TERRAS RARAS

REA Brasil aposta em portfólio triplo e mira cadeia completa no país

Por Redação Brasil Mineral•
REA Brasil aposta em portfólio triplo e mira cadeia completa no país

Com projetos na Bahia, em Minas Gerais e Goiás, a empresa jovem de capital internacional já acumula recursos bilionários em óxidos de terras raras e avança para os estudos de viabilidade enquanto articula parcerias visando desenvolver o midstream e o downstream no Brasil.

A corrida global pelas terras raras tem um novo protagonista no Brasil. A REA Brasil, braço nacional do grupo Rare Earths Americas, listado na bolsa de Nova Iorque, ingressou no País há menos de um ano e já acumula um portfólio de três projetos avançados, 205 títulos minerários espalhados por Goiás, Bahia e Minas Gerais, e uma descoberta que seus próprios gestores descrevem como potencialmente de classe mundial.

A velocidade da empreitada impressiona até quem a lidera. "Eu fui o funcionário número um da empresa aqui no Brasil no início do ano. Temos agora 47 pessoas, divididas nas equipes nos diversos projetos", resume Francisco Tomazoni Neto, diretor-geral da REA Brasil, em entrevista à Brasil Mineral. "Acho que conseguimos muita coisa, pois já fizemos uma descoberta que tudo indica ser de classe mundial e montamos uma equipe."

Três projetos, três estágios

O relato de Tomazoni Neto traça um mapa consistente, com três projetos em estágios escalonados de maturidade, cada um com características geológicas e logísticas distintas, todos focados nas terras raras pesadas, especialmente os chamados elementos magnéticos, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, que sustentam a fabricação de ímãs permanentes, componentes essenciais da transição energética.

O projeto mais avançado da carteira é o Alfa, localizado no município de Iguaí, na Bahia, a cerca de 160 km a oeste de Ilhéus. Trata-se de um depósito de argila iônica com recurso estimado em 202 milhões de toneladas a uma média de 1.500 ppm de óxido total de terras raras (TREO). A empresa está concluindo o estudo de escopo, conduzido pela consultora canadense Hatch, com previsão de encerramento para o final do mês seguinte à entrevista. Na sequência, o objetivo é iniciar imediatamente o estudo de pré-viabilidade.

"Tudo dando certo com o que parece ser, queremos iniciar o estudo pré-viabilidade", afirmou Tomazoni Neto. A infraestrutura local favorece: o projeto conta com abundância hídrica, está a 30 a 40 km de linhas de alta tensão, próximo ao porto de Ilhéus e a aproximadamente 500 km, em linha reta, do Polo Petroquímico de Camaçari, fonte de insumos industriais. "Creio que estamos muito bem posicionados lá", avaliou.

Em segundo lugar na ordem de maturidade está o projeto Constellation, situado na caldeira vulcânica de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Com 266 milhões de toneladas a 2.600 ppm de TREO, o Constellation supera o Alfa tanto em massa quanto em teor médio. A REA é vizinha de outros projetos relevantes na região, como os da Viridis e da Meteoric. O estudo de escopo, também conduzido pela Hatch, deve ser entregue no segundo trimestre do próximo ano.

"Quando olhamos o projeto Poços de Caldas, estamos a 370 km do porto de Santos, com o complexo de Cubatão ali do lado fornecendo tudo, estradas de qualidade, energia elétrica, disponibilidade hídrica também", destacou o executivo.

O terceiro e mais jovem dos projetos é o Homero, em Goiás — uma grande intrusão carbonatítica associada a rochas ultramáficas, com uma anomalia que se estende por 6,5 km. A comparação evocada pela própria empresa é reveladora: "É comparável, e é até maior do que o plug de Araxá, num ambiente muito similar", disse Tomazoni Neto, referindo-se ao complexo alcalino de Araxá, onde a CBMM opera a maior mina de nióbio do mundo e onde a St. George e outros players desenvolvem projetos de terras raras.

