Acordo UE-Mercosul: Oportunidades para a mineração brasileira

Tratado histórico coloca minerais críticos no centro da estratégia de cooperação entre os blocos e abre oportunidades para o setor mineral brasileiro.
Os países-membros da União Europeia aprovaram nesta sexta-feira (9) o acordo comercial com o Mercosul, encerrando mais de 25 anos de negociações e abrindo caminho para a criação da maior zona de livre comércio do mundo. A votação ocorreu no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper) e foi aprovada por maioria qualificada, com o apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando mais de 65% da população do bloco.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajará ao Paraguai na próxima segunda-feira (12) para a assinatura simbólica do acordo. O tratado ainda precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor.
A aprovação ocorre em um contexto geopolítico decisivo: as tarifas impostas pelos Estados Unidos sob a administração Trump e a necessidade europeia de reduzir a dependência da China para minerais críticos aceleraram a conclusão do acordo. Para a Comissão Europeia, garantir o acesso a minerais estratégicos do Mercosul — como lítio, nióbio, grafite e terras raras — tornou-se uma questão de autonomia estratégica.
O acordo abrange 718 milhões de pessoas e um PIB combinado de aproximadamente US$ 22 trilhões, estabelecendo novas regras para o comércio de produtos minerais e abrindo caminho para investimentos europeus no setor de mineração e processamento de matérias-primas no Brasil.
Minerais Críticos: Prioridade Estratégica Europeia
A União Europeia identificou o acesso a minerais críticos do Mercosul como um dos pilares centrais do acordo. A negociadora-chefe da UE, Kristina Grutschreiber, declarou que a Europa "precisa desesperadamente" dessas matérias-primas para sua transição energética e autonomia estratégica, especialmente em um contexto de dependência excessiva da China.
Tabela 1 – Minerais Críticos Brasileiros de Interesse para a União Europeia
| Mineral | Aplicação Principal | Posição do Brasil |
|---|---|---|
| Lítio | Baterias para veículos elétricos e armazenamento de energia | 6ª maior reserva mundial; produção em expansão |
| Nióbio | Ligas de aço de alta resistência, supercondutores | Líder mundial (90% da produção global) |
| Grafite | Baterias, materiais refratários, eletrodos | Reservas significativas; potencial de expansão |
| Níquel | Baterias, aços inoxidáveis, ligas especiais | Produção crescente; novas jazidas em exploração |
| Terras Raras | Ímãs permanentes, eletrônicos, energia eólica | Grandes reservas; baixa produção atual |
| Cobre | Condutores elétricos, energia renovável | Produção moderada; potencial em Carajás |
| Manganês | Baterias, produção de aço | Entre os maiores produtores mundiais |
Flexibilidades Conquistadas pelo Brasil
Uma das principais conquistas da renegociação de 2023-2024 foi a preservação do direito brasileiro de implementar políticas de agregação de valor no setor mineral. Diferentemente do pré-acordo de 2019, que proibia qualquer imposto de exportação, o novo texto permite ao Brasil aplicar restrições para estimular o processamento local.
Tabela 2 – Comparativo: Acordo 2019 vs. Acordo 2024 para Minerais Críticos
| Aspecto | Pré-Acordo 2019 | Acordo 2024 |
|---|---|---|
| Imposto de Exportação | Proibido | Permitido (até 25% para UE) |
| Restrições à Exportação | Não previstas | Permitidas para estimular agregação de valor |
| Política Industrial | Limitada | Preservada |
| Tratamento Preferencial | Não aplicável | UE recebe alíquota menor que outros destinos |
Tarifas e Acesso ao Mercado Europeu
O acordo estabelece eliminação progressiva de tarifas para produtos minerais, com cronogramas diferenciados conforme o produto. Importante destacar que produtos básicos como minério de ferro, soja e café verde já gozavam de tarifa zero antes do acordo, limitando o impacto direto para essas commodities.
Tabela 3 – Situação Tarifária de Produtos Minerais no Acordo
| Produto | Tarifa Atual | Tarifa Pós-Acordo | Prazo de Transição |
|---|---|---|---|
| Minério de Ferro | 0% | 0% | Já isento |
| Ferro-ligas | 2,7% - 7% | 0% | Até 10 anos |
| Alumínio e produtos | 3% - 10% | 0% | Até 10 anos |
| Cobre e produtos | 0% - 4,8% | 0% | Até 10 anos |
| Produtos siderúrgicos | 0% - 10% | 0% | Até 10 anos* |
| Minerais críticos | Variável | 0%** | Imediato a 10 anos |
*Com regras de origem específicas para ferro e aço. **Garantia de isenção de impostos de exportação pela UE.
