Como a Sigma está fazendo a diferença no Jequitinhonha

11/04/2022
Entrevista com Ana Gardner, co-CEO da Sigma Lithium.

Por Francisco Alves 

Antes mesmo de colocar seu empreendimento em produção a Sigma Lithium está fazendo a diferença em uma das regiões menos desenvolvidas do Estado de Minas Gerais: o vale do Jequitinhonha, mais especificamente os municípios de Araçuaí e Itinga. Ali a empresa está investindo cerca de R$ 1,2 bilhão para implantação de um complexo que vai produzir, na Fase 1, 220 mil toneladas/ano de concentrado de lítio de alta pureza, que vão gerar 33 mil toneladas de LCE (lítio grau bateria). Na Fase 2, cujo estudo de viabilidade está em conclusão, a capacidade de produção vai a 440 mil toneladas/ano de concentrado (66 mil toneladas de LCE). As obras de implantação da Fase 1 estão a pleno vapor e o planejamento da empresa prevê o ramp up a partir de dezembro de 2022, atingindo operação comercial no primeiro trimestre do próximo ano. 

Além do investimento, a empresa está fazendo uma grande diferença com os programas sociais e no aspecto ambiental do empreendimento, com a adoção do empilhamento a seco dos rejeitos, ao invés de utilizar barragens. Pelo lado social, destacam-se os programas que visam reduzir a desigualdade, através do aumento da renda, já que 72% do pessoal engajado no empreendimento é da região, e proporcionar ajuda às populações mais vulneráveis. 

Nesta entrevista exclusiva a Brasil Mineral, Ana Cabral-Gardner, co-CEO da Sigma Lithium, explica por que a empresa está engajada nesses programas e defende que práticas de ESG, de grande importância sobretudo em uma região carente, custam pouco, embora exijam muito mais trabalho por parte de todos os envolvidos no empreendimento. Confira. 

BRASIL MINERAL - Que programas sociais a Sigma Lithium desenvolve na área do projeto e por que decidiu implementá-los antes mesmo de estar operando?

ANA GARDNER – Nós temos os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da ONU) governando a estratégia de desenvolvimento social. Para nós, a sustentabilidade social tem dois pilares: diminuir desigualdade (que é o ODS 10) e buscar parceria com comunidades e instituições locais (que é o ODS 17). Quando se começa a atacar desigualdade, procuramos mostrar que em um mundo dividido, polarizado, há um denominador comum, que é reduzir a desigualdade no País, que tem um coeficiente Gini (*) muito desigual. Não é desejável que, no processo de desenvolver o País, se amplie essa desigualdade. E como se diminui desigualdade? Com desenvolvimento social, com sustentabilidade social. E aqui surgem duas vertentes: é preciso entregar o sonho grande, que é entregar a vara de pescar e levantar os vulneráveis, para que eles possam pegar o peixe. É o capitalismo social. Por que dar a vara de pescar e o peixe? Porque vivemos em uma pandemia. Então era nossa obrigação essencial, como stakeholder, endereçar os dois lados. Por isso os programas são alinhados. 

