BNDES mobiliza R$ 45,8 bilhões visando transformar o Brasil em potência

Instituição mobiliza recursos em duas frentes: fundo de investimento em participação criado em parceria com a Vale e chamada pública que selecionou 56 projetos em cadeias estratégicas.
Banco de desenvolvimento mira liderança industrial e tecnológica do País na transição energética, com financiamentos de longo prazo, fundo de participação e chamada pública que selecionou 56 projetos em cadeias estratégicas como terras raras, lítio e níquel
Com uma estratégia estruturada ao longo dos últimos anos e acelerada em 2025, o BNDES consolidou a agenda de minerais críticos e estratégicos (MCE) como uma de suas apostas centrais para a próxima década. O objetivo é posicionar o Brasil como fornecedor confiável, competitivo e sustentável de minerais e materiais transformados, avançando progressivamente nas etapas de maior valor agregado das cadeias globais ligadas à transição energética, à digitalização e à soberania produtiva.
"O Brasil possui uma oportunidade única de converter sua riqueza mineral em liderança industrial e tecnológica", afirma o banco em sua estratégia para o setor, uma frase que sintetiza a ambição que orienta o portfólio de iniciativas em construção.
Da extração ao ímã permanente: o que o BNDES quer financiar
A estratégia do BNDES não se limita a financiar minas. O banco quer empurrar a cadeia produtiva para frente e entre as prioridades estratégicas definidas pela instituição estão o apoio ao desenvolvimento da cadeia de terras raras, "inicialmente até a produção de óxidos separados e, de forma progressiva, de ligas e ímãs permanentes", o adensamento industrial da cadeia do lítio, "com foco em produtos de grau bateria", e a expansão das cadeias de valor de outros minerais críticos, com destaque para níquel, cobre, grafite, platina e seus derivados, além de minerais relacionados à segurança alimentar.
Trata-se de uma agenda de industrialização, não apenas de mineração. A lógica é que o Brasil, historicamente exportador de commodities brutas, passe a capturar as margens nos processos de refino, produção de materiais intermediários e manufatura de componentes para as grandes cadeias tecnológicas globais, que hoje ficam no exterior
Um histórico de movimentos desde 2023
A construção desse posicionamento não é de agora. O BNDES tem adotado iniciativas desde 2023, quando impulsionou linhas de crédito de longo prazo e baixo custo voltadas ao setor, por meio do Programa Mais Inovação e do Fundo Clima. Em 2024, em parceria com a Vale, o banco lançou e estruturou um Fundo de Investimento em Participação dedicado a Minerais Críticos e Estratégicos, instrumento que permite ao banco entrar como sócio em projetos, e não apenas como credor.
O ano de 2025 concentrou dois movimentos de maior envergadura. O primeiro foi o lançamento, em conjunto com a Finep, da Chamada Pública para Transformação de Minerais Estratégicos, a iniciativa de maior repercussão até o momento. O segundo foi a atualização do Regulamento Socioambiental e Climático para Mineração, com diretrizes para o apoio sustentável ao setor mineral, "consolidando as melhores práticas internacionais no tema, com destaque para ações de promoção de desenvolvimento local", conforme descrito pelo banco.
Ainda em 2025, a BNDESPAR, braço de investimento em participações da instituição, definiu os Minerais Críticos e Fertilizantes Minerais como teses prioritárias para investimento direto, abrindo mais uma frente de atuação além do crédito tradicional.
O mais recente impulso veio em agosto de 2026, já no âmbito do Plano Brasil Soberano: os minerais críticos passaram a contar com um referencial de custo financeiro de 3,0% ao ano, condição que coloca o financiamento do BNDES ao setor em patamar altamente competitivo para projetos de longa maturação.
A Chamada Pública: 56 projetos e R$ 45,8 bilhões
O termômetro mais concreto do interesse do mercado na agenda é a Chamada Pública BNDES-Finep para Transformação de Minerais Estratégicos, em que foram selecionados 56 projetos, totalizando R$ 45,8 bilhões em investimentos. O portfólio abrange cadeias de terras raras, lítio, níquel, grafite, silício, platina e materiais transformados para baterias, entre outros.
