Quais são os desafios atuais da mineração? Os CEOs respondem
Por Francisco Alves
Geopolítica Mineral, Estratégia Global e Competitividade, Casos de Sucesso, Diálogo, Política e Sociedade. Estes foram os temas que predominaram nas discussões do I Fórum de CEOS da Mineração, organizado por Frederico Bedran, com o apoio de Brasil Mineral, que se realizou no dia 28 de abril, em Brasília.
Abrindo o Fórum, Frederico Bedran afirmou que o evento foi idealizado para promover diálogo qualificado entre lideranças do setor mineral e que “nasce com um propósito claro: reunir em um mesmo espaço as principais lideranças da mineração brasileira, expressando a diversidade que o nosso setor possui, abrangendo insumos para fertilizantes, minerais críticos, ferro, ouro, metais básicos”. Ele acrescentou que o diálogo entre dirigentes é fundamental, porque nenhuma empresa ou CEO representa isoladamente a mineração no Brasil. “É na troca direta, na escuta ativa e na construção conjunta que surgem os melhores caminhos. Reunir essa experiência acumulada permite não apenas identificar desafios comuns, mas também compartilhar soluções, discutir iniciativas e valorizar casos de sucesso que possam inspirar todo o setor”
Para Bedran, a mineração ainda carrega desafios históricos de representatividade. “Superar essa realidade não é apenas uma questão de equidade, mas uma agenda de competitividade e sustentabilidade. Vivemos também um momento particularmente relevante. A geopolítica ganha centralidade. A política ganha centralidade, um papel decisivo em um ambiente econômico global que reconfigura oportunidades, principalmente para o Brasil. Isso torna ainda mais importante a troca de experiências práticas, sejam elas em licenciamento, em relação à comunidade, em questões técnicas, logística e outros temas”.
Cenário de escassez global
Tadeu Carneiro, CEO da Boston Metal, depois de abordar rapidamente sua trajetória até chegar na posição que ocupa hoje, destacando 40 anos atuando na CBMM, apresentou o cenário dos minerais críticos, destacando a escassez global e a alta de preços de metais como tungstênio e tântalo. Ele disse que a humanidade está consumindo dois planetas e só tem um. Assim, em sua visão, a era da eficiência é o próximo passo e a mineração tem muito a ver com isso. Ele traçou o cenário de como era a mineração antigamente, mostrando uma foto da mina de cobre do Rei Leopoldo, de 1928, na República Democrática do Congo e que hoje voltou a operar, produzindo zinco, cobre e germânio. “Hoje a mineração é extremamente mecanizada, muito segura, e precisa de operadores muito preparados. Hoje em dia, opera-se minas como se joga videogame”.
A seguir, Tadeu Carneiro abordou os minerais críticos, considerando o lançamento do Iphone, em 2007, como um dos momentos muito importantes da humanidade, lembrando que esses aparelhos hoje têm 75 elementos da tabela periódica. E que para se fabricar uma turbina eólica de 3 megawatts, se precisa de 1 tonelada de neodímio-ferro-boro.
Sem os minerais críticos, afirmou, não vai haver os data-centers de que o mundo precisa. “Existe hoje uma demanda enorme por materiais críticos e se formos no ciclo de desenvolvimento de mineração que se tinha antigamente, não se vai conseguir suprir a demanda. E já estamos vendo isso acontecer”. Ele apontou que já existe uma escassez de alguns materiais no mercado, lembrando que o preço do tungstênio subiu 500% no último ano. Também houve forte aumento nos preços do tântalo. Nesse cenário, quem controla uma porcentagem grande de algum dos minerais críticos, ou o refino das matérias-primas, acaba tendo uma importância muito grande na cadeia de suprimento. E lembrou o exemplo do Ministério da Guerra dos EUA, que está usando recursos de capital para não ficar dependente de minerais e materiais críticos.
Depois ele mostrou a tecnologia desenvolvida pela Boston Metal, para produção de metal sem necessidade de água, hidrogênio, captura de carbono. “Só precisa de eletricidade e pode trabalhar com matérias-primas de baixo teor. Então, para reagir à necessidade da quantidade de metais que hoje a sociedade demanda, é preciso aumentar a recuperação. E é isso que essa tecnologia traz. Com a mesma quantidade de minério, se produz 2 ou 3 vezes a quantidade de metal, com o mesmo custo e um CAPEX muito menor”.
