O Futuro da Mineração em um Mundo Carbono Zero

25/11/2021

Na tarde do dia 24 de novembro, aconteceu o Fórum Brasil Mineral, juntamente com a cerimônia de premiação das Empresas do Ano do Setor Mineral 2021, pela segunda vez no formato virtual. O Fórum teve como tema principal “O Futuro da Mineração em um Mundo Carbono Zero”, em dois blocos de debates. O evento pode ser acompanhado pelo canal da Brasil Mineral no YouTube

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O Fórum teve como mediadores Francisco Alves, editor-chefe da Brasil Mineral e Giorgio de Tomi, diretor do NAP Mineração/USP e membro do Conselho Consultivo da Brasil Mineral. O Bloco 1 contou com a participação de Ricardo Carvalho, CEO da CBA-Companhia Brasileira do Alumínio, Camilo Lelis Farace, vice-presidente Américas da AngloGold Ashanti e Manoel Valério de Brito, Co-CEO e COO da Mineração Caraíba. 

Inicialmente o mediador De Tomi questionou os participantes do primeiro bloco de debates como o setor mineral poderia contribuir para cumprir os compromissos para descarbonização no setor. Ricardo Carvalho, CEO da CBA, afirmou que as emissões de carbono são um dos elementos principais do ESG e que a companhia pretende reduzir as emissões de alumínio primário em 40% até 2030, incluindo ações em toda a cadeia. 

“Todos os investimentos assumidos levam em consideração os impactos ESG. Enfim, para atingir o carbono zero em 2050, temos que agir agora”. Ele informou que na mineração a CBA desenvolve o projeto Reflora, que está muito ligado à captura de carbono, com edital lançado recentemente. Estamos identificando pequenos produtores e áreas legais de matas nativas, mananciais, onde a CBA quer dar suporte com programas socioambientais, além de interligar corredores ecológicos que facilitam o retorno de fauna e flora. 

Carvalho citou a Universidade de Viçosa como parceira em projetos em áreas mineradas onde são realizadas atividades de recuperação ambiental  do solo, conservação hídrica, restauração florestal. “Acompanhamos o caminho de carbono zero para combustíveis para equipamentos de mineração e energia limpa para equipamentos. O executivo disse que a CBA já tem 100% de energia limpa em toda a produção de alumínio primário e a matriz energética limpa é um desafio no mundo inteiro”. Ele considera importante compromissos formais, de forma auditada. “Só vamos chegar ao carbono zero com colaboração, interação e desenvolvimento de tecnologias que são necessárias para este mundo carbono zero”. 

Camilo Farace, VP Américas da AngloGold Ashanti, destacou que a empresa está em um contexto muito forte em relação à preocupação com as emissões de carbono. A empresa já atualizou as metas com o ICMM, com o objetivo de que esse avanço aconteça no setor. “Atualmente, temos um grande problema de tecnologia para que possamos acelerar os programas de redução de CO2. A grande dependência para amenizar essa tecnologia é a capacidade da mineração em produzir os metais que serão utilizados em um futuro de transição energética”. 

Para Farace, 2050 está logo ali e o setor tem que adotar ações para conter o colapso. Por exemplo, a AngloGold utiliza energia elétrica limpa, o que é uma possibilidade importante no Brasil, apesar do custo a mais a ser pago. A empresa tem também áreas verdes preservadas que somam 10 mil hectares, e realiza a captura de carbono nessas regiões. “Em relação aos rejeitos, Farace disse que a AngloGold Ashanti está eliminando as sete barragens de rejeitos com deposição a úmido – projeto que deve ser concluído no primeiro trimestre de 2022 – e que a empresa já conseguiu  alcançar os 100% de disposição a seco desde setembro deste ano. 

Manoel Valério, da Mineração Caraíba, disse que a busca pelo carbono zero é um objetivo comum em todas as empresas e cada vez mais o mundo corporativo está alinhado ao ESG, onde há um trabalho amplo (investidores, executivos) para reduzir as metas colocadas para 2030 e 2050. “Nós produzimos um metal alinhado com a energia limpa, já que o cobre (substância essencial para a transição energética) terá sua demanda aumentada nos próximos anos”. Para isto, a Caraíba anuncia uma abertura de uma nova mina de cobre no Norte do Brasil para ampliar a capacidade e produzir matéria-prima em prol da emissão de ter as tecnologias necessárias para diminuir as emissões ao longo dos anos. 