O BNDES já aprovou três operações no âmbito da chamada — Weg, Piauí Níquel e Viridis — e analisa atualmente uma carteira de 12 projetos considerados mais maduros, que poderá mobilizar cerca de R$ 9 bilhões em financiamentos, "a depender das estruturas de garantias a serem oferecidas ao BNDES", conforme a instituição.
Os três aprovados já dão uma leitura da diversidade de apostas do banco: da Weg, gigante industrial gaúcha com capacidade de percorrer toda a cadeia de equipamentos para a transição energética, ao Piauí Níquel, projeto de processamento mineral no Nordeste, passando pela Viridis, voltada às terras raras.
O nó das garantias e a engenharia financeira
Se o apetite do mercado está demonstrado — R$ 45,8 bilhões em projetos submetidos —, o desafio agora é de engenharia financeira. O BNDES reconhece que "a expansão dos investimentos depende da criação de estruturas mais complexas capazes de mitigar riscos geológicos, tecnológicos e de mercado típicos da mineração".
Para enfrentar esse problema, o banco avança em três frentes simultâneas: a avaliação de estruturas de cofinanciamento e compartilhamento de risco, o aprimoramento de estruturas de project finance dedicadas ao setor e a atração de outros investidores e financiadores para ampliar a oferta de capital.
A questão das garantias é central, já que projetos de mineração têm perfil de risco peculiar, pois o recurso mineral não está totalmente provado antes da lavra, as tecnologias de processamento podem apresentar variáveis inesperadas e os preços dos minerais estão sujeitos a ciclos voláteis. Estruturas tradicionais de crédito corporativo muitas vezes não se encaixam nesse esquema. Assim, o caminho que o BNDES sinaliza trilhar — o project finance com compartilhamento de riscos — é o modelo consagrado internacionalmente para viabilizar grandes projetos de infraestrutura e recursos naturais, mas exige instrumentação sofisticada, capacidade técnica dos tomadores e, frequentemente, a presença de múltiplos financiadores.
A atração de outros capitais, através de fundos internacionais, agências multilaterais, bancos de desenvolvimento estrangeiros é, portanto, parte essencial da estratégia, já que O BNDES não pode, nem pretende, carregar sozinho uma carteira dessa magnitude.
Um papel de Estado em meio à corrida global
O contexto em que essa estratégia se desenvolve não é trivial. A corrida global por minerais críticos intensificou-se nos últimos anos, com Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul disputando acesso a recursos e construindo políticas industriais agressivas para garantir suas cadeias de suprimentos para a transição energética e a soberania tecnológica. Nesse cenário, países ricos em recursos minerais, dentre os quais o Brasil está incluído de forma privilegiada, com reservas expressivas de terras raras, lítio, níquel, grafite e outros minerais, passaram a ser objeto de intensa disputa diplomática e econômica.
A resposta brasileira, da qual o BNDES é peça importante, é a de não apenas fornecer o mineral bruto, mas de agregar valor domesticamente e de usar o poder de financiamento do Estado para induzir esse salto. A definição de um custo financeiro de 3,0% ao ano para o setor, no âmbito do Plano Brasil Soberano, é um sinal político e econômico nessa direção: o governo federal está disposto a subsidiar o custo de capital para que projetos que de outra forma não conseguiriam “fechar a conta”, especialmente os de processamento e refino, que são mais intensivos em tecnologia e com payback mais longo, se tornem viáveis.
O que esperar nos próximos meses
Com 12 projetos mais maduros em análise e potencial de R$ 9 bilhões em financiamentos em negociação, o BNDES deve ampliar sua carteira aprovada ainda em 2026. A evolução das estruturas de garantia será o fator determinante para o ritmo de aprovações. Quanto mais o banco conseguir desenvolver instrumentos que distribuam riscos entre múltiplos agentes, incluindo o próprio Estado, via compartilhamento de risco, mais projetos do pipeline de R$ 45,8 bilhões poderão avançar da seleção para a contratação efetiva.
O Brasil tem o recurso. A demanda internacional existe. O Pais tem, agora, uma política de financiamento com custo competitivo e uma instituição de desenvolvimento mobilizada. O que ainda está sendo construído é a engenharia financeira e institucional capaz de transformar esse potencial em projetos assinados, obras em curso e, finalmente, em cadeias industriais que retenham valor no País. Essa é a aposta do BNDES e, em larga medida, uma aposta do Brasil sobre seu próprio futuro industrial. (Redação Brasil Mineral)
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