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MINERAIS CRÍTICOS

O Desafio do financiamento de projetos no Brasil

Por Redação Brasil Mineral•
O Desafio do financiamento de projetos no Brasil

Painel debate como estruturar projetos de minerais críticos com metodologia adequada, capital paciente e instrumentos financeiros que transformem reservas geológicas em produção comercial.

Em um painel que reuniu investidores, bancos, consultores e mineradores, ficou evidente que o Brasil tem reservas, projetos e interesse externo, mas ainda carece de metodologia, educação de mercado e instrumentos financeiros para transformar potencial geológico em produção

O Brasil possui uma das maiores províncias minerais do planeta, reservas expressivas de terras raras, nióbio, lítio, cobre e outros minerais que o mundo desenvolvido classifica como críticos para a transição energética e a revolução da inteligência artificial. Ainda assim, o país opera hoje com apenas uma empresa produtora de terras raras em escala comercial. A distância entre o que está no subsolo e o que chega ao mercado resume o grande desafio debatido no painel "Financiamento e Viabilidade de Projetos de Minerais Críticos", realizado no âmbito da Associação de Minerais Críticos (AMC). O diagnóstico foi unânime entre os participantes: o Brasil não carece de oportunidades, mas de metodologia, de capital paciente, de educação de mercado e de instrumentos financeiros adequados à complexidade e ao ciclo longo da mineração.

Um Setor em Busca de Metodologia

O painel foi conduzido por Túlio Rivadávia Amaral, CEO da Cabo Verde Mineração, empresa que ele próprio descreve como um retrato fiel das dificuldades enfrentadas por projetos nacionais de minerais críticos. "Nós não somos estado, não somos family office, não temos capital aberto", disse Amaral ao abrir a discussão. "Estamos trocando o controle agora por um consórcio de investimento europeu, mas nessa luta do dia a dia de estruturar o projeto, como é que a gente vai trazendo o de-risk do projeto, cumprindo e colocando milestones técnicos, principalmente na parte da exploração geológica?"

A pergunta sintetiza o problema central enfrentado por dezenas de empreendedores que circulam por eventos de mineração com projetos promissores em mãos, mas sem saber como apresentá-los ao mercado financeiro de forma que despertem interesse real e não apenas curiosidade. Guto Quintella, conselheiro estratégico da Galápagos e ex-executivo da Vale, onde acompanhou a consolidação do mercado de minério de ferro e projetos em múltiplos países, foi direto ao ponto: "Eu acho que tem um tremendo interesse, mas ainda não tem investimento. Porque falta metodologia de apresentação de projeto."

Quintella recorreu a uma analogia para ilustrar o momento: "Eu sou agrônomo, gosto muito de pecuária. Tem alguns livros interessantes em que o cara quando ia comprar boi zebu ia para Uberaba e desde o moço do táxi até todo mundo tinha um boi especial para vender. Hoje em dia a visão mineral tá assim no Brasil: todo mundo tem. Isso gera muito medo e preocupação."

A Escada do De-Risking

Para Marcelo Del Giudice, diretor da SLR Consulting — consultoria multinacional que nos últimos cinco anos assessorou quase US$ 3 bilhões em transações no Brasil e é responsável técnico pelo projeto Serra Verde junto ao governo americano —, o caminho para transformar um ativo geológico em projeto bankable passa por uma progressão rigorosa de mitigação de risco. Cada etapa precisa ser cumprida em sequência, sem atalhos.

"A gente tem visto muito no Brasil projetos tentando queimar etapa", alertou Del Giudice. "O cara quer sair de um projeto de exploração mineral e já fazer engenharia detalhada e a extração. Acaba tendo um argumento vendável para quem não conhece do setor. Mas a régua subiu." Segundo ele, o caminho correto passa por geologia sólida, definição de rota de processo metalúrgico – especialmente relevante para minerais críticos, cuja complexidade de beneficiamento é muito superior à do minério de ferro — e estudos de trade-off que estressem a jazida com premissas realistas. "O banco lá na frente quer ter conforto nessas premissas”.

