50 anos de desafios na mineração brasileira

25/04/2023
Em 50 anos, a empresa se transformou na segunda maior empresa de mineração em atuação no Brasil, liderando a produção nacional de ferro-níquel e colocando-se em segundo lugar na produção nacional de minério de ferro. 

Por Francisco Alves 

Neste 26 de abril de 2023, a Anglo American está completando meio século de atividade no Brasil. Ao longo desse período, iniciado com a abertura de um escritório no Rio de Janeiro, para buscar no País oportunidades de investimento em ouro, a empresa se transformou na segunda maior empresa de mineração com atuação no território brasileiro, liderando a produção nacional de ferro-níquel e colocando-se em segundo lugar na produção nacional de minério de ferro. 

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O primeiro passo da Anglo American na mineração brasileira foi dado em 1975, quando adquiriu uma participação de 49% na então Mineração Morro Velho, que era o maior produtor nacional de ouro, assumindo também a direção técnica da companhia. Cinco anos depois, em 1980, com a aquisição de 50% da participação que o grupo Moreira Salles detinha na Morro Velho, a Anglo American assume o controle total da companhia e dá início a uma fase de crescimento: instala a nova planta de processamento de ouro de Queiroz, em Nova Lima (MG), abre uma unidade de mineração em Minas Gerais, a mina Cuiabá, e começa a desenvolver a mina de Crixás, em Goiás, que havia sido adquirida da Inco. 

Em 1981, a Anglo American inicia sua diversificação na produção mineral brasileira, ao assumir 40% da Codemin, do grupo Hochschild, que possuía ativos de níquel em Goiás. A Codemin iniciou produção em 1982 e até hoje se encontra em operação.

Em 1983, a Anglo American adquire 63% da Copebrás, que possui jazidas de fosfato em Goiás e também mantinha unidade de produção de fertilizantes e negro de fumo em Cubatão (SP). Um ano depois, em 1984, a companhia assume o controle dos 60% restantes dos ativos da Hochschild na América do Sul, passo que foi decisivo para sua consolidação no setor mineral brasileiro. Por um valor de US$ 900 milhões, a aquisição possibilitou à Anglo American ampliar o seu leque de atuação. Assim, além do ouro, ela passou a atuar na produção de níquel, nióbio, fosfato, petroquímicos, papel e embalagem e até de castanha de caju, já que o pacote incluía uma fábrica de castanha em Fortaleza, a Iracema. Também naquele ano, através da Copebrás, a Anglo American deu início à produção de fertilizantes fosfatados. 

Apesar de ter se tornado o maior produtor brasileiro de ouro, na década de 1990 a Anglo American decidiu sair do negócio e transferiu o controle da Mineração Morro Velho para a hoje AngloGold Ashanti. Também fez desinvestimentos na Copebrás, desfazendo-se do negócio de negro de fumo. 

No início dos anos 2000 o grupo assume o controle total da Mineração Catalão, que tinha os ativos de nióbio em Goiás, ativo que foi consolidado na década seguinte, com a expansão da capacidade, que ocorreu em 2013. Também em Goiás A Anglo American decidiu investir forte no níquel, com o projeto Barro Alto, para produção de ferro-níquel, que iniciou produção em 2011. Os ativos de nióbio e fertilizantes foram vendidos para o grupo chinês CMOC, em 2016, pelo valor de US$ 1,5 bilhão. 

Mas foi em meados da década de 2000, mais especificamente nos anos 2007-2008, que a Anglo American deu o passo mais ousado em seu histórico de atuação na mineração brasileira, ao adquirir, do empresário Eike Batista, pelo valor de US$ 5,5 bilhões, o projeto Minas-Rio e uma participação de 70% no sistema MMX Amapá. O projeto no Amapá posteriormente foi vendido para o grupo Zamin. No Minas-Rio, a empresa teve que investir cerca de US$ 8,8 bilhões, incluindo gastos com aquisição e implantação do empreendimento. O orçamento original previsto era de US$ 3,6 bilhões. A implantação do Minas-Rio sofreu atrasos e o início de produção, em 2014, aconteceu numa época em que os preços do minério de ferro estavam em um dos seus níveis mais baixos. Quando a operação estava começando a entrar nos eixos, caminhando para uma estabilidade em seus níveis de produção, um vazamento no mineroduto que transporta minério até o porto do Açu, no litoral do Rio de Janeiro, fez com que a produção tivesse que ser interrompida. 

