prima suficiente para um ativo compartilhado?
Esse é o ponto em que a compra da Serra Verde pela USA Rare Earth muda a lógica. Pela transação, anunciada em abril de 2026 e avaliada em cerca de 2,8 bilhões de dólares, a produção da fase inicial de Pela Ema ficou comprometida em contrato de quinze anos, com preços mínimos garantidos para os elementos magnéticos, junto a um comprador capitalizado por agências do governo americano. Convém ler o mecanismo pelo que ele é. O piso de preço, que no debate internacional aparece como instrumento de política industrial a ser copiado, foi neste caso o que retirou a produção brasileira de um possível refino no Brasil. Quem paga o piso decide onde o material é separado, e não há razão para supor que esse comprador queira refino em território nacional. Uma refinaria desenhada para uma única mina já nasceria com risco de alimentação. O estudo do CGEE recomenda exatamente o oposto: diversificar entre monazita associada a rejeitos de nióbio em Araxá, argilas iônicas de Minas Gerais e Goiás, projetos em desenvolvimento e fontes secundárias.
Mas “multifonte” não significa jogar qualquer minério na mesma planta. O desenho mais factível é fazer cada fornecedor entregar um intermediário dentro de uma janela definida de composição e impurezas. O hub concentra caracterização, condicionamento e separação; a abertura química específica do minério pode continuar no sítio de origem quando isso reduzir custo, radioatividade e variabilidade.
Essa fronteira reduz CAPEX compartilhado e torna o modelo de tolling mais plausível: cada produtor continua dono do mineral e paga pela transformação em produtos separados.
E há compradores antes do ímã
A tese não depende de esperar uma indústria brasileira de veículos elétricos ou uma fábrica de ímãs em escala. O estudo estima mercado doméstico já existente entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,9 bilhão por ano em catalisadores, polimento, vidros e fósforos. Há ainda potencial de substituição de importações em óxidos de cério e lantânio de maior especificação.
Isso é importante porque os primeiros módulos produzem exatamente os elementos de menor preço e maior volume da cesta. O Brasil já tem uma indústria madura de catalisadores de FCC que consome lantânio e cério. Vale insistir nesse ponto, porque ele é contraintuitivo: cruzados os mapas de competência do estudo, o catalisador de craqueamento é o único elo da cadeia brasileira classificado como pleno, com tecnologia própria e produção comercial estabelecida, e não tem nada a ver com ímãs permanentes. Não é peculiaridade local. O USGS registra que o principal uso final de terras raras nos Estados Unidos é catálise, ainda que o principal uso global seja magnético. Depois vêm ligas do tipo mischmetal, materiais ópticos e, quando a qualificação avançar, didímio para a cadeia magnética. Defesa pode funcionar como comprador-âncora para volumes menores e especificações estratégicas, mas não precisa ser o centro do business case.
Estimativas por segmento. O potencial de substituição de importações permanece separado do mercado existente para evitar dupla contagem.
O que torna o caminho possível no arranjo atual
O veto à TerraBras não elimina o caminho; ele muda quem precisa sentar à mesa. O próprio capítulo 13 do CGEE reconhece que a função de coordenação pode ser preenchida por um hub de processamento por encomenda, coordenação interministerial e capital paciente. As três coisas não exigem uma nova estatal operadora.
Uma SPE com produtores e clientes como acionistas ou usuários contratados pode deter o ativo. O operador pode ser privado. BNDES, Finep e fundos privados podem financiar. O Estado pode concentrar sua intervenção onde possui vantagem exclusiva: licenciamento, garantias, incentivos, compras estratégicas e eventualmente piso de preço. A lógica se aproxima mais de Lynas/JARE ou MP/DoD do que de uma empresa pública verticalizada.
Há também um precedente brasileiro de governança que vale observar, embora em outro mineral: a CBMM combina base mineral, capital de longo prazo e clientes estratégicos no quadro acionário sem transformar a operação em empresa estatal. O paralelo não é societário perfeito; a lição é alinhar quem usa o produto com quem financia o ativo.
Uma sequência executável para os próximos quatro anos
Definir a fronteira industrial do hub. Especificar quais carbonatos, óxidos mistos e soluções serão aceitos, quais impurezas ficam com o fornecedor e quais entram no condicionamento comum.
Formar o consórcio antes de construir. Garantir pelo menos duas fontes de alimentação, dois compradores âncora e um operador tecnológico antes do CAPEX principal.
Escolher o sítio pelo licenciamento e infraestrutura. Priorizar áreas com histórico radiológico, água, energia, reagentes, laboratório e logística, e não apenas proximidade da mina.
