
O Brasil minerador se prepara para um El Niño "muito forte", com alertas de chuvas extremas e impactos potenciais em territórios de exploração mineral.
Enquanto o debate público sobre o El Niño se perde em inúmeras previsões de calor e chuva, uma convergência perigosa se forma no Brasil minerador. A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, estima em 81% a probabilidade de um El Niño "muito forte" até dezembro de 2026, potencialmente um dos maiores desde 1950. Notas técnicas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) alertam para chuvas extremas no Sul e secas severas no Norte, com persistência provável até 2027. Anomalias oceânicas acima de 2°C ocorreram apenas quatro vezes em 150 anos. Este pode ser o quinto Super El Niño da história moderna e encontrará os territórios minerados em condição singular de exposição.
Essa singularidade não é retórica. Ela é estrutural e mensurável. Diferentemente de qualquer outra atividade econômica, a mineração tem rigidez locacional absoluta. A mina existe onde a geologia determinou, e a cidade cresceu ao seu redor. Pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), encomendadas por nós, da Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil), mostram que os municípios mineradores permanecem mono-dependentes da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), na absoluta maioria dos casos, que somou R$ 7,9 bilhões em 2025. A revista Resources Policy, chama isso de "maldição dos recursos localizada". Os custos socioambientais da extração são dissipados no território municipal, enquanto o valor gerado é concentrado e longe dele. O município minerador convive, no cotidiano, com barragens, pilhas de estéril, cavas e rejeitos, um passivo geotécnico que nenhuma outra cidade brasileira carrega na mesma escala.
É sobre esse passivo que o Super El Niño incidirá. Levantamento na revista Metals identificou 342 rupturas de barragens de rejeitos no mundo até 2021, com chuvas e eventos extremos entre as principais causas. Estudo da Universidade de Zaragoza, na Espanha, implica a chuva intensa em 25% das rupturas globais. O Brasil conhece bem esses dados. As cidades de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), em Minas Gerais, figuram na literatura como os desastres mais catastróficos do gênero. Menos lembrado é janeiro de 2022, quando chuvas extremas puseram 36 barragens mineiras em emergência simultânea. Em janeiro deste ano, bastaram 100 milímetros de chuva abaixo da média do mês para estruturas de contenção extravasarem em Congonhas (MG), cidade que armazena 81 milhões de metros cúbicos de rejeitos, 27 vezes o volume hoje contido em Brumadinho, segundo pesquisadores da UFMG.
A pergunta é incômoda, porém extremamente necessária: se estruturas dimensionadas para o clima do século XX, calculadas a partir de seus modelos de ‘tempos de recorrência’ falham sob chuvas comuns de um planeta aquecido, o que esperar de um evento extremo e catalisado com previsões de acontecer em proporções históricas? A Agência Nacional de Mineração (ANM) registra mais de 900 barragens no país, muitas concebidas décadas antes de qualquer exigência de cenário de aquecimento global, muito menos de qualquer previsão de um super El NIÑO. A Política Nacional de Segurança de Barragens, avanço inegável pós-Brumadinho, ainda não alcança sumps, diques e cavas, justamente as estruturas que falharam em Congonhas. E a plataforma AdaptaBrasil indica que dois em cada três municípios brasileiros têm capacidade adaptativa baixa ou muito baixa às mudanças climáticas.
O custo da inércia não é abstrato. Estudo na Science, de pesquisadores de Dartmouth, estimou que os Super El Niños de 1982-83 e 1997-98 subtraíram US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões da economia global nos cinco anos seguintes, com as maiores perdas recaindo sobre economias tropicais. No território minerador, isso significa arrecadação comprometida, operações suspensas, gestão pública direcionada para emergências, sem possibilidade de planejamento e populações duplamente expostas ao risco geotécnico herdado e ao risco climático anunciado.
Há, contudo, uma janela de ação. O Super El Niño de 2026 é o evento extremo mais anunciado da história climática brasileira. Os municípios mineradores precisam exigir, agora, planos de adaptação climática, planos de gestão de riscos, de contingência e demais (já previsto na legislação), revisados sob cenários climáticos atualizados, monitoramento de todas as estruturas de mineração transparentes e de acesso público, além de garantias de financiamento da adaptação proporcional ao risco que hospedam. Entre a previsão e a tragédia existe um intervalo chamado decisão. Ele está aberto e é curto. (Por: Thiago Metzker, que trabalha, há mais de 18 anos, na agenda climática internacional junto ao Intergovernmental Panel on Climate Change, ou Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) / Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC)).
Carregando recomendações...