Ele também traçou o mapa de oportunidades que a Boston Metal está estudando nos EUA e outras partes do mundo. No Brasil, menciona os casos de Onça- Puma (níquel) e Sossego (cobre) da Vale.
Geopolítica Mineral
O painel 1, composto apenas por mulheres, abordou os Riscos Geopolíticos e reuniu a secretária de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do MME, Ana Paula Bittencourt, a cônsul do Reino Unido em Belo Horizonte, Laura Queiroz, e a representante da Austrália Vanessa Voss, que debateram sob a moderação de Marisa Cesar, presidente do conselho da AMC (Associação de Minerais Críticos).
Ana Paula Bittencourt destacou que a mineração deixou de ser apenas pauta econômica e virou estratégia de Estado, com foco em soberania e agregação de valor no território nacional. Ela disse que a mineração começou a entrar em agendas de tensões geopolíticas, “em que não estamos mais falando de um compromisso de descarbonização, mas de defesa, de indústrias de alta tecnologia, de economia digital, de posição de nações”. E lembrou do recente compromisso entre Estados Unidos e União Europeia na busca pela viabilização da produção e suprimento de matérias primas, envolvendo apoios, subsídios, estoques, dentro de uma problemática que foi evidenciada, como a alta concentração das cadeias, especialmente midstream e downstream, na Ásia. “Tudo isso foi confluindo para o ápice de tensões que tivemos a partir da política americana de tarifas, em que a mineração, de uma vez, cai na mesa com todo o peso. O mundo volta os olhos ao Brasil de uma maneira ainda mais acentuada. E nisso, qual é a oportunidade para nós, países produtores fora desse eixo? Quais caminhos vão ser adotados? E aqui estou falando do prisma de governo”.
A secretária acrescentou que se está oscilando entre um nacionalismo exacerbado, centralizador e controlador, e uma flexibilização grande de regras, incluindo as ambientais e gestão de recursos minerários, uma avalanche de subsídios, instrumentos de apoio, muitas vezes sem contrapartida alguma. “Qual vai ser o nosso caminho? Cada um desses países tem sua peculiaridade geológica e um nível de maturidade na sua cadeia, de acesso a tecnologias e um contexto político peculiar. Estamos falando de um universo de diversidade. Como o Brasil vai se posicionar em relação a isso? Qual é a visão do MME?”, indagou.
Por fim, ela lembrou que o Brasil é um país enorme, democrático e que haverá infinitas opiniões sobre qual caminho escolher. E que o País terá a sua estratégia, levando em conta as condições geológicas específicas, o nosso nível de maturidade na cadeia, as nossas condições políticas específicas, destacando que houve o deslocamento do eixo de uma mineração que estava absolutamente centrada em interesses privados para uma mineração que agora virou estratégia nacional. “No Brasil, os bens minerais pertencem à União, ao povo brasileiro. E as atividades do setor mineral devem ser exercidas no interesse nacional”, concluiu.
A representante do Reino Unido, Laura Queiroz, disse que o Brasil saiu de um momento em que a mineração era o “patinho feio” da equação e agora se tornou estratégica, com a pauta dos minerais críticos. Ela acrescentou que, para o Reino Unido, esta é uma estratégia nacional e internacional e que ninguém vai fazer isso acontecer sozinho. “Ninguém é totalmente independente. Nem a China, que tem tantos minerais, tantas indústrias de processamento, laboratórios. Precisamos de parcerias internacionais”. E acrescentou que o Reino Unido atualmente tem se posicionado nas duas vertentes: investindo muito internamente, no setor doméstico, focando muito na pauta de economia circular, de reprocessar esses metais para poder ter uma independência, e buscando atuar cada vez mais com os pares internacionais, lembrando que a Austrália é um grande parceiro do Reino Unido, assim como dos Estados Unidos e Canadá.
Laura informa que há um grupo do G7, uma aliança onde se trabalha investimentos conjuntos nessa pauta, principalmente na frente de processamento. E menciona a estratégia adotada pelo Reino Unido, a Vision 2035, que considera um horizonte de 10 anos para construir a diversificação do setor, buscando parceiros confiáveis. “Queremos adicionar valor no Reino Unido, ter nossas indústrias, mas também fazer isso em outros países”. E nisso, segundo ela, o Brasil se posiciona de maneira muito estratégica. Um exemplo mencionado por ela é o da CBMM, que investe em tecnologia britânica, que desenvolveu com a Echion Technologies a produção, no Brasil, de baterias com nióbio.