Para reduzir desigualdade, pensamos: temos uma obra. A Empresa está implementando um programa de investimento de R$ 1,2 bilhão, que está sendo desembolsado até setembro de 2022. Já foram desembolsados cerca de R$ 800 milhões. Então começamos com os gatilhos do emprego. Hoje tem 300 pessoas trabalhando no site, a grande maioria da região. A primeira reação das empresas de engenharia, quando exigimos contratação de mão de obra local, foi que não havia gente capacitada disponível. Nós insistimos que eles deveriam encontrar. Dá mais trabalho, porém não custa mais caro. E este é um dos aspectos do ESG: não custa mais caro, embora dê mais trabalho. Nós sabíamos que a cidade tem um Instituto Federal, uma Universidade Federal, que formam pessoas, que não ficam no local por falta de oportunidade. Nós buscamos atrair essas pessoas de volta. Foi feita uma campanha de rádio e recebemos uma avalanche de currículos. Veio gente do Brasil inteiro. Para ter 72% dos 300 empregados hoje de pessoas da região, fizemos um trabalho de repatriação e por isso chamamos o programa de “Volta ao Lar”. O outro lado era o clássico: há uma figura muito conhecida em Minas Gerais, que é “As viúvas do Jequitinhonha”. São viúvas de marido vivo. O marido saía para buscar oportunidades, ia trabalhar em outros lugares e não mais voltava. Então a mulher passava a ser viúva de marido vivo. Nós aprendemos sobre essa situação quando começamos a discussão da fome na região durante a pandemia. Vimos como era grave o rasgo no tecido social. Então essa é nossa pequena contribuição para remendar esse tecido. É uma maneira de trazer renda permanente, de reconstruir o tecido social – porque famílias se reconstroem – e isso traz estabilidade social para uma região. Diminuem preocupações com problemas como prostituição, criança que não vai pra escola, trabalho infantil. Fecha-se o cerco, porque se reconstrói o tecido social. 15 pessoas dos 72% vieram do nosso programa de cesta básica. É uma pobreza parada no tempo. Porque se voltássemos para 1922, era a mesma cena: o indivíduo com carro de boi, puxado a vaca, indo buscar água. Nós estamos em 2022, no século XXI. Isto não pode acontecer. E no segundo estado mais rico da federação. É uma vergonha para mim, como brasileira, falar disso mundo afora. Mas estamos fazendo a nossa parte: este ano vamos ter 500 pessoas lá. E como agora mostramos que o programa deu certo, meus contratados não têm mais desculpa e vão achar gente nascida e criada na região. 

Qual é o impacto de renda disso? Hoje já tem 3.500 empregos indiretos na cidade, em setores de bens e serviços para alimentar essa máquina Sigma. Quando chegar em 500 empregados, esse número sobe para 6.500. Se formos fazer a Fase 2 do empreendimento, o número de empregados vai a 700. É realmente uma locomotiva de desenvolvimento. 

Também renovamos o programa Fome Zero, porque queremos, agora que acabou a pandemia, ajudar as pessoas a se levantarem, principalmente as mulheres. Vai dar 2.400 refeições. Então a Sigma, uma empresa mineradora que não opera, ainda dá esse colchão pra pessoa se reerguer. E temos também o programa de creches. Nós ajudamos a abrir duas creches nos bairros mais carentes de Araçuaí e outra em Itinga, para crianças de zero a 3 anos. Por que as creches? Porque a mulher, que volta a ter oportunidade de trabalho, tem filho com idade de zero a 3 anos e não teria onde deixá-los. As creches operam com bens e produtos que fornecemos e a prefeitura se encarrega do serviço. 

Qual é o efeito renda que proporcionamos? Operando com 500 pessoas e mais 6.500 empregos indiretos, geramos um impacto de 113% no PIB de Itinga e de 43% no PIB de Araçuaí. É algo significativo. É trazer essas cidades para o Século XXI. 

Agora estamos criando dois novos programas. Primeiramente, o que chamamos Conselho de Sustentabilidade, envolvendo vários stakeholders. O conselho fez várias propostas e uma delas são as barraginhas, para resolver a questão da seca durante o período de estiagem. Estamos fazendo um convênio com o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), que aporta a tecnologia. Nós entramos com os recursos financeiros e o pessoal da região implementa juntamente com o MAPA. Temos um outro convênio em parceria com o Mulheres do Brasil com o programa “Dona de Mim”, que oferece microcrédito para as mulheres. São dois mil reais por pessoa. 

BRASIL MINERAL  – O que esses programas representam em termos de custos para a empresa?

