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MINÉRIO DE FERRO

Frete recorde da rota Tubarão-Ásia comprime margem dos produtores brasileiros

Por Redação Brasil Mineral•
Frete recorde da rota Tubarão-Ásia comprime margem dos produtores brasileiros
Mina de Brucutu / Vale Foto: Ricardo Teles

Custo de frete da rota Tubarão–Ásia sobe 76% em doze meses e passa a absorver 37% do valor CFR do minério. Para as mineradoras de médio porte, o teste é de resistência na curva de custos.

Minério de ferro: frete recorde e preço em queda comprimem o netback brasileiro

1. O que está acontecendo

O mercado de minério de ferro entrou no segundo semestre de 2026 em uma configuração incomum: o preço do produto de alto teor recua, o frete marítimo bate recordes da série e os dois movimentos se somam contra o minerador brasileiro.

A referência de finos de 65% Fe CFR Qingdao (Carajás, sem IVA) foi cotada a 112,45 USD/dmt em 15/09, queda de 8,0% em doze meses e de 2,7% frente ao mês anterior, contra o pico de 127,80 USD/dmt registrado em 13/05.

No mercado de referência global de 61% Fe, o índice marítimo CFR Qingdao marcou 95,80 USD/dmt, com mínimo de 92,85 USD/dmt em 03/08 e máxima de 110,25 USD/dmt em 11/05.

Do lado do custo, o frete Tubarão–Beilun/Baoshan alcançou 41,79 USD/t em 15/09, após o recorde da série de 42,02 USD/t em 14/09 — alta de 76,4% em doze meses e de 16,2% no mês, contra o piso de 19,41 USD/t registrado em 16/01.

Em termos práticos, o frete passou de um quinto para mais de um terço do valor do minério na China e equivale hoje a 37,16% do preço CFR do minério de 65% Fe, contra uma média histórica muito inferior.

Gráfico 1

Quanto do preço do minério de 65% Fe na China fica com o frete (USD por tonelada)

Netback implícitoFrete Tubarão–Beilun/Baoshan02040608010012014098,5423,69122,2315/09/2025*frete = 19,4% do preço79,6135,96115,5715/08/2026*frete = 31,1% do preço70,6641,79112,4515/09/2026frete = 37,2% do preçoNetback implícitoFrete Tubarão–Beilun/Baoshan02040608010012014098,5423,69122,2315/09/2025*frete: 19,4%79,6135,96115,5715/08/2026*frete: 31,1%70,6641,79112,4515/09/2026frete: 37,2%
Netback implícito = preço CFR Qingdao 65% Fe menos frete Tubarão–Beilun/Baoshan. *Valores implícitos, calculados a partir das variações em 12 meses e no mês informadas no texto.

2. Preços de referência: teores altos resistem melhor, mas caem em dólar

ReferênciaValor mais recenteDataVariação em 12 meses
65% Fe finos CFR Qingdao (Carajás, sem IVA)112,45 USD/dmt15/09-8,0%
Brasil 65% CIF (semanal)110,90 USD/t14/09-9,6%
MMI 61% Fe marítimo CFR Qingdao95,80 USD/dmt15/09— (série iniciada em 03/2026)
MMI 61% Fe estoque portuário FOT Qingdao (base em yuan, com IVA de 13%)684 yuan/wmt15/09-13,0%

O spread entre o produto de 65% Fe e o de 61% Fe permanece como principal colchão de valor para o Brasil: o material de alto teor e baixas impurezas segue sendo demandado pela rota de redução direta, o que sustenta o prêmio de qualidade mesmo com o índice absoluto em queda.

O preço semanal Brasil 65% CIF marcou 110,90 USD/t em 14/09, o menor valor da série disponível e 13,1% abaixo do pico de 127,75 USD/t de 23/03.

Gráfico 2

Referências de preço: pico de 2026 e valor mais recente

Pico de 2026Valor mais recente02040608010012014065% Fe finos CFR QingdaoUSD/dmt127,80 (13/05)112,45 (15/09)Brasil 65% CIF (semanal)USD/t127,75 (23/03)110,90 (14/09)MMI 61% Fe marítimo CFRUSD/dmt110,25 (11/05)95,80 (15/09)Pico de 2026Valor mais recente0408012065% Fe finos CFR Qingdao (USD/dmt)127,80 (13/05)112,45 (15/09)Brasil 65% CIF (semanal) (USD/t)127,75 (23/03)110,90 (14/09)MMI 61% Fe marítimo CFR (USD/dmt)110,25 (11/05)95,80 (15/09)
Entre parênteses, a data de cada cotação.

3. Frete: o vetor que mudou de sinal

A rota Brasil–Ásia operou quase todo o primeiro trimestre entre 19 e 26 USD/t e rompeu a faixa de 30 USD/t em abril, sem retornar. Três evidências explicam a escalada recente:

O petróleo mais caro e a percepção de risco no transporte marítimo — com reforço de controle em torno do Estreito de Bab-el-Mandeb (o segundo estreito mais importante) e tensões no Oriente Médio — pressionaram as taxas e as expectativas de novos aumentos, ao mesmo tempo em que expectativas de aperto monetário nos EUA enfraqueceram o apetite por commodities.