Vanessa Voss, da Embaixada da Austrália, por sua vez, lembrou que os minerais críticos se tornam centrais para a geopolítica e que um fator determinante é o risco de concentração nas cadeias de suprimento, afirmando que muitos mercados de minerais críticos possuem baixo volume de negociação, são concentrados e não há transparência. “Isso cria vulnerabilidade no fornecimento e controles de exportação, impedindo condições de concorrência equitativas nas quais produtores de minerais críticos possam, de forma justa, competir e crescer”
Em razão desses riscos, vários governos, incluindo o da Austrália, estão buscando ativamente a diversificação das cadeias de suprimentos e reduzir a dependência excessiva de um único país.
No caso da Austrália, o governo está focando em engajamento internacional e construção de capacidade soberana na mineração e processamento de minerais críticos. Nessa linha, segundo ela, a Austrália vê a colaboração internacional como essencial para construir um setor de minerais críticos mundial que sustente cadeias de suprimentos globais diversificadas e resilientes. “O governo está trabalhando com parceiros comerciais e estratégicos nesse esforço, como o Japão, Estados Unidos, República da Coreia e Reino Unido. Somos ativos em iniciativas multilaterais, para reforçar a cooperação na cadeia de suprimentos. Também participamos ativamente do Fórum de Engajamento Geoestratégico, temos acordos bilaterais de livre comércio com a India, Japão, Reino Unido, Coreia e outros, além de acordos regionais de livre comércio que facilitam o comércio ao eliminar tarifas sobre muitos minerais críticos australianos, incluindo minerais processados. Temos ainda diálogos bilaterais sobre minerais críticos com muitos parceiros, como o Reino Unido, Alemanha, França, Canadá. Vemos essa forte rede de cooperação internacional como fundamental para a construção de cadeias de suprimentos diversificados”, acentuou, agregando que o governo australiano comprometeu 28 bilhões de dólares australianos em financiamento e incentivos para o setor de minerais críticos na Austrália. E informou que mais de 75 empresas australianas já operam no setor de mineração brasileiro, seja na exploração, mineração ou fornecimento de equipamento, tecnologia e serviços. Dessas, cerca de 40 estão no setor de minerais críticos. “As empresas australianas não estão apenas focando em exploração, mas também cooperando com instituições de pesquisa e outros parceiros para desenvolver a capacidade de processamento no Brasil”, finalizou.
Estratégia Global e Competitividade
Sob a moderação de Otávio Cavalheira, o segundo painel reuniu Marcelo Carvalho (Meteoric), Ediney Drummond (Hochschild Mining) e Eduardo De Come (Ero Brasil), para discutir o tema Estratégia Global e Competitividade.
Otávio Cavalheira abriu o painel indagando como o Brasil pode se inserir no contexto global atual e transformar todo o potencial que tem em progresso verdadeiro para a sociedade.
Marcelo Carvalho destacou o Brasil como potencial base de uma nova indústria de terras raras, com depósitos superiores aos da China, mas sinalizou gargalos em licenciamento, incentivos e financiamento do BNDES. Para ele, o Brasil tem capacidade de se tornar a base de uma nova indústria sustentável de terras raras no mundo. “Acho que o governo brasileiro percebeu isso há tempo, mas governos das outras partes do mundo, principalmente ocidentais, também perceberam. O que aconteceu, que é muito interessante, foi um distanciamento da China nessa política mineral brasileira, porque o governo brasileiro quer verticalizar, e nós, produtores, também queremos verticalizar. E, como todos sabem, a China não se interessa em exportar tecnologia. Então, hoje estamos muito mais conectados à União Europeia e ao mercado americano, para que essa verticalização seja possível no Brasil”.
Para Marcelo, a falta de agilidade da União Europeia e de estratégia por parte dos Estados Unidos tem trazido uma oportunidade única para investidores brasileiros. “Hoje, por incrível que pareça, é mais fácil levantar capital no Brasil, inclusive o capital de CAPEX e de equity dos nossos projetos, do que levantar na União Europeia ou nos Estados Unidos. Isso traz uma oportunidade gigantesca para esses projetos, porque se nós somos financiados no Brasil, reduzimos um pouco o risco geopolítico e o risco político interno, diversificamos e verticalizamos a cadeia muito mais facilmente aqui no país, porque não vamos ter contrato de off-take atrelado a financiamento”.