“Eu diria que na última década talvez o grande desafio da Anglo American tenha sido colocar de pé o projeto Minas-Rio, que começou a operar em 2014, portanto vai completar, em outubro deste ano, 9 anos de produção, diz o CEO da Anglo American Brasil, Wilfred Brujin (Bill), na entrevista cujo resumo publicamos a seguir e que será publicada na íntegra na edição especial de maio que a Brasil Mineral está preparando para contar em detalhes a trajetória da Anglo American no Brasil. Confira.

Wilfred Bruijn, Presidente da Anglo American no Brasil

Entrevista com Wilfred Bruijn (Bill), CEO da Anglo American Brasil
 

BRASIL MINERAL – Que desafios foram enfrentados para consolidação do Minas-Rio e como eles foram enfrentados?

BILL - Logo que cheguei na Anglo American, meu chefe era um irlandês que morava em Londres e ele me disse que minha missão era tentar, sem nenhum novo investimento, compreender qual é a real capacidade dessa operação, dessa planta, desse sistema operacional que inclui desde a mina e planta em Conceição do Mato Dentro como o mineroduto de 529 km até o município de São João da Barra e uma planta de filtragem no porto, que recebe a polpa do mineroduto, seca, faz o reuso da água e o minério depois segue para embarque. 

O meu desafio lá foi realmente testar a capacidade e continuamos fazendo isso. Temos trabalhado muito em melhorias operacionais para elevar a nossa capacidade produtiva. O produto que sai do Minas-Rio é bastante rico. Estamos falando de dois produtos: um é o pellet-feed para utilização direta com aproximadamente 68% de ferro, portanto um produto muito bem aceito. E temos outro produto que, embora com teor de ferro menor, continua sendo excelente, porque é um pellet feed para utilização em altos fornos, com um teor de Ferro da ordem de 67%, portanto muito acima inclusive da precificação do mercado de referência, o Platts, que contabiliza sempre um minério de ferro com 62% Fe. Portanto, usa-se o Platts como referência e pega-se um prêmio em cima da referência para precificar o nosso minério. 

Estamos trabalhando uma série de melhorias operacionais e uma delas foi a inauguração, no ano passado, da unidade de separação magnética, que pega ainda um resíduo que iria para a barragem mas que reprocessamos dentro da separação magnética para poder ainda extrair um pouquinho do teor de ferro que iria para a barragem. Assim, mandamos para a barragem apenas aquilo que já não tem quase percentual de ferro nenhum e também dando longevidade maior para a nossa barragem. 

A nossa capacidade de produção no Minas-Rio é de 26,5 milhões de toneladas. Ainda não chegamos lá, mas a nossa expectativa é de chegar nesse patamar dentro de mais dois anos e estamos nessa jornada. Toda a nossa produção de minério de ferro é exportada. 

BRASIL MINERAL - Qual é a dimensão do Brasil nos negócios da Anglo American?

BILL – Considerando-se os dados globalmente, o Brasil, somando o níquel e o minério de ferro, representa algo como 15 a 18% da Anglo American global, em termos de Ebitda. O que é a Anglo American global? Temos operação de carvão metalúrgico na Austrália; na África do Sul, que é onde a Anglo American nasceu, há 105 anos, temos três grandes negócios: carvão metalúrgico, platina e minério de ferro. É uma região onde provavelmente estão mais de metade dos funcionários da Anglo American; Depois, temos o Brasil, já conhecido, e depois Chile e Peru, com cobre. Hoje fazemos parte de um grupo chamado de Metais Básicos da Anglo American, com ativos no Chile, Peru e Brasil, cuja combinação hoje representa algo como 50% da Anglo American global. Ou seja, a América Latina hoje é uma área geográfica e um conjunto de commodities bastante representativo dentro do grupo. É bom saber que fazemos parte de um grupo que tem uma contribuição bastante grande. 