O frete mais alto elevou diretamente o custo de desembarque e transformou a margem de importação chinesa em negativa, de -1,90 yuan/t em 11 de setembro para -9,15 yuan/t em 14 de setembro e -10,61 yuan/t em 15/09.

A volatilidade é estrutural, não pontual: a taxa da rota já oscilou mais de 115% entre o piso de 01/2026 e o topo de 09/2026, o que torna a previsibilidade de custo um problema de gestão para quem vende com preço fixado em CFR.

Gráfico 3

Frete Tubarão–Beilun/Baoshan (USD por tonelada)

0102030405030 USD/t: faixa rompida em abril23,6915/09/2025*há 12 meses19,4116/01/2026piso35,9615/08/2026*há 1 mês42,0214/09/2026recorde41,7915/09/2026atual01020304050faixa de 30 USD/t23,6915/09/25*há 12 meses19,4116/01/26piso35,9615/08/26*há 1 mês42,0214/09/26recorde41,7915/09/26atual
*Valores implícitos, calculados a partir das variações em 12 meses e no mês informadas no texto.

4. O efeito no netback e na mineração brasileira

O impacto é medido pela diferença entre o preço de referência entregue na Ásia e o custo de transporte:

DataPreço CFR 65% FeFrete Tubarão–Beilun/BaoshanNetback implícito
15/09112,45 USD/dmt41,79 USD/t70,66 USD/dmt

O resultado é o indicador mais duro desta janela de mercado: o netback implícito do minério brasileiro caiu para 70,66 USD/dmt em 15/09, contra 103,09 USD/dmt em 15/01 — recuo de 31,5% em oito meses, mesmo com o preço CFR recuando menos de 10% no mesmo intervalo.

Gráfico 4

Netback implícito do minério brasileiro (USD por tonelada seca)

010203040506070809010011015/01/2026103,0915/09/202670,66−31,5% em oito meses02040608010015/01/2026103,0915/09/202670,66−31,5%em oito meses
Cálculo indicativo, não substitui o preço FOB contratado de cada operação.

Três leituras para o setor mineral brasileiro:

Produtores integrados e de primeira linha absorvem o choque com diluição de custo fixo, escala logística própria e mix de alto teor. A produção da Vale atingiu 336 Mt em 2025, o maior patamar desde 2018, com 90,4 Mt no quarto trimestre, alta de 6% na comparação anual. O Minas-Rio opera com orientação de 23 a 25 Mt para 2026.

Mineradoras de médio porte são o elo mais exposto. A lógica de curva de custos é explícita nas projeções do setor: o custo marginal de suporte do minério de ferro é estimado em cerca de 90 USD/t e, se os preços internacionais romperem esse nível, minas pequenas e médias não convencionais, de custo mais elevado, tendem a reduzir produção e encerrar atividades — com o ajuste remodelando a estrutura de oferta global. Para quem embarca volumes menores, sem escala de afretamento, cada dólar de frete retira margem diretamente do resultado, e o custo logístico interno (rodovia, ferrovia de curta extensão, transbordo) se soma ao frete marítimo em alta.

Sinal de mercado sobre qualidade e desconto: o produto de teor médio está sendo pago com desconto relevante. No trimestre encerrado em junho, um projeto australiano de nova geração com teor médio de 58,2% Fe realizou 95 USD/t seca, equivalente a apenas 91% do índice Platts 61% CFR. Isso reforça o prêmio do minério brasileiro de alto teor e penaliza o material de teor mais baixo e maior impureza.

5. Oferta e demanda: oferta confortável, demanda sob pressão

IndicadorValorPeríodoVariação
Embarques globais (SMM)37,41 MtSemana até 15/09+9% na semana; estável no ano
Chegadas à China26,91 MtÚltima semanaEstável na semana; +4,2% no ano
Estoque em 35 grandes portos chineses143,49 Mt14/09-0,42 Mt na semana
Estoque em 10 portos monitorados (SMM)104,82 Mt03/09-20 mil t na semana
Importações chinesas108,539 MtAgosto+0,42% no mês; +3,32% no ano
Importações chinesas acumuladas845,271 MtJaneiro a agosto+5,5% no ano

Embarques globais: a SMM estimou os embarques globais de minério de ferro em 37,41 Mt na semana encerrada em 15/09, alta de 9% na comparação semanal e estáveis no acumulado anual; a Austrália e origens não convencionais avançaram, enquanto o Brasil recuou ligeiramente.

Chegadas à China: 26,91 Mt na última semana, estáveis na semana e 4,2% acima no acumulado do ano.

Estoques portuários: nos 35 grandes portos chineses, 143,49 Mt em 14/09, queda de 0,42 Mt na semana, com retirada diária de 3,235 Mt; nos 10 portos monitorados pela SMM, 104,82 Mt em 3 de setembro, queda de 20 mil t na semana. São coberturas distintas e não devem ser somadas ou tratadas como um único saldo físico.