Um dos problemas que ele vê, é a imprevisibilidade do licenciamento ambiental, embora projetos como os da Meteoric e Viridis tenham sido licenciados relativamente rápido: 12 e 18 meses. “A falta de previsibilidade ainda assusta, por isso é uma das coisas que temos discutido muito com o governo federal e com o deputado Arnaldo Jardim, relator do PL 2.780”.
Outra dificuldade que ele vê é que, para verticalizar, para gerar indústria no Brasil, é preciso competir com um mercado que produz muito barato, que é a China. Por isto ele defende que, para competir economicamente com um mercado que produz tão barato, a indústria precisa de incentivos.
Ediney Drummond, da Hochschild, indagado por Otávio Cavalheira sob as oportunidades que o Brasil apresenta, chamou atenção sobre a questão da volatilidade dos preços dos minerais, para o qual as empresas precisam estar preparadas e, para tal, devem buscar desenvolver um portfólio de projetos mais resiliente, no sentido da diversificação geográfica, não só globalmente, mas também no Brasil, citando que há estados em que o licenciamento ambiental é mais célere do que em outros, destacando os casos de Goiás e Tocantins, onde a Hochschild tem empreendimentos. Para ele, a resiliência e a previsibilidade são fundamentais para que o capital estrangeiro faça a alocação dos seus investimentos.
Em seguida Otávio Cavalheira indagou Eduardo De Come, da Ero Brasil, sobre um dos dilemas das empresas, ao olhar o futuro, que é saber escolher entre escala e especialidade. “Sabemos que, na indústria de mineração, escala sempre faz diferença, para diluir o custo fixo, para o CAPEX por tonelada, mas também vemos que existe uma corrida pela eficiência. Como a Ero Copper vê esse futuro?”, perguntou.
Eduardo De Come, respondeu que a mineração, por definição, é uma indústria de custo fixo. “Especificamente no cobre, o cenário que temos hoje são depósitos cada vez menos óbvios, pois os grandes depósitos, de classe mundial, já foram descobertos. Existe, obviamente, potencial a ser desenvolvido em jurisdições mais complexas, e esses depósitos têm teores cada vez menores. Então fica muito mais difícil se produzir o mesmo volume. Então, a escala é realmente importante”.
Falando especificamente do Brasil, ele se referiu à legislação trabalhista para minas subterrâneas, que é antiquada, não permitindo se trabalhar por mais de seis horas, o que restringe a produtividade. Isto faz com que as empresas tenham que lançar mão de tecnologias como operações remotas e semi-autônomas, controles com IA e outras, para obter mais produtividade. E Salientou que hoje, o foco da empresa é melhorar a escala de produção, para diluir o custo fixo “mas sem perder as oportunidades de aumentar a eficiência com a inovação tecnológica que está no mercado”.
Outra dificuldade para a indústria mineral, segundo De Come, é atrair bons profissionais para a atividade, já que as operações estão distantes dos grandes centros urbanos. Um caminho para enfrentar essa dificuldade é ter uma estrutura que permita aos profissionais se sentirem valorizados, oferecer um ambiente de trabalho que possibilite crescimento e investir na liderança.
Logística e energia foram dois outros pontos abordados no painel. Eduardo De Come disse que a energia elétrica tem sido um problema para a Ero Brasil, devido principalmente à oscilação no fornecimento, que leva, inclusive, a paradas de operação. Por isto, a energia será uma das prioridades no novo projeto de cobre que a empresa desenvolve em parceria com a Vale em Carajás. A infraestrutura portuária também é um gargalo enfrentado pela empresa, segundo De Come. Hoje, para exportar sua produção, a empresa utiliza um porto em Sergipe, apesar de estar no estado da Bahia.
Ediney Drummond, por sua vez, citou o modal de transporte como uma das dificuldades, principalmente quando se trata de empresas que não têm capital intensivo para investir em seu próprio modal. O principal modal utilizado ainda é o rodoviário, o que é um problema, em sua opinião.
