
Demanda interna por produtos processados de aço recuou 11,3% até agosto, segundo a Abimetal-Sicetel, e o déficit comercial de trefilação e laminação cresceu pelo quinto ano seguido.
A Abimetal-Sicetel (Associação Brasileira da Indústria Processadora de Aço e Sindicato Nacional da Indústria Processadora de Aço) divulgou relatório a partir de análise da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e das estatísticas de comércio exterior do Comex Stat em que ficou constatada uma queda na demanda interna de 11,3% até agosto de 2026, enquanto as importações de produtos processados de aço caíram em relação a 2025, mas permaneceram em níveis elevados quando comparadas à série histórica. “Os números mostram que não basta olhar para a queda das importações. O que está acontecendo é uma combinação preocupante: o volume importado diminui, mas continua em um patamar alto, enquanto o consumo de aço no mercado interno perde força. Para a indústria processadora, isso significa menos demanda e um ambiente ainda bastante competitivo”, afirma Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel.
Entre as empresas associadas estão fabricantes que fornecem para máquinas, equipamentos e implementos agrícolas e industriais, um mercado que vem sentindo de forma mais intensa a perda de ritmo da atividade econômica. A indústria automotiva aparece como uma exceção relativa nesse cenário, com desempenho mais favorável entre os segmentos consumidores de produtos processados de aço. O fraco desempenho em 2026 das indústrias que envolvem a cadeia do aço é evidenciado pelos resultados do setor de máquinas e equipamentos e da fabricação de produtos de metal, que acumulam quedas de 7,8% e 2,8%, respectivamente. Como comparação, a indústria de transformação como um todo recua 0,1% no ano. “O setor de processamento do aço está diretamente ligado ao desempenho da economia brasileira. Quando a indústria reduz produção, investimentos e encomendas, o efeito aparece rapidamente na nossa cadeia. Temos empresas associadas fornecendo para máquinas e equipamentos que estão enfrentando esse ambiente de menor demanda. A cadeia automotiva tem apresentado uma dinâmica diferente, mas ela não representa todo o mercado”, explica Martins.
Para a associação, o recuo nas importações deve ser visto com cautela em relação a 2025, pois os números continuam elevados, superando os valores observados em 2024 ao longo de todo o ano, o que mantém a pressão competitiva sobre os fabricantes brasileiros. “Uma redução das importações, embora positiva, não significa por si só uma recuperação do mercado brasileiro. O patamar ainda é elevado e a presença de produtos chineses mantém uma forte pressão competitiva sobre as empresas nacionais. Precisamos de condições mais equilibradas de concorrência, capazes de evitar que a indústria brasileira perca espaço para produtos importados e de preservar sua capacidade de produzir, investir e gerar empregos”, diz Martins. Para o presidente da associação, o cenário reforça a necessidade de políticas que preservem a competitividade da indústria nacional.
Anuário
As associadas da Abimetal-Sicetel responderam por uma transformação estimada de 3,3 milhões de toneladas de aço em 2025, de acordo com a 15ª edição do Anuário de Análise Econômica do Mercado do Aço publicado pela entidade. O volume representa uma queda de 0,3% em relação ao ano anterior e corresponde a 15,5% do total de aço processado no país, mantendo participação próxima à registrada em 2024. Entre as associadas da Abimetal-Sicetel, a estimativa é de que tenham sido processadas 2,6 milhões de toneladas de aços longos em 2025, uma redução de 0,4% em relação ao ano anterior. Já o volume de aços planos recuou 27%, para aproximadamente 575 mil toneladas. “Os números mostram a dimensão da indústria processadora de aço e sua importância dentro da cadeia do aço. Mesmo diante de um cenário de retração, nossas associadas mantiveram um volume expressivo de transformação de aço e uma participação relevante no mercado nacional. O Anuário permite acompanhar essa evolução ano a ano para que possamos entender as principais movimentações e impactos no setor”, afirma Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel. A entidade reúne mais de 70 empresas associadas, que representam cerca de 20% do universo estimado de 350 fabricantes do setor, entre unidades independentes e siderúrgicas verticalizadas. Juntas, essas empresas empregam aproximadamente 30 mil trabalhadores.