Hoje, no Brasil, nosso Ebitda, com base no ano passado e anos anteriores, está na faixa de US$ 1,5 a 2,0 bilhões, somando-se os dois negócios. E a nossa expectativa para este e os próximos anos é de ficar mais ou menos nesse mesmo patamar. Então a nossa representatividade e a nossa lucratividade, devem ficar similares ao ano passado. É a nossa expectativa. 

Operações em Conceição do Mato Dentro (MG)

BRASIL MINERAL – Há perspectivas de viabilização de outros ativos de níquel e diversificação do portfólio da empresa no Brasil? 

BILL - Da mesma forma como estamos fazendo 50 anos, faremos 100 anos em algum momento. No minério de ferro, inclusive, o Minas-Rio é hoje a reserva comprovada de maior longevidade a nível Anglo American mundo. Se mantivermos o nível de operação, ela vai até 2075. Em 2073 a Anglo American fará 100 anos. Então é possível que chegue até lá. Nós temos um escritório em Goiânia que responde diretamente para os nossos colegas da geologia em Londres e que é responsável pela exploração mineral. Eles estão sempre buscando o que tem de ativos – e o Brasil tem um território grande, eventualmente tenha algo que poderíamos estar explorando.

A Anglo olha prioritariamente para reservas com teores de boa qualidade, de modo que possamos fazer uma operação mais longeva, e que nos permita operar dentro de comunidades onde possamos ter um impacto positivo, seja do ponto de vista econômico, mas acima de tudo social, ambiental. 

Wilfred Bruijn, Presidente da Anglo American Brasil

Temos hoje duas reservas de níquel, uma delas numa região de Mato Grosso, um projeto que onde não tem operação, é apenas uma reserva que está lá. E outra no estado do Pará, o projeto que chamamos Jacaré, até pelo desenho da formação de níquel lá. Para que consigamos extrair níquel de lá, na modalidade que possa atender a essa demanda por baterias, ainda precisamos consolidar uma rota de processo. No entanto, poderíamos estar já explorando essas reservas para obtenção de ferro-níquel para a indústria de aço inox. Mas não está no nosso plano, pelo menos nos próximos dois a quatro anos, explorar. Precisamos estudar mais, fazer mais sondagem, entender bem o entorno e dessa forma dar tempo para a maturação desses processos tecnológicos novos. Isso se consolidando, teremos uma tomada de decisão um pouco mais confortável e menos arriscada. 

Em relação a novas commodities, novos empreendimentos, estamos sempre olhando, estudando, tem um pessoal que está focado nisso, não necessariamente poderia ser algo 100% novo, pode ser algo existente que possa ter algum tipo de sinergia. No passado a própria Anglo American já teve aqui nióbio, fosfato, outros minerais, hoje estamos com minério de ferro e níquel, como amanhã poderíamos ter também alguma nova commodity. No Chile e Peru operamos com cobre. O Brasil não é um país tão vasto em cobre, mas é uma commodity que traz uma contribuição muito grande para um mundo mais verde, então caso tenha, poderia ser algo a se pensar, mas não temos nada em vista para cobre em particular. 

Operações em Barro Alto (GO)

BRASIL MINERAL – A empresa está realizando um investimento forte em Goiás. O que está sendo feito? 

BILL – Temos uma carteira de investimentos da ordem de R$ 2,5 bilhões, para os próximos cinco anos, em níquel, que contempla duas plantas de briquetagem, o que permite que consigamos processar também o pó do níquel e fazer com que a alimentação dos nossos fornos seja mais produtiva, de modo que possamos ganhar um pouquinho de produção, porque hoje estamos praticamente a 96-97% da capacidade produtiva. É uma produção bastante estável. Estamos estudando novas tecnologias de processamento do níquel. Diferentemente do minério de ferro, o teor de níquel no nosso ROM, que é o minério in situ, na natureza, é da ordem de 1,4 a 1,5% Ni. 

No caso específico do níquel queremos manter a estabilidade dos nossos negócios, poder trazer, através dessas novas tecnologias, uma longevidade maior desses ativos, que hoje têm uma vida útil de mais 25 anos e levar isso para pelo menos mais uns 40 anos, com um aproveitamento de pilhas que temos estocadas com um teor um pouquinho menor, mas com uma nova tecnologia de processamento poderiam nos dar teores maiores.