Vantagens para a Mineração Brasileira
Tabela 4 – Principais Vantagens do Acordo para o Setor Mineral
| Área | Benefício para o Brasil |
|---|---|
| Diversificação de Mercados | Reduz dependência de mercados asiáticos e oferece alternativa às tensões comerciais com EUA e China |
| Atração de Investimentos | Projeção de aumento de 1,49% no fluxo de investimentos estrangeiros; interesse europeu em projetos de mineração sustentável |
| Agregação de Valor | Flexibilidade para impor restrições e impostos de exportação estimula processamento local de minerais críticos |
| Transferência de Tecnologia | Parcerias em mineração sustentável, técnicas de processamento e tecnologias de transição energética |
| Aço Verde | Matriz elétrica 85% renovável posiciona Brasil como fornecedor de produtos siderúrgicos de baixo carbono |
| Acesso Preferencial | Eliminação de 100% das tarifas industriais da UE em até 10 anos; vantagem sobre concorrentes sem acordo |
| Cooperação Institucional | Diálogos bilaterais em mineração responsável, energia renovável e biodiversidade |
| Compras Governamentais | Empresas brasileiras poderão participar de licitações europeias em igualdade de condições |
Requisitos de Sustentabilidade e Desafios
O acordo incorpora elementos inovadores em sustentabilidade que impactam diretamente o setor mineral. O Critical Raw Materials Act (CRMA) europeu exigirá das empresas brasileiras exportadoras maior transparência na cadeia de suprimentos, novas certificações e práticas de mineração mais sustentáveis.
Tabela 5 – Novos Requisitos e Desafios para Exportadores de Minerais
| Requisito | Implicação | Ação Recomendada |
|---|---|---|
| Rastreabilidade da cadeia de suprimentos | Necessidade de documentar origem e processo de extração | Implementar sistemas de rastreio e certificação |
| Compromisso com desmatamento zero até 2030 | Vinculação ao Acordo de Paris como elemento essencial | Adequar operações em áreas sensíveis |
| Mineração responsável | Padrões ambientais e sociais europeus | Adotar certificações internacionais (ex: IRMA) |
| Regras de origem específicas para ferro e aço | Critérios diferenciados para produtos siderúrgicos | Garantir compliance com requisitos de origem |
| Due diligence ambiental | Conformidade com regulações do Green Deal europeu | Investir em processos de baixo carbono |
Perspectivas e Próximos Passos
Com a aprovação pelos Estados-membros nesta sexta-feira (9), o acordo avança para as próximas etapas. A assinatura formal está prevista para segunda-feira (12) no Paraguai, com a presença de Ursula von der Leyen. No entanto, o tratado ainda precisará passar pelo Parlamento Europeu, onde a votação pode ser acirrada devido à oposição francesa.
Tabela 6 – Cronograma Atualizado de Implementação
| Fase | Descrição | Status/Prazo |
|---|---|---|
| Conclusão das Negociações | Anúncio do texto final em Montevidéu | ✓ Dezembro 2024 |
| Aprovação das Salvaguardas | Parlamento Europeu aprova mecanismos de proteção agrícola | ✓ 16/12/2025 |
| Aprovação pelos Estados-membros | Votação por maioria qualificada no Coreper | ✓ 09/01/2026 |
| Assinatura Formal | Cerimônia no Paraguai com Ursula von der Leyen | 12/01/2026 |
| Ratificação Parlamento Europeu | Votação em plenário – pode ser acirrada | Próximos meses |
| Ratificação Mercosul | Aprovação pelos congressos nacionais | 2026 |
| Entrada em Vigor Provisória | Parte comercial pode entrar em vigor após ratificação bilateral | 2026 |
| Desgravação Tarifária | Eliminação progressiva de tarifas industriais | Até 10 anos após entrada em vigor |
Conclusão
A aprovação do Acordo UE-Mercosul pelos Estados-membros nesta sexta-feira marca um momento histórico para o comércio internacional e, especialmente, para o setor mineral brasileiro. Após 25 anos de negociações, o tratado finalmente avança para sua implementação, posicionando o Brasil como fornecedor estratégico de minerais críticos para a transição energética europeia.
As flexibilidades conquistadas na renegociação de 2023-2024, que permitem ao Brasil implementar políticas de agregação de valor e até mesmo impor restrições às exportações de minerais críticos, representam uma vitória importante para a política industrial brasileira. O país não será apenas um exportador de commodities brutas, mas poderá desenvolver sua cadeia de processamento mineral.
As salvaguardas adicionais aprovadas pela UE, embora tenham gerado desconforto no Mercosul, não afetam diretamente o setor mineral — concentram-se em produtos agrícolas sensíveis. Para a mineração, o acordo representa acesso garantido ao mercado europeu com isenção de impostos sobre exportação de minerais críticos.
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