A economia brasileira favorece investimentos em mineração?

Joaquim Levy, diretor do Banco Safra e ex-presidente do BNDES, traçou um diagnóstico sobre os desafios fiscais e monetários que condicionam o financiamento do setor mineral brasileiro e apontou a convergência de juros como a chave para destravar o potencial da mineração nacional.
O Brasil está mais perto do que imagina de dar um salto decisivo em sua indústria mineral. Esta foi, em essência, a mensagem entregue por Joaquim Levy, diretor do Banco Safra e ex-presidente do BNDES, na palestra que abriu o Invest Mining Summit. Com a autoridade de quem transita entre o mundo das finanças e o da política econômica, Levy articulou, ao longo de sua apresentação, um raciocínio que conecta a conjuntura macroeconômica global, a trajetória fiscal brasileira e as oportunidades concretas da mineração, especialmente dos minerais críticos e estratégicos, num momento em que a geopolítica redesenha o mapa do capital internacional.
O que mudou desde 2024
Levy começou situando o contexto. Ele havia participado do mesmo evento em 2024 e, ao rever o que dissera naquela ocasião, reconheceu que houve mudanças substanciais no cenário. "Naquela época, tínhamos confiança na mineração, e também percebíamos o papel que a mineração tem até para endereçar o problema do clima. Mas hoje o problema do clima existe, mas a questão geopolítica se tornou muito mais visível e a nossa mineração tem um papel, talvez ainda mais importante nesse novo mundo de fricções e de competição determinado pela geopolítica", afirmou.
Um dos exemplos mais ilustrativos dessa transformação, segundo ele, é o das terras raras. "Chegamos a falar de terras raras naquela época, era até um assunto raro de se falar, mas hoje em dia todo mundo conhece e, além de se ter a realidade de investimentos, entrada de capital nisso, a própria expectativa do que fazer com as terras raras mudou, a visão mudou", disse, citando a Meteoric como exemplo de empresa alinhada a essa nova direção.
Por que o macro importa
Antes de entrar nos números do setor, Levy justificou por que o ambiente macroeconômico precisa estar no radar de um evento voltado à mineração. O argumento usado é que se trata de uma competição global por capital, e o lugar que o Brasil ocupa nesse mapa determina o apetite do investidor e a capacidade de realização dos projetos.
"A distância entre um terreno no qual você não sabe o que tem, de outro em que se sabe o que tem, e depois que vira uma jazida, é um longo caminho, em que o ambiente não só regulatório, mas também macro, acaba tendo impacto no apetite do investidor e na capacidade de realização dos projetos", pontuou.
No front externo, o ponto de atenção central, para ele, é a situação fiscal dos Estados Unidos. As taxas de juros de longo prazo americanas já superam 5%, pressionadas pela combinação de déficit primário — da ordem de 2,5% a 3% do PIB federal — e pela intensa competição por capital gerada pelos investimentos em inteligência artificial. "Isso é parte do desconforto, porque não há perspectiva de mudar", alertou Levy, referindo-se ao déficit americano que, incluindo juros, aproxima-se de 6% do PIB.
O efeito dessa dinâmica sobre o dólar e sobre os fluxos de capital para economias emergentes é ambíguo, mas o risco é real. "Eu acho que para a economia do Brasil como um todo, talvez seja um dos maiores riscos", disse.
O Brasil fiscal: longe do precipício, mas precisando avançar
Sobre o Brasil, Levy foi criterioso ao evitar tanto o catastrofismo quanto a complacência. A inflação, que deveria convergir para 3,5% ao ano, deve fechar mais próxima de 4,8%, com mais um ano de ajuste pela frente. Mas o Banco Central, a seu ver, ainda tem espaço para continuar cortando juros, dada a taxa real, que se mantém entre 8% e 10%.
No campo fiscal, o diagnóstico é de uma trajetória que "inspira cuidados, mas não era uma trajetória de completa perdição". Levy mostrou que o gasto primário do governo central, como proporção do PIB, tem se mantido estável — longe do ideal, que seria uma queda gradual, mas distante de um colapso. O prêmio de risco da dívida brasileira em dólar, embora elevado em relação ao Chile, não sinaliza risco de default.
O caminho para a normalidade monetária, segundo ele, está traçado: um resultado primário entre 1% e 2% do PIB ao longo dos próximos anos seria suficiente para estabilizar a dívida e criar o círculo virtuoso que permitiria à taxa de juros real convergir para a faixa de 4% a 4,5%.
Um dos argumentos mais estruturais da apresentação de Levy diz respeito à transformação silenciosa que ocorre há mais de uma década no financiamento da economia brasileira: a retração do crédito direcionado e subsidiado em favor do mercado de capitais.
