
Em fórum promovido realizado em Brasília, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, aborda estratégia do banco para financiar projetos de mineração estratégica e adensamento de cadeias produtivas.
O Brasil está diante de uma janela histórica. A aceleração global da transição energética, a corrida pela eletrificação dos transportes e a reorganização das cadeias industriais em escala mundial colocaram os minerais críticos e estratégicos no centro do tabuleiro geopolítico e econômico do século XXI. E o país, dotado de reservas expressivas de cobre, lítio e terras raras, ainda não converteu plenamente esse patrimônio geológico em capacidade industrial. Mudar esse quadro é, segundo Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um dos eixos centrais da atuação do banco nos próximos anos.
Mercadante foi um dos protagonistas do fórum "Destravando o Potencial da Mineração no Brasil", realizado pela Editora Globo, no dia 18 de agosto, em Brasília, que reuniu, além do BNDES, representantes da Vale e Ibram. Em sua apresentação, o presidente do BNDES traçou um diagnóstico abrangente sobre o papel dos minerais estratégicos na nova economia global e detalhou as iniciativas concretas que o banco tem estruturado para financiar projetos voltados a esse segmento, com ênfase não apenas na extração, mas nas etapas de beneficiamento, processamento e transformação industrial que agregam valor à cadeia produtiva.
O momento e o mapa
O ponto de partida do raciocínio apresentado por Mercadante no fórum é o reconhecimento de que a demanda global por minerais vinculados às tecnologias de transição energética, à manufatura avançada e à digitalização cresceu de forma estrutural e deverá continuar crescendo. Baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores, equipamentos de geração e armazenamento de energia são todos produtos que têm nos minerais críticos um insumo insubstituível. Lítio, cobalto, níquel, grafita, terras raras, cobre formam uma longa lista de recursos cuja disputa passou a pautar relações diplomáticas, acordos comerciais e estratégias de segurança nacional em todo o mundo.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição geológica privilegiada. O país detém reservas relevantes de vários desses minerais, distribuídas por diferentes regiões do território nacional. O desafio, como Mercadante fez questão de sublinhar, não é apenas o da extração. "O desafio é ampliar a integração entre a produção mineral e as atividades industriais associadas, especialmente em segmentos vinculados aos minerais estratégicos e críticos", afirmou o presidente do BNDES durante o evento.
A observação toca em um ponto sensível da história econômica brasileira, que é a tendência de exportar matéria-prima bruta ou com baixo grau de processamento, transferindo para outros países o valor agregado que poderia ser gerado internamente. Reverter essa lógica, ou seja, transformar jazida em cadeia produtiva, é o que Mercadante chama de "adensamento".
A estratégia do banco
Mercadante lembrou que o BNDES tem presença histórica no setor: "O BNDES está na mineração desde os anos 1970". Mas a abordagem atual, segundo ele, vai além do financiamento tradicional a grandes projetos de extração. A estratégia está orientada para toda a cadeia de valor. "A estratégia está voltada para o adensamento das cadeias produtivas e para o desenvolvimento de capacidades industriais associadas a esses recursos minerais", disse Mercadante.
Na prática, isso significa apoiar projetos que vão desde a fase de exploração e lavra até o processamento químico, a metalurgia e a fabricação de componentes e produtos finais que utilizam os minerais estratégicos como insumo. O objetivo é que o Brasil não apenas extraia esses recursos, mas também os transforme e, idealmente, os incorpore a bens industriais de maior complexidade tecnológica e maior valor de mercado.
"Há oportunidades para ampliar a participação nacional em diferentes etapas da cadeia produtiva, agregando valor aos recursos minerais disponíveis no país", ressaltou o presidente do BNDES, sintetizando a visão que orienta os instrumentos financeiros que o banco tem desenvolvido para o setor.
O fundo com a Vale: R$ 57 bilhões em demanda
O exemplo mais concreto apresentado por Mercadante no fórum é o fundo de investimento em participações (FIP) estruturado pelo BNDES em parceria com a Vale. Com R$ 2 bilhões sob gestão, o fundo foi criado para apoiar projetos de mineração e estimular o surgimento de novos empreendimentos no setor, com foco especial em minerais estratégicos e nas cadeias produtivas associadas.