Escalar um módulo de demonstração para operação contínua. O corte de lantânio e cério e o corte de lantânio e didímio são os candidatos naturais para qualificar operação, produto e cliente. A primeira unidade comercial pode vir depois da demonstração, não antes dela.
Adicionar pesadas só com feed e contrato. O corte de disprósio e térbio deve ser uma expansão condicionada a alimentação comprovada, parceiro tecnológico e offtake com proteção de preço.
Essa sequência é mais modesta do que prometer uma cadeia completa até 2030, mas é mais compatível com o estágio técnico descrito pelo CGEE. Ela preserva a ambição de 2040: se o país dominar separação contínua e criar um ativo que atende vários usuários, metais, ligas e ímãs deixam de ser projetos isolados e passam a ter um fornecedor doméstico sobre o qual podem crescer.
Onde a industrialização é mais provável de acontecer
O estudo do CGEE organiza os produtos-alvo do refino em cinco grupos e três horizontes. A tabela do capítulo 11 é sugestiva e o próprio documento a apresenta como critério de projeto para as plantas de separação, não como cronograma. Vale lê-la com uma pergunta adicional que o estudo não faz de forma explícita: em qual desses grupos o Brasil enfrenta menos competição e tem mais chance de transformar óxido em indústria.
A resposta desloca o eixo do debate. Os grupos de maior valor unitário são os que têm mais concorrência e mais barreira de entrada. Os de menor valor unitário são os que o país já sabe consumir.
Curto prazo: lantânio e cério, onde a indústria já existe
O estudo posiciona o lantânio (La) e o cério (Ce) no curto prazo por mercados conhecidos e menor complexidade relativa. O argumento brasileiro é mais forte que isso. O craqueamento catalítico fluidizado permanece como um dos pilares do refino global, com mais de 650 unidades em operação no mundo processando cerca de 18 milhões de barris por dia, e a zeólita do tipo Y com terras raras responde por mais de 60% do material ativo. A FCC S.A., associação entre Petrobras e Ketjen com quarenta anos de cooperação tecnológica, é líder do hemisfério sul e formula com tecnologia própria.
O que torna esse grupo mais interessante do que sua etiqueta de preço sugere é a agenda que o cerca. A empresa já lançou a linha para processamento de cargas 100% renováveis e um catalisador para reciclagem química de plásticos. O estudo aponta o coprocessamento de bio-óleos em unidades FCC existentes como transição estrutural até 2040, tecnicamente viável em teores de 10% a 20% sem investimento de capital relevante, aproveitando a infraestrutura já instalada. É uma convergência que quase nenhum outro país consegue reivindicar: o maior programa de biocombustíveis do mundo, um parque de refino instalado e um fabricante de catalisadores com tecnologia própria no mesmo território.
Se a terra rara que entra nesse catalisador for brasileira, o país não estará vendendo óxido de baixo valor. Estará abastecendo uma indústria de alto valor que já exporta. E a demanda não desaparece com a eletrificação: combustível de aviação sustentável, diesel de baixo carbono e petroquímica de base renovável sustentam o processo até pelo menos 2040.
No mesmo horizonte cabem duas frentes menos óbvias. A primeira é o mischmetal, liga de cério e lantânio usada como aditivo metalúrgico, de baixa complexidade tecnológica e alta tonelagem, hoje importada por um dos maiores parques siderúrgicos e de fundição da América Latina. A segunda é o catalisador de redução catalítica seletiva para diesel, cuja dependência é quase integral de importação e cuja demanda cresce por endurecimento regulatório. São nichos em que a competição internacional é moderada e o cliente é doméstico.
Curto a médio: lantânio e didímio, onde começa o valor
O estudo coloca o praseodímio (Pr) e o neodímio (Nd) no curto a médio prazo pela relevância industrial e pela conexão com a política de minerais críticos. Aqui a competição aumenta bastante, porque é o corte que todos os projetos ocidentais perseguem. A vantagem brasileira não é de custo nem de escala, é de precedência técnica: o corte entre lantânio e didímio já foi operado em planta-piloto no país e tem patente nacional.
A leitura realista é que este grupo entra como produto de exportação qualificada antes de virar insumo de uma indústria doméstica de ímãs. Existe demanda intermediária relevante no caminho, em ligas e em metalurgia, e é ela que sustenta o módulo enquanto a manufatura final não existe.
Médio prazo: os nichos de alta especificação
O grupo do samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd) e ítrio (Y) aparece no estudo como nicho tecnológico de maior sofisticação e menor volume, associado a fósforos, óptica, aplicações especiais e saúde. É, provavelmente, o grupo de melhor relação entre valor agregado e competição.
