MERCADO DE CAPITAIS

B3 mira pequenas mineradoras e quer fechar lacuna entre geologia e capital

Por Redação Brasil Mineral•
B3 mira pequenas mineradoras e quer fechar lacuna entre geologia e capital

Em encontro promovido pela ADIMB na sede da Bolsa, diretora de Listagem e Relacionamento reconhece distância da instituição com empresas em estágio inicial e defende esforço coletivo para conectar projetos minerais ao mercado financeiro.

O Brasil possui minerais críticos no subsolo, tecnologia disponível e uma política nacional recém-formulada para o setor. O que ainda falta, segundo a B3, é uma ponte mais sólida entre esse potencial geológico e os instrumentos de financiamento capazes de transformá-lo em empreendimentos produtivos. Foi o que afirmou Flávia Mouta, diretora de Listagem e Relacionamento da Bolsa de Valores do Brasil, durante o XI Encontro de Executivos do Setor Mineral, promovido pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADIMB), realizado na própria sede da B3, em São Paulo, sob o tema "Avançar no presente para liderar o futuro".

O evento reuniu lideranças, especialistas e representantes de instituições financeiras para discutir o posicionamento estratégico do Brasil nas cadeias minerais globais em um momento de crescente demanda internacional por minerais da transição energética, da digitalização da economia e do desenvolvimento tecnológico. A escolha do auditório da B3 para sediar o encontro não foi apenas logística, mas simbolizou, por si só, a intenção de aproximar dois mundos que, historicamente, dialogam pouco: a mineração e o mercado de capitais.

Lacuna reconhecida e o desafio de agregar valor

Flávia Mouta não hesitou em admitir que a B3 mantém relacionamento consolidado com as grandes companhias do setor mineral, mas que ainda há um vazio significativo na sua relação com empresas menores, especialmente aquelas que se encontram nas fases iniciais de desenvolvimento de projetos, justamente o segmento que mais necessita de financiamento e que mais dificuldade encontra para obtê-lo.

"Temos listagem de companhias muito grandes, mas precisamos nos aproximar também das companhias que estão liderando o início dos seus projetos, das companhias menores que estão no início dessa jornada. Reconhecemos que há um gap aqui e precisamos intensificar essa agenda desde o seu momento muito inicial", afirmou a executiva.

O reconhecimento público dessa lacuna, feito pela própria Bolsa, em um evento do setor, significa que a instituição tem consciência do problema e, ao menos no plano das intenções, está disposta a enfrentá-lo. Para o setor mineral, trata-se de uma sinalização importante: a B3 quer ser parte da solução para o gargalo de financiamento que historicamente atrasa o desenvolvimento de novos projetos no Brasil.

Flávia Mouta foi além do diagnóstico e colocou o debate em perspectiva mais ampla. Para ela, o país já ultrapassou a fase em que o simples reconhecimento de sua riqueza geológica era suficiente como argumento e o que está em jogo agora é a capacidade de transformar recursos em empreendimentos que produzam e resultem em desenvolvimento econômico.

"Como podemos usar todo o potencial que já temos, a posição privilegiada que o Brasil possui em minerais críticos, para alavancar ainda mais a nossa indústria? O desafio não é só ter os recursos, porque isso já é óbvio, mas como agregar mais valor e desenvolver esses projetos para que consigam estimular ainda mais a economia do país", afirmou a diretora.

Ela lembrou que o País figura entre os maiores detentores de reservas de minerais como lítio, nióbio, grafite, cobre e terras raras — todos fundamentais para a cadeia de energias renováveis e tecnologias de baixo carbono — mas a distância entre ter o recurso e desenvolvê-lo de forma competitiva e sustentável ainda é grande. E parte dessa distância é financeira.

A diretora também mencionou que a recente edição da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos reforçou a importância do tema na agenda econômica do País, sinalizando que há respaldo institucional para a discussão que a B3 quer liderar junto ao setor.

Além das ações: dívida, BDRs e interlocução internacional

Outro ponto de destaque da apresentação de Flávia Mouta foi a ampliação do escopo do que a B3 pode oferecer ao setor. A executiva lembrou que a atuação da Bolsa vai muito além da negociação de ações em bolsa, um instrumento que exige escala, governança e visibilidade, que muitas empresas em estágio inicial ainda não possuem.

O mercado de dívida foi destacado como uma alternativa ativa e resiliente. "Temos um mercado de dívida ultra ativo. Vivenciamos um momento de volatilidade grande no mercado de ações, mas o mercado de dívida continua muito forte, em particular para o setor de infraestrutura", observou.

Além disso, a diretora mencionou os BDRs — certificados depositários de ações de empresas listadas no exterior que podem ser negociados na B3 — como um mecanismo que já conecta investidores brasileiros a empresas minerais com atuação internacional. Como exemplo, ela citou a Aura Minerals, companhia do setor com presença no mercado externo e representação na Bolsa brasileira.

Outro movimento descrito por Flávia foi o aprofundamento de conversas com bolsas internacionais especializadas no financiamento de empresas de mineração. A intenção é compreender os modelos que funcionam em outros mercados — como o canadense, referência global para o financiamento de junior mining companies — e identificar práticas que possam ser adaptadas ao contexto brasileiro. Trata-se de um aprendizado necessário: países como o Canadá e a Austrália desenvolveram, ao longo de décadas, ecossistemas robustos de financiamento para exploração mineral, com instrumentos específicos para cada fase do desenvolvimento de um projeto.

O que ficou evidente, na apresentação da diretora, é que a B3 está em fase de mapeamento e interlocução com o setor, buscando entender suas necessidades e identificar como a infraestrutura da Bolsa pode ser melhor aproveitada para viabilizar projetos minerais em diferentes estágios de desenvolvimento. É um ponto de partida, e não de chegada.

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