O BNDES, que chegou a representar 4% do crédito total da economia, hoje responde por 1,2% e dois terços desse crédito já são concedidos a taxas de mercado, referenciadas às NTN-Bs. No Plano Safra, a proporção do crédito a taxas de mercado saltou de 15%, quando Levy chegou ao Ministério da Fazenda em 2015, para 75% atualmente. Na construção civil, trajetória semelhante.
"Essa é uma situação que é meio irreversível. O governo não tem como continuar dando, crescendo o crédito direcionado. Ou seja, todo mundo vai enfrentar a lei do mercado", afirmou. A consequência direta disso é que a queda da taxa de juros deixa de ser apenas uma aspiração política e passa a ser uma necessidade estrutural. "Agora não tem como fugir da taxa de mercado. Então hoje você tem uma força que obriga a nossa política monetária a ir para o nível mais habitual do resto do mundo."
Uma década de evolução regulatória
Levy dedicou parte relevante de sua fala ao avanço institucional do setor mineral brasileiro nos últimos anos. Comparando o cenário atual com as discussões de 2010 em torno de um marco de mineração que não avançou, ele destacou uma transformação profunda.
O lançamento do Plano Nacional de Mineração 2050 foi visto com entusiasmo qualificado. Levy elogiou a ambição do documento, que projeta o crescimento da participação do setor no PIB a um ritmo equivalente a cerca de 5% ao ano — o dobro da taxa esperada para a economia como um todo. Mas fez uma ressalva que, no seu entender, é um sinal positivo: "O plano me pareceu bastante conservador em relação a certos fatores. Há crescimentos da ordem de 100%, no máximo 200%. Eu acho que todas essas coisas, provavelmente teremos capacidade de um crescimento maior."
Sobre o tempo médio de análise de processos minerários, que o plano projeta cair pela metade até 2050, Levy foi incisivo com bom humor: "Eu só achei uma meta que não foi muito ambiciosa hoje para lá. Acho que dá para cair provavelmente uns 80% em 30 anos."
Níquel, terras raras e urânio no horizonte
Ao tratar dos minerais específicos, Levy identificou o níquel como um caso exemplar de renascimento produtivo em curso. Com base nos dados que apresentou, projetou que, nos próximos anos, a combinação de exportações e processamento doméstico poderia gerar entre 2 e 3 bilhões de dólares anuais apenas nesse setor, com fontes de capital bastante diversificadas — da Vale a novos fundos, passando por empresas chinesas que assumiram operações antes pertencentes a grupos como a Anglo American.
No campo dos minerais críticos para a transição energética, o tom foi de expectativa moderada. Levy reconheceu os desafios logísticos e ambientais envolvidos em projetos de fertilizantes em regiões como a Amazônia, mas defendeu que o simples fato de esses temas estarem na agenda pública já representa um avanço.
E fez uma provocação deliberada sobre o urânio. "Com a evolução das terras raras, eu acredito que vai ganhar uma nova dinâmica. O fato de a gente não ter tido uma estatal de terras raras parece dar alguns elementos encorajadores para essa dinâmica. Até porque a gente sabe que as principais fontes de urânio na África hoje estão sob um controle muito mais complicado."
Integrar a mineração à cadeia industrial
No encerramento de sua apresentação, Levy lançou uma proposição estratégica que vai além das métricas financeiras: a necessidade de se criar uma demanda doméstica que sirva de âncora para os projetos de processamento mineral no Brasil, reduzindo a volatilidade dos preços de exportação e agregando valor à cadeia.
O exemplo escolhido foram os ímãs de terras raras. "Se você tiver uma base doméstica de consumo do processo final, dos ímãs, etc., isso traz uma estabilidade inerente ao mercado, que é o que acontece na Europa. Por que na Europa se consegue ter algum processamento, às vezes em países até pequeninos? Porque a Alemanha tem o mercado para aquilo."
O caminho sugerido passa pelos carros híbridos. "Se você tiver carros híbridos e podendo haver crescimento rápido dessa demanda, para 2, 3 milhões de carros por ano dentro do Brasil, em poucos anos você teria uma demanda de óxido de neodímio de umas 5 mil toneladas. Já dá para servir de âncora para muitos projetos."
O mesmo raciocínio se aplica ao HBI (ferro-briquete a quente) e ao arco elétrico no aço, aos biocombustíveis e ao gás natural, setores em que o Brasil já tem vantagens comparativas que podem ser potencializadas com uma integração mais ambiciosa de políticas industriais e de mineração.
Concluindo, ele disse que o Invest Mining Summit serve de termômetro para um setor que já saiu da margem do debate econômico nacional e se instalou no seu centro. O desafio agora é converter planos em projetos, marcos regulatórios em licenças efetivas e potencial geológico em capital produtivo, dentro de um ambiente macroeconômico que, se bem conduzido, pode oferecer ao Brasil uma janela rara de competitividade global.