Voltando ao tema verticalização da cadeia de produção, Marcelo Carvalho disse que, por ter os melhores depósitos de terras raras do mundo, faz sentido verticalizar a produção no Brasil. “A cadeia de verticalização de terras raras é complexa, são 4 etapas, pelo menos. Primeiro se produz, no caso de argilas iônicas, um carbonato misto de terras raras, com 17 elementos. A próxima etapa é fazer a separação dos óxidos, gerando óxidos de terras raras especificos. Quatro deles têm um valor agregado e demanda mundial crescente, que são os 4 magnéticos, 2 leves, neodímio e praseodímio, 2 pesados, disprósio e térbio. A terceira etapa da cadeia é metalizar. E a quarta é produzir ímãs etc. Nós temos, em escala de laboratório ou semi-industrial, toda a cadeia desenvolvida”.
Casos de sucesso
O painel 3, que discutiu Casos de Sucesso, foi moderado por Frederico Bedran e teve como debatedores Gilberto Azevedo (Kinross), Leandro Gobbo (PLS), Marcelo Silvestre (Galvani) Ricardo Lima (CBMM) e Rodrigo Dutra (LHG Mining).
Iniciando as discussões, Frederico Bedran perguntou a Gilberto Azevedo quais os desafios de operar uma mina de baixíssimo teor, como é o caso da operação da Kinross em Paracatu, apesar do preço alto da commodity (ouro). Gilberto mencionou que o Brasil é muito importante para o grupo Kinross e que a operação produziu, em 2025, 601 mil onças de ouro, sendo o maior produtor de ouro legalizado no País. “É uma mina que já está em operação há cerca de 40 anos, pois começou a operar em 1987, que sempre foi reconhecida por sua excelência operacional. O fato de ser uma mina de baixo teor implica necessariamente que se vai ter que gastar muito mais energia, muito mais recursos, para fazer a mesma produção que se teria numa mina de alto teor”. Para ter sucesso, segundo ele, são necessários investimentos e eficiência. E para isso se precisa investir em pessoas, tecnologia e equipamentos.
Em seguida, Rodrigo Dutra, da LHG Mining, que pertence ao grupo J&F, disse que a empresa opera 3 minas, sendo duas a céu aberto, de ferro, e uma de manganês, subterrânea. Em apenas quatro anos, a empresa passou de uma produção de 4 milhões de toneladas para 13 milhões de toneladas e planeja chegar a 25 milhões t. Dutra acrescentou que um dos grandes desafios vividos pela empresa é a logística, para escoar o seu minério por via fluvial, de Corumbá (MS) até o Uruguai. Ele disse que uma alternativa para a empresa seria a ferrovia, mas que para recuperar a Malha Oeste, de Corumbá até Mairinque, São Paulo, e depois um ramal até chegar ao Porto Sudeste, é necessário um investimento de mais de R$ 20 bilhões.
Frederico Bedran questionou, em seguida, Leandro Gobbo sobre a questão do licenciamento ambiental, que tem representado desafios. O executivo da PLS disse que sua empresa teve sucesso no licenciamento do projeto no Vale do Jequitinhonha, que foi concluído em 13 meses, considerado um prazo muito bom, mesmo numa perspectiva global. A premissa para isso, segundo ele, foi um trabalho técnico bem feito, porque a empresa optou por fazer a CLPI (Consulta Livre, Prévia e Informada), mesmo não tendo a obrigatoriedade. Ele opinou que uma empresa de mineração que não se preocupa com a sua licença social, especialmente se ela está próxima de uma cidade, ou de comunidades, vai ter muitos problemas. “É insustentável se ter um projeto de mineração em 2026 que não tenha preocupação com a licença social”, salientou. Depois ele listou os cinco legados da mineração, que são os efeitos biofísicos residuais, os efeitos residuais nas comunidades, os altos e baixos da operação, depleção dos recursos minerais e infraestrutura que beneficia a comunidade. Compatibilizar isso com a necessidade de gerar lucros é o grande desafio.
Marcelo Silvestre, da Galvani, lembrou que sem fertilizantes não tem agricultura, e sem mineração não tem fertilizantes. Ele lembrou que em 2025 o agro representou 49% do superávit da balança comercial brasileira e que 24% do PIB é agro. Apesar disso, o Brasil importa 87% dos fertilizantes que consome, de países como China, Israel e Rússia. “E hoje nós temos um grande nó em tudo isso, porque 40 a 50% da ureia que chega no Brasil, ou do enxofre, que é matéria-prima essencial para o fertilizante fosfatado, passa pelo Estreito de Ormuz”. Para resolver isso, ele opina que o Brasil precisa desenvolver o seu potencial em fosfato e mesmo em potássio.
