Quais são os fatores que favorecem a alta do ouro?

29/01/2026
O ouro não sobe apenas porque o risco aumentou. Ele sobe porque o sistema financeiro global se tornou excessivamente concentrado em um único eixo, o dólar, e começa, lentamente, a buscar saídas.

 

Receio de guerra, de recessão, de Trump, do caos geopolítico. Sempre foi assim: quando o mundo treme, o capital corre para o ouro. Essa é uma explicação simples, e confortável, para a disparada do ouro e de outros metais nos últimos meses: medo. “O problema é que essa explicação já não é suficiente. O ouro não sobe apenas porque o risco aumentou. Ele sobe porque o sistema financeiro global se tornou excessivamente concentrado em um único eixo, o dólar, e começa, lentamente, a buscar saídas. Não por pânico imediato, mas por cálculo estratégico”, pontua o economista Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo (Italcam) e CEO da Energy Group.

Para Ongaro, os números ajudam a dimensionar o fenômeno. “Hoje, os ativos líquidos globais denominados em dólares, ações, títulos do Tesouro americano e dívida privada, somam algo entre US$ 100 e 110 trilhões, valor praticamente equivalente ao PIB mundial. Nunca, na história moderna, tanta riqueza líquida esteve concentrada em uma única moeda e em um único sistema institucional”, comenta Ongaro.

Enquanto esse sistema era percebido como estável, previsível e politicamente confiável, essa concentração era vista como virtude. Agora, começa a ser encarada como vulnerabilidade. Ongaro ressalta que o dólar não colapsou, perdeu exclusividade. “É importante ser preciso. O dólar não quebrou, não perdeu sua função como moeda de comércio global e segue dominante nas transações internacionais. O que ele começou a perder é algo mais sutil e mais perigoso: a exclusividade como ativo de refúgio”, avalia o economista e empresário.

Durante décadas, a lógica era automática. Em momentos de crise, o dólar se fortalecia. Em 2025, pela primeira vez, essa regra deixou de funcionar de forma consistente. Em episódios de tensão, tarifas comerciais, ameaças diplomáticas, ruídos institucionais, o dólar não se valorizou como esperado. Em alguns casos, enfraqueceu.

“Esse detalhe altera profundamente o comportamento do capital global. Quando um grande fundo soberano, um fundo de pensão ou um banco central decide reduzir apenas alguns pontos percentuais de sua exposição ao dólar, o impacto é desproporcional. Não porque o dólar seja frágil, mas porque o estoque é gigantesco. Estamos falando de deslocar frações de um volume equivalente à produção anual de toda a economia mundial”, analisa Ongaro.

Para o VP de finanças da Italcam, o problema não é vender dólares. É onde reinvestir. “Não há para onde correr e é por isso que o ouro sobe. As alternativas simplesmente não têm escala ou estabilidade suficientes. O euro sofre com fragmentação política, crescimento baixo e incerteza institucional. O iene carrega dívida elevada, demografia adversa e uma política monetária sem margem. A China é um sistema fechado, opaco, com riscos políticos difíceis de precificar. A Suíça é sólida, mas pequena demais para absorver fluxos globais relevantes. O resultado é um vazio estrutural. Hoje, não existe um ativo financeiro capaz de substituir o dólar em escala sistêmica”, explica Ongaro.

É nesse espaço que o ouro volta a ganhar protagonismo. Não porque seja moderno, produtivo ou eficiente, mas porque não depende de decisões políticas, bancos centrais ou instituições multilaterais. Não pode ser sancionado, congelado, impresso ou manipulado por decreto.

Há ainda um fator técnico decisivo. O mercado global de ouro vale hoje cerca de US$ 37 trilhões, pouco mais de um terço do total de ativos líquidos em dólar. O mercado de prata é muito menor. O de platina, menor ainda. Lítio e cobre, menores novamente.

“Quando fluxos relativamente modestos tentam sair de um reservatório gigantesco, o dólar, e entram em recipientes muito menores, os metais, os preços sobem de forma violenta. Não é apenas especulação. É descompasso de escala. Por isso a prata sobe mais do que o ouro. Por isso o platino dispara. Por isso até metais industriais passam a se comportar como ativos financeiros”, comenta Ongaro.

De acordo com ele, o ouro não está anunciando um colapso iminente. Ele está sinalizando algo mais profundo: um sistema financeiro global sem âncora clara, excessivamente dependente de um único polo e sem alternativas equivalentes.

“Enquanto não surgir um ativo capaz de absorver parte relevante dessa exposição global equivalente ao PIB do planeta, o ouro e outros metais continuarão subindo. Não por euforia. Mas por falta de escolha. E quando o dinheiro começa a se mover não por confiança, mas por ausência de alternativas, é porque o mundo já mudou, mesmo que ainda leve tempo para admitir isso”, conclui o economista e CEO da Energy Group.

*Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo (Italcam) e CEO da Energy Group.