A Caraíba utiliza energia elétrica da barragem de Sobradinho, uma energia limpa, mas, apesar disso, a mineradora usa equipamentos a diesel que provocam as emissões. Ao longo do tempo, Valério diz que a Caraíba deve otimizar o uso do combustível para uma fonte mais limpa. “Estamos com tecnologias modernas para diminuir a produção de gases e em outras atividades, como rejeito, estamos fazendo a disposição a seco com luz solar, atuando cada vez mais com a redução das metas desafiadores para diminuir as emissões”. 

Dando sequência aos questionamentos, Francisco Alves afirmou que a indústria mineral é considera vilã, pelas emissões de CO2 que gera, e heroína, pelo fato de aportar os produtos que contribuem para mitigação das mudanças climáticas, em especial para gerar novas fontes de energia. Sobre a indagação, Ricardo Carvalho, da CBA, comentou que o alumínio aplicado em transportes reduz o peso dos veículos, o que já provoca um volume menor de emissões de CO2, além de estar presente em carros híbridos, elétricos, painéis solares e na própria energia eólica, onde o alumínio é utilizado em equipamentos. “O alumínio está na eletrificação do mundo e está totalmente inserido nas ações de redução de emissão de CO2. Sempre buscamos novas aplicações para o alumínio para tentar reduzir cada vez mais as emissões. Ele acrescentou que a CBA tem o Legado Verdes do Cerrado, “onde estamos implantando a metodologia REED +  que gera créditos de carbono para quem mantém mata nativa preservada, além do Legado das Águas em São Paulo, com mudas para revitalizar as margens do rio Pinheiros”. 

Farace chamou atenção para o aspecto da dependência e interligação da mineração geradora de carbono e, ao mesmo tempo, provedora de recursos que irão ajudar a mitigar as emissões no planeta. Para Manoel Valério, da Caraíba, “é uma contribuição enorme que o Brasil pode fazer, pois temos uma grande oportunidade de sermos protagonistas para as indústrias de base. Com os minerais estratégicos, a sociedade irá perceber a importância da mineração”. O balanço é totalmente favorável e é preciso reduzir a emissão do carbono, o impacto social, ambiental. “Temos a mineração organizada, mas as pequenas e médias têm que se organizar também, para que a mineração ilegal que queima a imagem do setor não seja destaque. O ESG veio para ajudar cada vez mais para diminuir o carbono, mas o problema do Brasil é a união, o poder de influenciar setores, órgãos para que outras empresas possam se engajar para trabalhar de forma sustentável”. 

No Bloco 2 do Forum estiveram presentes Tony Lima, Diretor de Operações do projeto Serrote da MVV, Eduardo de Come, Co-CEO e CFO da Mineração Caraíba, Luciano de Freitas Borges, vice-presidente da Mineração Serra Verde e Rodrigo Martins, Gerente Geral de Exploração da Anglo American no Brasil. 

O mediador do Fórum Brasil Mineral, Giorgio de Tomi, colocou em pauta no início do Bloco 2 as metas de redução de emissão de carbono propostas na COP26, que passam pelos Escopos 1 e 2 (compulsórios – operações de lavras e beneficiamento na mineração) e Escopo 3 (opcional). Quais os caminhos da indústria mineral para tais mudanças?

Tony Lima disse que o desafio da descarbonização nas operações estão avançados na empresa, e um exemplo disso é o recém-concluído projeto Serrote, que tem fontes de energias renováveis como suprimento. “Consumimos 2.35 toneladas de CO2e para cada tonelada de cobre produzido, enquanto parceiros consomem 20 toneladas. Isso aumenta a responsabilidade em buscar as premissas do Escopo 1 e em reduzir as emissões. O cobre é alinhado à estratégia de eletrificação de veículos e um metal muito importante para transição energética. Nos posicionamos melhor, mas ainda temos muitos desafios”. 

Eduardo de Come, CFO da Mineração Caraíba, comentou que a descarbonização tornou-se uma obrigação, já que os acionistas pressionam nas questões relacionadas à descarbonização, redução de emissões, questões sociais e ambientais, ESG. “Nós dependemos de tecnologia para operação em uma mina subterrânea para que possamos continuar o processo de lavra atendendo a todas essas demandas”. 