Os volumes são pequenos, o que afasta os grandes projetos de escala. As barreiras são de qualificação e de especificação, não de capital. E há um mercado doméstico verificável: os vidros e pré-formas ópticas com óxidos de lantânio, gadolínio e ítrio são integralmente importados, e o estudo estima cerca de R$ 800 milhões por ano de potencial de substituição apenas em óxidos de cério e lantânio de maior especificação. Európio e samário, além disso, saem por mudança de valência, rota que a indústria brasileira já dominou em escala de centenas de quilogramas.
Longo prazo: o que pode esperar
O térbio (Tb) e o disprósio (Dy) aparecem no médio prazo da tabela e as demais pesadas no longo, justamente pela complexidade de separação. São os grupos de maior preço por quilo e de maior disputa geopolítica, e o Brasil é o país que menos tem a mostrar neles: é o único corte do fluxograma que nunca foi operado aqui, em nenhuma escala.
Isso não os torna irrelevantes, torna-os condicionais. Entram quando houver alimentação comprovada, parceiro tecnológico e contrato de venda, e não antes. Tratá-los como prioridade inicial é reproduzir o erro que o próprio histórico de preços documenta: apostar no corte mais caro no topo do ciclo.
O critério que atravessa os quatro horizontes
Lendo os grupos por competição e por potencial de industrialização, e não apenas por preço, aparece um padrão. O Brasil tende a capturar mais valor onde já existe indústria consumidora instalada, ainda que o óxido de entrada seja barato, do que onde o óxido é caro mas a indústria consumidora precisa ser criada do zero contra concorrentes com décadas de vantagem.
Isso não significa renunciar aos ímãs. Significa reconhecer que catálise, ligas metálicas e materiais ópticos entregam industrialização mais cedo, com menos capital e menos exposição à disputa geopolítica, e que é essa receita que financia a escalada para os cortes seguintes. O estudo já ordena os produtos nessa direção. O que se propõe aqui é levar a ordenação a sério, inclusive quando ela contraria a intuição de que o valor está sempre no elemento mais caro.
O teste decisivo não é se o projeto fica excelente num cenário de escassez. É se continua útil quando os preços caem. Se a resposta for sim, o país terá construído algo mais valioso do que uma aposta em terras raras: terá construído uma infraestrutura de escolha.
Referências
Documento de referência
CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS. Terras raras no Brasil: estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026-2040. Brasília: CGEE, 2026. 392 p. ISBN 978-65-5775-109-1. Capítulos 6 e 11 para competências e priorização de cortes, capítulo 12 para eixos e horizontes, capítulo 13 para a atualização institucional de 2026 e capítulo 14 para a discussão de teoria da mudança e ecossistemas.
AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO. Sumário Mineral, ano-base 2024. Brasília: ANM, 2025.
ABRÃO, A. Química e tecnologia das terras raras. Rio de Janeiro: CETEM/CNPq, 1994. Histórico das rotas de separação da Orquima e da Nuclemon.
CETEM. Carta-patente concedida pelo INPI em 2023 para processo contínuo de separação de terras raras leves com complexante orgânico.
Dados e séries de preço
Benchmark Mineral Intelligence, lançamento de índices de preço de terras raras fora da China
Contexto global e política comercial
IEA, Rare Earth Elements, sumário executivo
IEA, Global Critical Minerals Outlook 2026, capítulo de caminhos de política pública
China Briefing, cronologia dos controles chineses de exportação de terras raras
Parlamento Europeu, EPRS, as restrições chinesas à exportação de terras raras
Casos internacionais e arranjos institucionais
Solvay, ampliação da produção europeia de terras raras em La Rochelle, abril de 2025
Solvay e Viridis, carta de intenções para matéria-prima brasileira, junho de 2026
Mining.com, Neo Performance inicia produção de pesadas na planta de Silmet, na Estônia
Ucore, Louisiana Strategic Metals Complex, configuração multipropósito e modular
Sojitz e JOGMEC, financiamento da Lynas por meio da JARE
Governo da Austrália, reserva estratégica de minerais críticos
LKAB e REEtec, capital industrial e separação de terras raras na Noruega
Brasil
Serra Verde, comunicado sobre a combinação com a USA Rare Earth, abril de 2026
Agência Brasil, empresa dos Estados Unidos compra mineradora brasileira de terras raras
Câmara dos Deputados, relatório do PL 2.780/2024 sobre minerais críticos