O avanço das discussões sobre terras raras também abre perspectivas para o desenvolvimento de novos materiais e produtos. “O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses elementos. Alguns deles, como cério e lantânio, podem ser utilizados na metalurgia como agentes de refino e de liga. A aplicação pode contribuir para características como maior resistência mecânica, ductilidade e resistência à corrosão e ao calor, propriedades relevantes para a produção de aços especiais destinados a setores de alta performance”, pontua o presidente da Abimetal-Sicetel. A pesquisa realizada pela Abimetal-Sicetel também mostra a diversidade dos mercados atendidos pelas empresas associadas. Indústria em geral, construção civil e infraestrutura e máquinas, equipamentos e implementos agrícolas e industriais lideraram o ranking em 2025, sendo atendidos por 76,0%, 76,0% e 72,0% das empresas associadas, respectivamente. O levantamento também aponta mudanças na presença das empresas em diferentes cadeias produtivas. O segmento de petróleo e gás, por exemplo, cresceu de 36,8% em 2024 para 48,0% em 2025, enquanto os segmentos naval e de embalagens e recipientes avançaram de 15,8% para 24,0%. Em contrapartida, houve redução no setor automotivo, de 73,7% para 52,0%, e no eletroeletrônico, de 57,9% para 28,0%. “Essa distribuição é um indicador importante porque mostra que não existe uma única dinâmica para o setor. Enquanto alguns mercados ganharam participação, outros recuaram, refletindo as condições específicas de cada cadeia produtiva. A diversificação reduz a dependência de um único segmento e mostra onde estão surgindo novas oportunidades para as empresas processadoras de aço”, avalia Martins. De forma geral, houve maior concentração nas faixas de 1% a 20% do faturamento, embora alguns setores tenham participação mais expressiva para determinadas empresas. No setor automotivo, por exemplo, 21,4% das respondentes informaram que os negócios representam mais de 50% das vendas. Na indústria em geral, esse percentual foi de 25%.
O déficit comercial da indústria de trefilação e laminação aumentou pelo quinto ano consecutivo e chegou a US$ 823,1 milhões em 2025, ante US$ 612,6 milhões em 2021. No ano passado, as exportações somaram US$ 335 milhões, enquanto as importações alcançaram US$ 1,158 bilhão. No acumulado de 2021 a 2025, o déficit do setor chegou a US$ 3,4 bilhões, 172,2% acima do registrado no quinquênio anterior. O avanço das compras externas também aparece nos volumes. As importações atingiram 783,3 mil toneladas em 2025, alta de 5,3% em relação ao ano anterior e o quinto recorde consecutivo. Com isso, a diferença entre o volume importado e o exportado chegou a 581,1 mil toneladas, 4,5% acima de 2024. A China responde por mais de 50% das importações brasileiras de produtos de aço e derivados do setor, mantendo posição dominante nesse mercado.
“Essa situação é crítica para a indústria brasileira. Não estamos falando apenas de um aumento das importações, mas de uma diferença cada vez maior entre o que o Brasil compra e o que consegue vender ao exterior. Quando produtos importados, especialmente os chineses, entram no mercado em volumes crescentes e com preços muito competitivos, a indústria nacional perde espaço, enfrenta maior pressão sobre margens e tem sua capacidade de investir e competir comprometida. É uma questão que precisa continuar no centro da agenda de competitividade do país”, conclui Martins. O Anuário Abimetal-Sicetel 2026 oferece um retrato da posição ocupada pela indústria processadora de aço na economia brasileira e dos diferentes mercados que movimentam a demanda por produtos de laminação e trefilação. A publicação também contribui para acompanhar as transformações da cadeia e os fatores que podem influenciar seu desempenho nos próximos anos.