Para 2022, a Caraíba já contratou uma auditoria contábil para a área de ESG com o objetivo de montar um programa muito forte para trabalhar com a demanda que virá pela frente. “Se não fizermos algo no momento, os danos serão maiores. Vamos investir muito no início para buscar tecnologias que reduzam as emissões, para sermos compensados posteriormente”. 

Já Luciano Borges, VP da Mineração Serra Verde, disse que economia de carbono zero é um modo de produção irreversível e depende de práticas específicas e matérias-primas especiais. Nosso produto tem energia limpa, teleconectividade, computadores, smartphones, refrigeração ambiental – demanda muito grande - - e é uma grande oportunidade do ponto de vista do projeto. 

“Nosso principal investidor tem uma empresa de energia eólica no Brasil, o que já mostra um pouco do nosso perfil. A questão mais critica é a de combustíveis fosseis e a lavra rasa na Amazônia impacta muito. Temos estratégias neste momento de transição com medidas compensatórias, reflorestamento, entre outros. “O projeto sustentável de nossas edificações e de nossos  processos com menos recursos utilizados. Substituímos por processo que utiliza água e sal de cozinha - processo recicla quase 100% da água”. 

O último a responder foi Rodrigo Martins, Gerente Geral de Exploração da Anglo American no Brasil, que citou o recém-lançado Plano de Mineração Sustentável da companhia com metas de ter carbono zero em todas as operações até 2040, e realiza um trabalho paralelo junto a fornecedores, mas que tem que cobrir toda a cadeia. “Quando vemos a sondagem, anteriormente tinha torres de iluminação a diesel e hoje são baterias de LED. Em Alta Floresta implantamos o projeto Reflorestar, programa de recuperação de mata nativa. A mineração, com a força e tecnologia que emprega, poderá fazer a diferença com uma economia mais sustentável no futuro”. 

Tomi colocou em debate o impacto do aumento da demanda por metais para uma transição energética. Tony Lima, da Appian, comentou que o impacto do aumento da demanda por metais (cobre e níquel) para um futuro mais limpo é positivo. “A venda de veículos elétricos aumentou 42% nos últimos cinco anos e ainda tem uma perspectiva maior para os próximos anos. Quanto à demanda por níquel, ele disse que a Appian está em posição tranquila já que, por meio da Atlantic Nickel (Bahia), é produzido níquel sulfetado, um produto premium e diferenciado”. Com a venda dos ativos da Atlantic Nickel no Brasil, a Appian espera alavancar a presença na América Latina com os metais verdes e baterias. 

“Temos uma situação parecida com a do Tony, já que o cobre terá um impacto positivo, por causa da energia verde e veículos elétricos”, disse Eduardo De Come, da Caraíba. Segundo ele, vários depósitos não aproveitados começam a ser reativados e traz um benefício econômico para as regiões onde as mineradoras atuam, melhorando a qualidade de vida das pessoas. 

“Estamos começando um projeto de cobre na cidade de Tucumã (PA), onde serão investidos quase US$ 300 milhões por 12 anos. A Onda Verde cada vez mais forte e debatida na sociedade terá um benefício muito grande para a mineração”. 

“Para nós, da Serra Verde -- disse Luciano -- há expansão da demanda por nosso produto e a qualidade que ele entrega para o mundo, um mundo mais limpo, conectado, colorido. Nossa estratégia é de expansão pois temos recursos minerais para isto, já que o nosso projeto atual cobre 18% do potencial total de recursos. Está projetado em fornecer 5% de todas as terras raras do mundo e 20% das de alto valor. Estamos posicionados para atender à demanda do mercado. Só podemos comemorar com a Onda Verde”. 

O representante da Anglo American comentou que projetos marginais passam a ser interessantes com essa mudança. A empresa está em fase de comissionamento para o primeiro semestre de 2022 de um projeto no Peru (Quellaveco) e no Brasil a empresa olha as operações do ponto de vista de mercado e de exploração. “Não podemos perder mais essa Onda Verde. Temos que discutir a geologia para o benefício de todos no Brasil”. 