No projeto Homero, as sondagens em andamento — quatro sondas operando com meta de 15 mil a 18 mil metros perfurados — revelaram intervalos acima de 2.000 ppm de TREO, com teores elevados de disprósio e térbio, além de praseodímio. "É uma grata surpresa. É uma descoberta nova, uma descoberta brasileira feita por brasileiros", declarou Tomazoni Neto. O projeto ainda tem nióbio como subproduto, característica típica das intrusões carbonatíticas.

A novidade geológica do Homero ficou evidente no ritmo da descoberta: "Nós não tínhamos nada. Tínhamos voado com o drone no final do ano passado e surgiu agora." Da geofísica aérea ao mapeamento, amostragem de solo, furos de trado e sondagem diamantada, tudo aconteceu dentro de um único ano. Tudo leva a crer que se trata de um depósito de natureza iônica, disse o executivo, que ainda aguarda confirmação definitiva.

A referência Aclara e a escala de produção

Ao ser questionado sobre a escala de produção que viabilizaria economicamente os projetos, Tomazoni Neto recorreu a uma comparação com a Aclara Resources, empresa peruana listada na bolsa canadense com projeto de argila iônica em Goiás, que já publicou estudo de viabilidade definitivo.

"O projeto Alfa tem muitas similaridades com o projeto da Aclara. São dois depósitos praticamente com o mesmo tamanho, o teor é muito parecido — também 1.500 ppm, em argilas iônicas", explicou. "Então, se traçarmos um paralelo com o próprio estudo definitivo que a Aclara fez, poderemos chegar numa produção entre 4 e 6 mil toneladas por ano de concentrado de terras raras para serem depois separados e futuramente ser transformado em ímã."

A convergência com o modelo Aclara foi estendida também ao plano de investimentos. Questionado se a semelhança entre os dois projetos permitiria estimar valores de capex próximos, Tomazoni Neto foi direto: "Poderia assumir que a gente vai ter algo muito similar." Para referência, o estudo de viabilidade definitivo da Aclara indicou investimentos na casa de 780 milhões de dólares para implantação do seu projeto Carina, em Goiás.

Goiás e o perfil geológico diferenciado

Um dos destaques técnicos da entrevista foi a discussão sobre a composição da cesta de terras raras nos diferentes projetos. No Homero (Goiás), a REA reportou intervalos com 4% a 5% de praseodímio+neodímio (PrNd), índice consideravelmente superior à média dos projetos de argila iônica conhecidos.

"O projeto da Bahia tem na média 2% de praseodímio e neodímio, o projeto de Poços de Caldas tem 1%. E agora, no projeto de Goiás, nós temos intervalos que passam de 4 a 5%", afirmou Tomazoni Neto. "Acreditamos que isso pode dar uma catalisação muito grande, porque dentro da cesta de elementos terras raras, esses dão um peso muito maior pelo valor de mercado de negociação ser muito mais alto que os outros."

A geologia do Homero também oferece vantagens operacionais: o minério é praticamente aflorante, com mineralização a partir de cinco metros de profundidade, o que implica baixo strip ratio (relação entre o volume de estéril removido e o de minério extraído). Além disso, o terreno plano, já adaptado à agricultura de soja e milho, a proximidade da Ferrovia Leste-Oeste (estimada em 30 a 40 km) e a linha de alta tensão a 32 km da área desenham um cenário logístico favorável.

Caixa robusto e apetite dos fundos globais

A REA Brasil realizou seu IPO em maio deste ano, captando 64 milhões de dólares, aos quais se somam recursos de fundo privado levantados no ano anterior. O caixa consolidado está entre 70 e 75 milhões de dólares, segundo Tomazoni Neto, suficiente para cobrir os estudos de escopo, pré-viabilidade e demais etapas de pesquisa dos três projetos sem necessidade de novos aportes no curto prazo.