Rafael Barcellos, head de Metais, Mineração e Papel & Celulose para a América Latina do Bradesco BBI, responsável pela cobertura de research institucional do banco, confirmou a lógica pelo ângulo do mercado de capitais. Os investidores, segundo ele, aplicam um múltiplo sobre o valor presente líquido do projeto — o chamado price-to-NAV — que aumenta progressivamente conforme o empreendimento avança da fase de exploração para o pré-feasibility, o definitive feasibility study, a construção e o início de operação. "Ao passo que o projeto vai ganhando passos dentro dessa escala de de-risking, vai se atribuindo mais valor a esse mesmo projeto", explicou Barcellos.

O BNDES e os Mecanismos de Apoio

Se do lado privado o desafio é metodológico, do lado público há também o aspecto institucional. Aminthas Gallo, consultor sênior de Mineração, Transformação Mineral e Sustentabilidade do BNDES, apresentou um panorama detalhado das iniciativas do banco para estruturar o financiamento da cadeia de minerais críticos no Brasil — um esforço que, segundo ele, começou a ganhar forma há alguns anos e se acelerou recentemente.

Aminthas descreveu a trajetória do banco: uma tentativa inicial de criar um ETF lastreado em ativos minerais listados no exterior, descartada por baixa demanda potencial; depois a construção de uma tese de fundo de investimento coletivo, testada com quase 80 instituições em 2023, que resultou em resposta morna do mercado. O ponto de virada veio com a parceria com a Vale. "A gente construiu junto com a Vale um argumento interessante: olha, a gente quer investir aqui R$ 6 bilhões, talvez em 15 a 20 projetos", relatou. "Essa construção foi muito profícua, tivemos 12 propostas." O gestor escolhido já captou quase R$ 2,5 bilhões, superando as expectativas iniciais.

Na sequência, o BNDES lançou um edital em busca de projetos de minerais críticos. A resposta do mercado surpreendeu: 124 projetos inscritos, totalizando R$ 84 bilhões em investimentos previstos. "Ao longo desses dois anos, acompanhamos uma grande parte desses projetos e quase 60 que já estão dentro do banco", disse Gallo. "Essa carteira, fazendo uma estimativa bem conservadora, é algo em torno de R$ 130 a R$ 140 bilhões, que seria esse mercado de minerais críticos no Brasil."

Em 2026, o banco acumulou uma série de movimentos adicionais: a ampliação do Fundo Clima para apoiar projetos de minerais críticos; a inclusão de uma agenda específica no Plano Brasil Soberano, com taxas a partir de 3% ao ano mais spread, chegando a uma taxa-alíquota em torno de 5%; um acordo de cooperação com a Agência Nacional de Mineração (ANM) para apoio a projetos de urânio; e um acordo com a Petrobras para identificar sinergias na agenda de minerais estratégicos.

Sobre o Fundo Garantidor de Minerais Críticos, previsto na Lei 15.506 — a chamada Política Nacional de Minerais Críticos – , Gallo disse que o fundo tem autorização para assumir R$ 2 bilhões em risco inicial, com uma proposta de acumulação de recursos ao longo de seis anos que deve atingir R$ 5 bilhões. Pela lógica de alavancagem dos fundos garantidores geridos pelo BNDES, esse volume teria capacidade de viabilizar um pipeline de até R$ 30 bilhões em investimentos. "O principal recado é o seguinte: para a agenda de 2030, estamos construindo essa solução, que vai precisar ser pactuada, legitimada com a sociedade e com o mercado", afirmou Gallo.

O consultor do BNDES foi também enfático sobre a maturidade que o país precisa demonstrar diante desse instrumento: "Canadá e Austrália servem de exemplo. Nós somos um país mineral e assumimos risco de mineração. Esse aqui é um ponto de maturidade que a sociedade brasileira precisa agora discutir."

A armadilha dos juros e o peso da geopolítica

Um fator que atravessou todo o debate foi a taxa básica de juros brasileira, que neste momento ultrapassa os 13% ao ano, uma barreira que, na prática, inviabiliza a comparação entre projetos de mineração, que têm retornos de longo prazo e riscos elevados, e aplicações financeiras de baixo risco. "Com uma taxa de juros de 20% não tem mercado que aguente nada", disse Quintella. "Na verdade, nós vamos ter que criar uma metodologia, porque não se tem empresas de estruturação de pequenos projetos na área de mineração."