Nas considerações finais do Fórum Brasil Mineral, o mediador pediu para cada participante comentar o que o setor mineral precisa fazer para entrega dos compromissos para reduzir as emissões. O primeiro a comentar foi Tony Lima, da MVV. Ele disse que as melhores práticas ESG funcionam e é algo inegociável, pois gera retorno. “Precisamos nos unir, compartilhar e difundir as melhoras práticas ESG e ver como cada um atua e trabalhar com inovação - em tecnologia e gestão em processos internos, que nos tornará mais eficientes”. 

Pela Caraíba, Eduardo de Come, disse que o grande desafio do setor é mostrar que o desenvolvimento não é incompatível com o meio ambiente. Ao longo do tempo e com os acidentes recentes, parece que a mineração é inimiga. “Ela não é um mal necessário. É vital para o desenvolvimento e sem agredir o meio ambiente. Além do desenvolvimento econômico estamos preservando e a comunidade tem que saber disso”. 

Pela Serra Verde, Luciano Borges citou o acrônimo C3: Compromisso com as metas globais, Comunicação com a sociedade e investidores e Cooperação entre empresas e comunidade científica. Desta forma, vamos ouvir que “a Mineração não é um mal necessário, mas um bem valioso. Minerar para um mundo melhor”. Por último, Rodrigo, da Anglo American, reforçou pontos como a união do setor. “Cada área tem sua especificidade, mas temos que buscar o bem comum, atender os compromissos com questões sociais, ambientais e governança e a comunicação com a sociedade”. 

Empresas do Ano do Setor Mineral 2021

A premiação de Empresas do Ano do Setor Mineral 2021 foi comandada pela conselheira da Brasil Mineral, Maria Amélia Enriquez. As empresas eleitas pelo Conselho Consultivo da Brasil Mineral e pelo voto direto do público foram distribuídas nas seguintes categorias: 

Governança Ambiental: AngloGold Ashanti e CBA. A AngloGold Ashanti pelo programa de descaracterização de barragens e disposição a seco de rejeitos, com investimentos de R$ 1,6 bilhão, e a CBA pelo programa de Recuperação de áreas mineradas de bauxita, deixando o solo com maior produtividade; Programa Legado Verdes e Legado Das Águas. A primeira foi representada por Camilo Farace (vice-presidente Américas) e a segunda por Ricardo Carvalho (CEO). 

Governança Social: Mineração Caraíba (representada por Manoel Valério de Brito, CEO) e Nexa Resources (representada por Gustavo Cicilini, VP de Recursos Humanos). A Mineração Caraíba recebeu o prêmio pelo projeto de Abastecimento de água para população no semi-árido, apoio às comunidades durante a pandemia e programa de fomento à caprino-ovinocultura. Já a Nexa Resources foi agraciada pelo Programa de formação profissional para a população de Aripuanã (MT) e inserção de mulheres na força de trabalho. 

Inovação & Tecnologia: Mineração Serra Verde (representada por Luciano Borges, vice-presidente) e Vale (representada por Marcos Calderon, gerente de Inovação Aberta). A Mineração Serra Verde recebeu o prêmio pelo programa de desenvolvimento de rota de processo menos poluente e de menor custo para aproveitamento de terras raras, enquanto a Vale se destacou pelo programa de automação de equipamentos móveis. 

Pesquisa & Prospecção Mineral : Anglo American (representada por Ivan Simões, diretor de Assuntos Corporativos) e Mineração Caraíba. A Anglo American foi reconhecida pelo Programa de prospecção na província Alta-Floresta. Já a Mineração Caraíba foi premiada pelos investimentos em prospecção no Vale do Curaçá. 

Crescimento: Appian Capital Brasil (representada por Tony Lima, diretor de Operações do Projeto Serrote) e Ero Copper (representada por Eduardo De Come, CFO da Mineração Caraíba). A Appian recebeu pela conclusão do projeto Serrote, da Mineração Vale Verde, pelo projeto de expansão da Atlantic Nickel, enquanto a Ero Copper recebeu o prêmio pelo projeto de cobre Boa Esperança (Pará) e expansões na NX Gold e Mineração Caraíba. 

O Fórum Brasil Mineral a premiação das Empresas do Ano do Setor Mineral 2021 tiveram como patrocinadores a Metso Outotec, Tracbel, Sandvik, Geosol e FLSmidth.