Lado da demanda: coque caro e oferta restrita levaram usinas a fazer manutenções, enfraquecendo a demanda rígida; a maioria das usinas opera com prejuízo, embora apenas algumas tenham planos concretos de corte de produção.

Importações chinesas: 108,539 Mt em agosto (+0,42% no mês, +3,32% no ano), com 845,271 Mt no acumulado de janeiro a agosto (+5,5% no ano).

6. Perspectivas

O terceiro trimestre é o pico sazonal de embarques do Brasil e, com a redução das interrupções climáticas, as mineradoras devem concentrar a entrega de volumes pendentes até o fim do trimestre; setembro tende a registrar chegadas mais fortes, reforçadas pela recomposição de estoques antes do feriado prolongado chinês.

No curto prazo, porém, a leitura de mercado é de preços fracos, com demanda em contração e oferta estável, e margens de importação permanecendo próximas dos níveis atuais.

Estruturalmente, o ciclo de oferta excedente deve se aprofundar. A oferta africana sai de cerca de 95 Mt para aproximadamente 260 Mt até 2030, alta acumulada de 85%, com o excedente global de oferta podendo se alargar para perto de 220 Mt, e o ponto de inflexão mais crítico projetado para 2028–2029, quando a infraestrutura ferroviária e portuária da África Ocidental estiver comissionada.

Nesse cenário, o prêmio de alto teor e a qualidade para redução direta tornam-se o principal diferenciador de preço — e o índice de referência se afasta progressivamente do tradicional 62% Fe.

Cenário-base (condicional): consolidação lateral dos preços em dólar, com o frete mantendo a pressão sobre o netback brasileiro e a margem das usinas chinesas ditando o ritmo de compras. Os preços somente encontrariam sustentação se houver corte efetivo de produção siderúrgica do lado da demanda, ou recuo do frete e do coque do lado do custo. O risco principal é a combinação de oferta incremental africana com demanda siderúrgica chinesa estruturalmente mais fraca.

7. Riscos

Frete estruturalmente elevado — a rota Brasil–Ásia mais do que dobrou em oito meses; qualquer nova escalada de risco geopolítico no transporte marítimo é transmitida diretamente ao netback do exportador brasileiro.

Margem de importação negativa persistente na China — de 4,02 yuan/t positiva em 11/09 para -10,61 yuan/t em 15/09, o que reduz o apetite do comprador.

Custo de coque e perdas siderúrgicas — manutenções de alto-forno e possível corte de produção comprimem a demanda rígida.

Ruptura do suporte de 90 USD/t — gatilho para redução e fechamento de minas pequenas e médias de custo mais alto.

Desconto de qualidade — produtos de teor médio sendo realizados a cerca de 91% do índice de referência penalizam operações sem blend de alto teor.

8. Oportunidades

Prêmio de alto teor e rota de descarbonização — a demanda por minério com Fe igual ou superior a 65% e baixas impurezas para redução direta cresce estruturalmente, e a África deve adicionar cerca de 20 Mt de capacidade de DRI até 2030.

Vantagem de carbono do Brasil nos mercados com precificação de CO₂ — o material brasileiro segue favorecido na União Europeia por sua vantagem competitiva de custo de carbono, com placas brasileiras ofertadas a 575–595 USD/t FOB em julho.

Janela sazonal do terceiro trimestre — pico de embarques brasileiro coincide com a recomposição de estoques pré-feriado na China.

Gestão logística como vantagem competitiva — o caso de um produtor de médio porte que construiu cadeia própria (mina, transporte dedicado, transbordo offshore) mostra que produtores não integrados podem capturar frete e reduzir exposição à volatilidade, operando com custo FOB abaixo da faixa de orientação.

9. Indicadores a monitorar

IndicadorÚltimo valorReferência
65% Fe CFR Qingdao112,45 USD/dmt (15/09)Rigidez da referência de alto teor
MMI 61% marítimo CFR Qingdao95,80 USD/dmt (15/09)Direção do índice absoluto
Frete Tubarão–Beilun/Baoshan41,79 USD/t (15/09)Principal risco de netback
Margem de importação chinesa-10,61 yuan/t (15/09)Apetite do comprador
Estoque em 35 portos chineses143,49 Mt (14/09)Folga de oferta
Embarques globais semanais37,41 Mt (semana até 15/09)Ritmo de oferta, com Brasil e Austrália em direções opostas

10. Notas metodológicas

Os preços de referência em dólar são cotados CFR (Cost and Freight) ou CIF, sem IVA, e o índice portuário em yuan inclui IVA de 13% sobre base FOT (Free on Truck) — bases que não são diretamente comparáveis entre si e foram mantidas em suas unidades originais. O frete refere-se à rota Tubarão–Beilun/Baoshan, em USD por tonelada. O netback apresentado é um cálculo indicativo derivado dessas duas séries, na interseção das datas disponíveis, e não substitui o preço FOB contratado de cada operação. O índice de 62% Fe de referência foi descontinuado e o mercado passou a adotar o índice marítimo de 61% Fe como referência de estoque portuário.

Por Márcio Goto
Email: [email protected]

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