"Nós estamos bem em termos de fundos", assegurou o executivo. A ressalva, porém, é inevitável: quando se trata de implantação, "o buraco é mais embaixo". Para essa fase, a empresa articula conversas com a União Europeia, com o governo dos Estados Unidos e com "fundos de diversos investidores", além de manter canal aberto com o BNDES para o momento oportuno.

"Todos sabem que, fora da China, o Brasil é o principal hub do planeta", disse Tomazoni Neto. "Eu me atrevo a dizer que, se a gente somar realmente todos os recursos de terras raras que temos nós e das empresas menores que ainda não apareceram, ultrapassaremos a China. E a qualidade melhora também, porque a China sofre com terras raras de menor teor e os nossos teores são sistematicamente mais altos."

O executivo destacou ainda que os depósitos de argila iônica têm custos de implantação e operação inferiores aos de depósitos em rocha dura, além de perfil ambiental mais favorável.

O desafio do midstream e do downstream

Para a REA, a ambição não se encerra na porteira da mina. A empresa tem iniciado conversas sobre o desenvolvimento do midstream (separação de óxidos) e do downstream (fabricação de ligas e ímãs) com uma série de interlocutores: o governo federal, o projeto Magbras, centros tecnológicos mineiros e a Virginia Tech, nos Estados Unidos.

O executivo reconhece os limites do papel da mineradora nesse processo: "A empresa de mineração não é uma empresa que fabrica ímã. Essa parceria, para que o off-taker venha para o Brasil, depende da condição tributária, condição de logística de estrada, de energia, de ferrovias. É necessário ajudar o empreendedor a desenvolver, porque em nenhum lugar do mundo isso vai se desenvolver só."

Lei dos Minerais Críticos

A aprovação da Lei dos Minerais Críticos e Estratégicos pelo governo federal foi avaliada de forma positiva, com cautela. Tomazoni Neto elogiou especialmente o potencial de celeridade no licenciamento ambiental para projetos incluídos na lista governamental e as linhas de financiamento previstas. Mas pontuou incertezas sobre o conselho criado pela lei para avaliar transações societárias envolvendo ativos minerais estratégicos.

"O ponto que fica ainda em dúvida é com relação ao conselho que foi criado: quais são os limites desse conselho, quais os critérios que vão passar pela análise do conselho ou não", disse. O executivo mencionou a aquisição da Meteoric pela Lynas como o primeiro teste prático do mecanismo. "Pelas interlocuções que estamos tendo, principalmente em Brasília, parece-me que a aceitação está sendo a melhor possível."

Ao mesmo tempo, Tomazoni Neto fez questão de separar a demanda por agilidade da demanda por flexibilização: "Aqui deixando bem claro que nós, de forma alguma, queremos flexibilidade de licenciamento ambiental. O nosso objetivo é ter celeridade no processo."

Gente, comunidade e o beabá da exploração

Em um setor onde a escassez de profissionais qualificados em terras raras é reconhecida globalmente, a REA Brasil apostou em um gerente de geologia com mais de dez anos de experiência específica na área — descrito por Tomazoni Neto como "um qualified person em terras raras – que foi um multiplicador dentro da empresa", e em um processo de formação interno acelerado. A equipe é prioritariamente local: baianos na Bahia, goianos em Goiás e mineiros em Minas Gerais.

O sucesso do projeto Homero foi atribuído justamente à execução rigorosa dos fundamentos da exploração mineral. "A descoberta saiu da ponta do martelo, na bota, usando o beabá da exploração: começando com geofísica, passando para mapeamento geológico, indo por geoquímica de solo, fazendo os primeiros furos de trado, depois indo com sondagem rotativa, sondagem diamantada, circulação reversa", enumerou o executivo. "O sucesso está aí."

Na relação com as comunidades, a empresa adotou como premissa o engajamento desde o início, e já colhe resultados. "Estamos tendo boa aceitação do poder público, do pessoal que trabalha com área de proteção, da comunidade em geral, prefeituras, câmara de vereadores", relatou Tomazoni Neto. "Isso parece um sinal de que o trabalho está sendo bem feito", conclui o executivo da REA Brasil.

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