Ele também abordou o desafio de produtores de fertilizantes, como a Galvani, que precisa atender a um mercado pulverizado (a empresa atende a mais de 1 mil clientes) e com um raio de atuação limitado pela distância.
Silvestre informa que a Galvani está dobrando a capacidade produtiva, montando uma mineração em Irecê, na Bahia, e levou para lá, antes da mineração, todos os projetos sociais desenvolvidos pela empresa. E, por se tratar de uma região árida, desenvolve todo o processo de concentração a seco.
Na sequência, Ricardo Lima, da CBMM, abordou a trajetória de 70 anos percorrida pela empresa até se tornar referência internacional, detendo 75% do mercado mundial de nióbio e exportando 95% do que produz. “O grande desafio, o que mais me tira o sono, é conseguir manter essa régua alta que foi construída ao longo desses 70 anos, continuar colocando a empresa nessa trajetória de sucesso e de referência técnica”, disse.
Para ele, o segredo do sucesso da CBMM é a priorização do desenvolvimento de tecnologia, acrescentando que o principal produto da empresa sempre foi e continuará sendo o ferro-nióbio, que é 65% nióbio e 35% ferro, para aplicação na indústria siderúrgica. “O que nós temos feito nos últimos anos foi dar um enfoque um pouco maior a tentar repetir essa história de sucesso que a CBMM sempre teve na siderurgia em outras indústrias. Então, em 2018, começamos a fazer uma reflexão e decidimos criar um núcleo de estratégia para que pudéssemos pensar a companhia no horizonte de pelo menos 10 anos. E olhando as grandes tendências mundiais, como eletrificação, urbanização, digitalização, sustentabilidade, e o nosso conhecimento dentro de casa, fomos vendo onde a tecnologia do Nióbio poderia estar ajudando o mundo a acelerar essas grandes tendências. E fomos ao mercado buscar pessoas. Contratamos vários PhDs e hoje temos mais de 40 pessoas com esse tipo de formação”.
Para Ricardo Lima, hoje a grande tarefa da CBMM é ampliar o mercado global do nióbio e por isso a empresa sempre investe para ter capacidade à frente da demanda. “Este ano estamos investindo R$ 2 bilhões e até 2030 temos um plano de R$11 bilhões aprovado já pelo nosso conselho, por todos os acionistas, para fazer frente realmente à continuidade e ao crescimento da companhia. Alguns anos atrás, 90% da receita da CBMM vinha da indústria siderúrgica, 10% de outras aplicações. No ano passado, nós fechamos com 75% na indústria siderúrgica e 25% nas outras aplicações, sendo que a siderurgia cresceu também. É que as outras crescem em um ritmo mais rápido”, concluiu.
Diálogo, Política e Sociedade
Encerrando as apresentações do I Fórum de CEOs da Mineração, o presidente da INB, Tomás Figueiredo, fez uma palestra na qual enfatizou que a mineração precisa traduzir seus argumentos técnicos na linguagem do território — prefeitos, vereadores e comunidades —, sob pena de criar resistências que inviabilizam projetos.
Ele também abordou a necessidade de se ampliar a produção de urânio para sustentar a meta de 14 gigawatts de energia nuclear prevista no Plano Nacional de Energia.
Tomás pontuou que o assunto mineração deixou de ser um assunto estratégico apenas do ponto de vista econômico e passou a ser estratégico também do ponto de vista geopolítico e da política interna do País. “E, por conta disso, a sensibilidade em torno do assunto aumentou muito. E, neste momento, todo mundo está olhando para isso.”
Ele acrescentou que está focado em construir os instrumentos necessários para que o investimento privado consiga estabelecer uma relação com a INB. “Uma relação de confiança, onde se possa acreditar que o investimento que está sendo feito vai se pagar, e um investimento que para o Brasil é importante, porque nós precisamos ampliar o nosso conhecimento geológico, a nossa produção de urânio, que atualmente está bem abaixo daquilo que precisamos, apesar de termos um potencial em recursos minerais muito superior a tudo o que planejamos para os próximos anos”.