Barcellos, do Bradesco BBI, reforçou o diagnóstico pela ótica comparativa: "No Canadá e na Austrália tem vários fundos de pensão com visão de longo prazo e com um ambiente de juros melhor. Então acaba tendo um fit mais aderente a um tipo de risco para um projeto de mineração. Um projeto de mineração tem uma duração longa: tem um lead time de exploração até startup de 8 a 10 anos, dependendo do projeto."

Mas o ambiente geopolítico global joga a favor do Brasil, ao menos no que diz respeito ao interesse externo. O pesquisador do Bradesco BBI apontou que o boom de investimentos em inteligência artificial e data centers está gerando uma demanda por minerais críticos em escala global que há muito tempo não se via. "Estamos vendo um nível de interesse e de demanda potencial para a maior parte desses minerais que há muito tempo não se via", disse Barcellos. Ele destacou especialmente o cobre, cuja curva de descobertas de novos depósitos tem sido declinante: "Não importa o preço. A questão é que não tem projeto suficiente para atender o nível de demanda. O cobre tem o melhor dos mundos: um lado da demanda muito promissor e um lado da oferta que enfrenta dificuldades."

O Brasil, por sua extensão territorial e potencial geológico, é um dos beneficiários potenciais desse cenário, desde que consiga organizar sua oferta. "A Austrália confia no nosso mercado, o Canadá confia no nosso mercado, mas o Brasil não confia no nosso mercado", resumiu Quintella, ecoando uma frase que havia sido dita durante o evento.

O offtake como elo estratégico

Outro mecanismo debatido com atenção foi o contrato de offtake — acordos de compra antecipada da produção que funcionam como garantia de receita futura e, por isso, facilitam o acesso a financiamento. Del Giudice, da SLR, reconheceu a importância do instrumento, mas alertou para sua complexidade no contexto de minerais críticos. "Não é uma commodity que você tem negociação e preço negociado em bolsa. Você tem uma dificuldade de precificar muito grande", disse ele.

O consultor citou o caso do antimônio como exemplo das distorções que podem ocorrer: "Tá todo mundo buscando antimônio, mas na hora que você tiver 2, 3 minas, acabou: já domina o mercado e o preço vai voltar. Então a corrida não é tanto em ter o ativo, mas em quem domina o mercado primeiro." Do ponto de vista técnico, o desafio do offtake vai além do preço: envolve garantir que o projeto seja capaz de entregar, ao longo de toda a vida da mina, o produto na especificação exigida pelo comprador. "Às vezes a gente abre o projeto e se consegue garantir nos primeiros 5 anos, mas depois a mina não consegue mais. Esse tipo de coisa tem que ser visto desde já", alertou Del Giudice.

Agenda 2030: otimismo com ressalvas

Ao final do painel, cada participante foi convidado a compartilhar sua visão para a chamada Agenda 2030 — a meta implícita de colocar um número relevante de projetos de minerais críticos brasileiros em estágio avançado ou operacional até o final desta década.

Del Giudice foi otimista, mas sinalizou obstáculos concretos. Além das questões de funding, ele destacou o problema de mão de obra qualificada como um dos maiores riscos do setor. "Precisamos ter gente, do engenheiro ao soldador. Se você olha a cadeia, falta muita gente. O déficit que se tem de engenheiro, de geólogo, é uma brutalidade." Ele também chamou atenção para a sobreposição entre o mapa geológico brasileiro e as áreas restritas à mineração — terras indígenas, unidades de conservação e outras proteções —, que representa, segundo ele, um volume gigantesco de potencial represado que precisará ser debatido com responsabilidade e ordenamento.

Barcellos, do Bradesco BBI, projetou que o Brasil ganhará relevância crescente no mercado global de cobre nos próximos cinco anos, embora reconheça que o país não tem tradição nessa commodity. Para Quintella, o cenário macroeconômico global favorece o Brasil de forma estrutural, não conjuntural. "As duas coisas que vão mover o mundo nos próximos anos são a parte ambiental — mudanças climáticas, eletrificação — e a IA. O mercado é tomador do que o Brasil pode produzir. Depende de nós organizarmos o movimento."

Gallo, do BNDES, deixou como recado final a necessidade de que a solução de financiamento seja construída coletivamente, com governança clara e legitimidade de mercado — e que a sociedade brasileira assuma, de forma consciente e deliberada, o risco inerente ao setor mineral como parte de sua estratégia de desenvolvimento de longo prazo. (Equipe Brasil Mineral)

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