ANA GARDNER – Nem vou dizer, porque não faz a menor diferença. Eu tive essa discussão com os fundos de investimento europeus. Em 2019, quando começamos a falar em fazer empilhamento a seco total, para empilhar os ultrafinos, significava 15% do Capex. Mas é o tipo de gasto que se paga em tudo. Porque a grande diferença que temos é a licença social. E minha palestra em Glasgow (na conferência do Clima) foi essa: o que o pessoal precisa entender é que a licença social é uma coisa obrigatória. Nós estamos nos antecipando às necessidades da comunidade, porque temos o pé lá. Estamos muito imiscuídos na comunidade, então conseguimos nos antecipar. O custo é ínfimo comparado ao retorno social que isso traz para nós. 

BRASIL MINERAL – A pandemia chegou a atrapalhar muito o cronograma do projeto?

ANA GARDNER – Tivemos que fazer um ajuste no início, em 2020. Quando tínhamos o plano de engenharia de detalhe em execução, o mesmo era muito diferente do que foi executado. Nós íamos utilizar uma construtora espanhola que trabalha no Brasil. Mas em setembro de 2020, quando fizemos o aumento de capital para a engenharia de detalhe, ficou claro para nós que o mundo estava se preparando para uma segunda onda da pandemia e aquilo acendeu o alarme e trocamos a construtora espanhola pela Promon, uma empresa brasileira, com equipe de brasileiros; trocamos a empresa de hidrogeologia pela GE21; mudamos a de geotécnica pela SRK, que tem um time grande. Então tropicalizamos tudo e no final tínhamos apenas cinco estrangeiros. E começamos atrasados, em fevereiro de 2021, com a engenharia de pré-obra, o FEL 3. Agora estamos correndo para tirar o atraso. Ao mesmo tempo, decidimos dobrar de capacidade e anunciamos a Fase 2. Portanto, 2021 foi um ano muito intenso. 

BRASIL MINERAL – Vocês conseguiram manter o Capex?

ANA GARDNER – Sim. Do FEL 1 para o FEL 2 o Capex subiu os 15% normais. Quais são os três grandes itens de alteração no Capex? Primeiro, nós decidimos comprar a planta de britagem, porque à medida em que a Sigma era um projeto de 9 anos, na Fase 1, com a Fase 2 se transformou em um projeto para mais de 20 anos. Então não podíamos ter uma planta que depois ia ser desmontada para devolver ao gestor. Assim, ao invés de fazer o leasing do sistema de britagem, decidimos comprar. Do mesmo fornecedor (Metso Outotec). E pudemos customizar o britador, escolhendo um equipamento de mandíbula de 1.200mm. Ele tem uma boca maior, então permite que se economize no desmonte da rocha e se emita menos carbono. A mesma coisa na subestação elétrica. Antes íamos alugar e depois decidimos ser donos. O terceiro ponto foi o circuito ambiental, onde tivemos uma surpresa desagradável. Nós aprendemos, testando, porque somos a única empresa no mundo de minerais de bateria que faz empilhamento de 100% de todo o rejeito a seco, incluindo os ultrafinos, que é o mais difícil de fazer. Testamos o equipamento e nos testes aprendemos tudo. Inclusive que o equipamento funciona melhor em larga escala. Então compramos o equipamento na escala para atender duas plantas. O que é ótimo e reforça como o setor tem que evoluir no quesito ambiental. Nós tivemos que aprender, porque não tinha ninguém fazendo. Testamos seis meses como seriam os filtros e espessadores. Outra coisa que aprendemos do ponto de vista ambiental foi que a água do Jequitinhonha é um esgoto a céu aberto. Com essa água, não conseguimos testar os equipamentos de separação por microdensidade. A base físico-química do processo é que o lítio é o terceiro material mais leve da tabela periódica, depois do hélio e do hidrogênio. Como ele tem uma densidade menor, sobe no meio denso. O que mais é tão leve assim? Os resíduos sólidos fecais. E eles vêm na água, porque é esgoto in natura. Assim, tivemos que instalar uma estação de tratamento de esgotos para tratar a água do Jequitinhonha e torná-la utilizável industrialmente. Com isso, o custo do equipamento ambiental saiu de US$ 7 milhões para US$ 14 milhões. 