Os números revelados durante o evento dão a dimensão do apetite do mercado pelo instrumento. A chamada pública lançada pelo fundo recebeu 56 propostas de projetos, que representam uma demanda potencial de aproximadamente R$ 57 bilhões em investimentos e crédito. A relação entre a capacidade do fundo (R$ 2 bilhões) e a demanda mapeada (R$ 57 bilhões) evidencia tanto o tamanho da oportunidade quanto a escassez de financiamento adequado para o setor. Este é um um gargalo que o instrumento pretende, ao menos parcialmente, endereçar.
Do total de propostas recebidas, 12 projetos encontram-se em estágio avançado de negociação, somando cerca de R$ 9 bilhões. Se confirmados, esses projetos representam um volume de capital comprometido quatro vezes e meia superior ao patrimônio inicial do fundo, indicando efeito multiplicador relevante sobre o conjunto do setor.
Minério de ferro, siderurgia e a economia do carbono
Além dos minerais críticos propriamente ditos, Mercadante também abordou no fórum o papel do minério de ferro de alto teor produzido no Brasil em um contexto de crescente pressão por descarbonização da siderurgia global. O argumento é que as características físico-químicas do minério brasileiro, com elevado teor de ferro e baixo índice de impurezas, o tornam um insumo especialmente adequado para os novos processos siderúrgicos que buscam reduzir a intensidade de emissões de carbono, como a redução direta utilizando hidrogênio.
Na avaliação apresentada durante o evento, a competitividade futura da siderurgia não será determinada apenas pelos volumes produzidos, mas também pela capacidade de atender a requisitos ambientais cada vez mais exigentes em mercados como a União Europeia, onde mecanismos de ajuste de carbono na fronteira começam a vigorar. Nesse cenário, o minério de alto teor brasileiro pode se tornar um ativo estratégico adicional não apenas pelo valor intrínseco do produto, mas pela vantagem competitiva que confere às rotas de produção de aço de menor emissão.
Sustentabilidade como condição, não como retórica
Ao longo de sua apresentação, Mercadante foi categórico ao vincular a expansão da mineração brasileira a compromissos de responsabilidade socioambiental. Para o presidente do BNDES, o aproveitamento do potencial mineral do país deve necessariamente considerar aspectos relacionados à sustentabilidade, à transparência e à geração de valor distribuído ao longo das cadeias produtivas, e não apenas à extração concentrada de riqueza.
A articulação entre expansão produtiva, inovação tecnológica, transparência e responsabilidade ambiental foi apresentada como condição estrutural para que o setor mineral brasileiro ganhe legitimidade e acesso sustentado aos mercados internacionais, cada vez mais atentos à origem e às externalidades dos produtos que consomem.
Um setor em busca de escala e coerência estratégica
O fórum "Destravando o Potencial da Mineração no Brasil" reuniu, em Brasília, representantes do setor público, do mercado financeiro e da indústria mineral, num momento em que o debate sobre o papel dos recursos naturais no desenvolvimento econômico nacional ganhou renovada urgência. A presença de Mercadante com dados concretos sobre instrumentos financeiros operacionais e não apenas com discurso sobre potencial, sinalizou uma mudança de tom: o BNDES não quer apenas falar sobre minerais críticos, quer financiá-los.
O desafio que permanece, como os próprios números apresentados revelam, é de escala e de coordenação. Uma demanda potencial de R$ 57 bilhões mapeada por um único instrumento de R$ 2 bilhões evidencia que a lacuna de financiamento para o setor é vasta. Preenchê-la exigirá não apenas mais capital público, mas a construção de um ecossistema de investimento – público e privado, nacional e internacional — capaz de converter a riqueza geológica do Brasil em capacidade industrial real, com valor agregado, com empregos qualificados e com credenciais ambientais à altura das exigências de um mundo em transição.
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