Larry Fink – Delírios de Wall Street

20/03/2022
Coluna de Milton Rego

O filme Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991), conta a história de um jovem dramaturgo de New York contratado para escrever roteiros para um estúdio em Hollywood. Toda vez que ele tenta começar um texto, algo acontece que o impede de escrever. Além do sobrenome, Laurence D. Fink, diretor-geral da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, tem outra coisa em comum com o premiado longa dirigido pelos irmãos Coen: a recente carta que enviou aos investidores parece seguir o enredo um tanto surrealista do filme. 

Com foco em ESG (meio ambiente, compromisso social e governança), o comunicado anual do fundo de investimentos pontua que a mudança climática será “um fator determinante nas perspectivas das empresas no longo prazo”. E vaticina: “Estamos na iminência de uma reformulação fundamental das finanças”.

Fink ecoa no comunicado as discussões que tiveram palco na COP26, em Glasgow, Escócia, em novembro passado. No encontro, ficou clara a unânime – inclusive entre vários gestores de fundos –, preocupação com as emissões de gases do efeito estufa (GEE) e o compromisso de incrementar ações visando mitigar o aquecimento global.

O gestor da BlackRock afirmou que as empresas devem “divulgar um plano a respeito de como seus negócios serão compatíveis com uma economia em que as emissões de carbono serão zeradas”. Ou seja, conter o aquecimento global para, no máximo, 2ºC acima das médias pré-industriais e eliminar as emissões dos gases GEE até 2050.

A preocupação da BlackRock não é recente. Em 2018, a empresa já havia firmado compromisso em torno de uma agenda ESG. No entanto, de lá para cá pouco mudou no ambiente de negócios, em grande medida porque a visão expressa por Fink e por outros líderes corporativos não alcança as reformas mais radicais, necessárias para, de fato, conter o aquecimento global. Como Fink, o personagem do longa, o mundo corporativo mostra uma enorme vontade em fazer, mas não sai do lugar.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, em inglês), aponta que temos de limitar, nos próximos 12 anos, o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais – menos ainda que os 2°C propostos pela BlackRock. Do contrário, o desastre virá. 

Alcançar tal limite representa um esforço gigantesco, que ultrapassa em muito o papel das empresas. Como explicou a jovem ativista Greta Thunberg, devemos abordar a questão “como se nossa casa estivesse pegando fogo". É uma guinada significativa. Em resumo, se trata de mudar a maneira como produzimos, como consumimos, como usamos as riquezas naturais, mais ou menos como trocar todos os pneus do carro em movimento.

Conseguiremos fazer isso?

O capitalismo de stakeholders

Acho impossível conseguir uma mudança tão profunda sem envolver realmente todas as partes interessadas (o famoso capitalismo dos stakeholders). Décadas de neoliberalismo nos fizeram desconfiar dos Estados e da sociedade. Afinal, como pregavam Reagan e Thatcher, as empresas e as escolhas individuais são os únicos vetores possíveis da transformação.

Só que essa maneira de pensar não bastou na pandemia. Ninguém duvida que a inovação do setor privado foi fundamental. Ajudou a criar as vacinas, por exemplo, mas pouco adiantou no sentido de fazê-las chegar a quem precisava. Ainda hoje muitos países da África não têm 5% da população com cobertura vacinal.

Um esforço global precisa ser feito em relação ao aquecimento... global. As empresas precisam continuar competindo por mercado, ao mesmo tempo em que devem trabalhar de forma cooperada entre si e com os governos, Estados e o terceiro setor em relação ao clima. Não é simples. 

Nesse processo empresas vão desaparecer, novos nichos irão surgir, será preciso investir em inovação, acomodar e realocar os excluídos. E isso só será possível se público e privado falarem a mesma língua e atuarem de forma coordenada.

Em seu livro A Lógica da Ação Coletiva, o economista e sociólogo norte-americano Mancur Olson defende que as políticas mais difíceis de implementar são aquelas com benefícios difusos e custos concentrados. Olson explica que indivíduos arcando com os custos se oporão vigorosamente à uma determinada iniciativa, enquanto os beneficiários ficarão quietos e pegarão carona nas medidas, deixando o ônus para os políticos.

Essa é a situação da mudança climática. A redução nas emissões trará benefícios para o planeta. Mas segmentos específicos, que arcarão com uma parcela maior dos custos, se mobilizarão contra, pedindo mais tempo para adoção de medidas. É o caso, por exemplo, das empresas petrolíferas e de transporte, que devem ser duramente afetadas por restrições das emissões.

A contrapartida do aumento de custos é a necessidade de ter incentivos reais para mobilizar os investimentos necessários à adoção de uma nova forma de produzir. A entrada à União Europeia (EU) de países que faziam parte do bloco comunista é um bom exemplo desse processo. A oportunidade de fazer parte do mercado comum serviu de poderoso incentivo para abraçar novas políticas e legislações, atraindo para esses países uma soma considerável de investimentos diretos. 

Um setor que teria muito a contribuir nas ações de redução dos danos climáticos – até porque passou incólume pela pandemia – é o sistema financeiro global. É preciso, como diz Larry Fink, que o setor financeiro sirva também ao propósito público em vez de dizer amém somente ao lucro privado. Ou será isso ou os países terão de arrumar uma outra fonte de recursos.

Hoje, as discussões sobre mudanças climáticas são difusas. Os países apresentam as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), que nada mais são do que intenções, simplesmente. As empresas, por sua vez, começam investimentos objetivando alguma vantagem competitiva. Até agora, as iniciativas ficaram restritas ao custo da emissão do carbono. Da COP26 vieram muitas propostas, mas propostas voluntárias, incapazes de fazer sozinhas grandes diferenças.

A energia proveniente da queima do carvão – a fonte mais poluidora que existe –, continua aumentando. Aqui no Brasil acaba de ser sancionado um projeto de lei que garante a contratação até 2040 de energia gerada por termelétricas movidas a carvão mineral.

Acredito, como vários especialistas no assunto, que o setor público deve liderar o processo de contenção dos danos climáticos, trabalhando com metas específicas. E, como falamos acima, o esforço deve envolver todas as partes interessadas, como a iniciativa conjunta dos países da União Europeia, que resultou no Green Deal

Ser verde é cool. Vende bem, aumenta o goodwill. O problema é que o selo, na maioria das vezes, é só marketing, um greenwashing para o mercado ver. Por isso, é importante sair do nível de autocertificação e dar transparência para organismos externos que comprovem práticas sustentáveis e de redução das emissões.

Para governos e o sistema financeiro, o buraco é mais embaixo. Rotular carteira de investimentos ou empréstimos como “verdes” ou “ESG” não significa necessariamente uma mudança de paradigma. Muitas vezes, se trata meramente de uma nova composição acionária.

O truque mais recente é “tornar-se verde” comprando compensações contra as participações “marrons” de alguém, em vez de realmente desinvesti-las. Na prática, é mais uma tentativa de abordar a mudança climática sem realmente pagar a conta por ela. A própria BlackRock do senhor Fink é a quinta maior acionista na Fox News, emissora cujos comentaristas fazem campanha aberta contra as mudanças.

O final do filme dos irmãos Coen é meio surrealista. Termina com o Barton Fink sentado em uma praia da Califórnia sem ter conseguido escrever o seu roteiro.

Vivemos um ambiente muito parecido. O business as usual apenas nos levará a um caminho sem volta. Precisamos urgentemente mudar a maneira como pensamos a economia e a produção. Caso contrário, estaremos fadados a um roteiro sem final feliz.