Assim é (se lhe parece)

02/02/2022
Coluna de Milton Rego

O austríaco Karl Popper foi um dos principais nomes da filosofia da ciência, ramo que estuda os fundamentos, pressupostos e implicações científicas. Ele sustentava que, para uma proposição ou teoria ser considerada científica, deveria ser refutável. Ou seja, deveria responder (em termos simplórios), à seguinte pergunta: o que deve acontecer para eu afirmar que essa teoria é falsa? Se não conseguíssemos chegar à resposta adequada, então não estaríamos, segundo ele, falando de ciência, mas de convicções.

Lembro-me de Popper toda vez que leio análises de economistas “do mercado” esgrimando argumentos como:

  • O Brasil estava no caminho certo quando introduziu o teto de gastos. A grande questão do porquê não crescíamos era o descontrole dos gastos públicos;
  • O governo Bolsonaro/ministro Guedes está aplicando a receita certa para o Brasil: controle de gastos, redução do Estado e busca de equilíbrio orçamentário;
  • Se não estamos em uma situação melhor (taxa de cambio menos depreciada, mais investimentos, menos desemprego) é porque o governo se desviou dos pressupostos acima, porque houve a pandemia ou porque precisou negociar com o Centrão;
  • O ministério da Economia está correto em perseguir os pressupostos de sua agenda neoliberal. O que atrapalha são questões políticas relacionadas ao Congresso e ao Executivo.

Na argumentação desses profissionais, toda vez que governos se afastam da cartilha neoliberal a economia vai para o vinagre. E dá-lhe cantilena do mercado: orçamento fora do controle e teto furado significam taxa de juros nas alturas e fuga de capitais; despesas sob controle baixam os juros e os investimentos voltam.

O diagnóstico parece infalível, mas falta combinar com a realidade. Em 2020, o governo fechou o orçamento com saldo negativo recorde devido ao tombo na atividade econômica e às despesas extraordinárias necessárias para o enfrentamento da pandemia. Foi a época do auxílio emergencial. Ainda assim, o mercado financeiro continuou comprando títulos públicos e a Selic se manteve supercomportada em 2,5%.

Em 2021, ao que tudo indica, as contas públicas deverão fechar quase no azul, apresentando o melhor resultado fiscal desde 2013. Porém, a Selic, desobedecendo a teoria neoliberal, foi para 12% e fechamos o ano com a inflação nas alturas, em níveis muito maiores do que o de outros países com déficit superior.

Mas, não vamos falar do Brasil. As coisas por aqui andam muito polarizadas. Vamos recorrer ao exemplo do nosso vizinho, a Argentina, cujo balanço de pagamentos dá sinais de crise cambial e que exibe uma inflação acima dos 50%. 

O diagnóstico dos experts do mercado é conhecido: o governo neoliberal de Macri pôs o país nos trilhos, mas o governo “de esquerda” da dupla Fernandez/Fernandez desviou o vizinho do bom caminho. E, como todo o governo “de esquerda” (qualquer um, desde que não seja neoliberal), condenou a possibilidade da Argentina voltar a crescer.

No espírito de Popper, convido à leitura do artigo de Joseph Stiglitz, no Project Syndicate, “Argentina's COVID Miracle” (https://bit.ly/3ogUmeW).

Stiglitz, professor da Columbia University e Nobel de economia em 2001, avalia no nosso vizinho da seguinte maneira: “(...) a Argentina já estava em recessão quando a pandemia a atingiu, em grande parte devido à má gestão econômica do ex-presidente Mauricio Macri. Todo mundo já tinha visto esse filme antes. Um governo de direita, amigo dos negócios, conquistou a confiança dos mercados financeiros internacionais, que despejaram dinheiro na hora. Mas, as políticas do governo acabaram sendo mais ideológicas do que pragmáticas, servindo aos ricos e não aos cidadãos comuns.  (...) Quando essas políticas inevitavelmente falharam, os argentinos elegeram um governo de centro-esquerda, que gastaria a maior parte de sua energia limpando a bagunça, em vez de seguir sua própria agenda.”

Stiglitz prossegue nos trazendo a visão do próprio FMI: “A avaliação (do FMI) atribui uma parcela significativa da culpa ao governo de Macri, cujas restrições a certas políticas podem ter descartado medidas potencialmente críticas para o programa. Entre essas medidas, estavam uma operação de dívida e o uso de medidas de gerenciamento de fluxo de capital”. E, desenvolvendo a argumentação, revela: “Dada a bagunça que herdou no final de 2019, o governo do presidente argentino Alberto Fernández parece ter operado um milagre econômico. Do terceiro trimestre de 2020 ao terceiro trimestre de 2021, o crescimento do PIB atingiu 11,9%, e agora estima-se que tenha sido de 10% para 2021 – quase o dobro da previsão para os EUA –, enquanto o emprego e o investimento se recuperaram em níveis acima daqueles quando Fernández tomou posse. As finanças públicas do país também melhoraram, mesmo com uma política de recuperação anticíclica, devido ao forte crescimento econômico, taxas de imposto mais elevadas e progressivas sobre o patrimônio e rendimentos das empresas e a reestruturação da dívida de 2020.”

Não pretendo que ninguém concorde comigo porque cito Stiglitz. Trouxe o exemplo para oferecer um olhar crítico em relação às avaliações dos economistas da Faria Lima, que insistem em dizer que a única alternativa para o Brasil é perseverar nas políticas ultraliberais.

Economia não é ciência exata, por mais que modelos econométricos tentem explicar o mundo. Como dizia Mark Twain, “quando tudo que se tem é um martelo, todos os problemas começam a se parecer com pregos”.