BRASIL MINERAL – O setor de equipamentos estava muito aquecido em 2021. Isso chegou a atrasar alguma entrega?

ANA GARDNER – Só vamos saber lá na frente. Ter um supply chain apertado era nossa grande preocupação. Nós fizemos em dezembro uma rodada de aumento de capital para ter dinheiro em caixa. Então não estamos esperando banco de fomento. O dinheiro está em caixa. E isto nos dá poder de negociação. Assim, o que fizemos? Antecipamos itens de longa duração, com tempo de entrega superior a 150 dias. Elencamos 38 itens como críticos e negociamos com fornecedores, antecipando pagamento de 75%. E agora estamos fazendo o mesmo para os itens de médio prazo, ou seja, menos de 120 dias. Finalizamos recentemente as obras de fundações da planta, no cronograma e dentro do orçamento. Agora estamos nas obras civis. Em agosto/setembro devemos iniciar a montagem eletromecânica. O início do ramp up está previsto para dezembro. 

BRASIL MINERAL – Vocês chegaram a pensar em possível utilização para os rejeitos?

ANA GARDNER – Sim. Esta é a grande vantagem de se fazer uma plana greeentech com sustentabilidade ambiental. O rejeito não tem químicos, é empilhado a seco e está prontinho para ser reciclado, dentro do que chamamos de upcicling. Não é recicling, onde garrafa de plástico vira garrafa de plástico. O upcicling é rejeito que vira um negócio com muito mais valor agregado. Esse rejeito tem quartzo branco, muito rico, e feldspato. Então é perfeito para cerâmica branca premium, porcelanato. Temos diálogo com três grandes players do Brasil em porcelanato branco para instalar uma planta de beneficiamento na cidade utilizando nosso rejeito. E estamos dispostos a usar o rejeito como atração, ou seja, fazer algo economicamente benéfico para o cliente em troca de ele colocar a planta na cidade. Esta é a vantagem de se trabalhar com algo que tem muita tecnologia e muito valor agregado: tem margem para poder usar o rejeito como vetor de desenvolvimento econômico. É a economia circular do século XXI pensando na sustentabilidade social. 

BRASIL MINERAL – Vocês já têm acordo de mercado para a segunda etapa?

ANA GARDNER – Temos clientes gigantes, a LG e a Mitsui. A LG separou a unidade de baterias do restante do conglomerado e foi o IPO de maior sucesso este ano no mundo: 90 bilhões de dólares. A LG Energy é a empresa que domina a tecnologia de baterias como ninguém, porque ela faz para todas as pontas. Vende para a Tesla e Volkswagen, para Ferrari e Fiat. Ela tem uma gama de clientes que tornam a Sigma muito resiliente para inovação tecnológica, porque tem um cliente que atende à indústria inteira. Nos Estados Unidos eles têm duas joint-ventures: uma com a Fiat Chrysler e outra com a GM. E a Mitsui, tem o restante do mercado e com eles temos um contrato que varia: há um volume fixo e a comissão se negocia no mercado aberto. Isto torna a Sigma muito resiliente a ciclos. Porque atravessamos um ciclo de baixa do lítio nos últimos três anos e quatro empresas quebraram. 

A viabilidade da Fase 2 está quase pronta e devemos tomar a decisão no segundo semestre. E o bom é que o estado de Minas Gerais e o Brasil acordaram para a importância do lítio, embora estejamos muito longe da Argentina, por exemplo, que recebeu, nos últimos três anos, US$ 14,5 bilhões em investimentos. Lítio não é raro. Só que eles foram muito inteligentes em política de atração de investimentos. E não estamos falando de subsídio, mas de desburocratizar, desregulamentar. Criou-se um ambiente propício e o resultado é que todos investem na Argentina, que se mostrou a jurisdição melhor, em toda a América Latina, para o lítio.  

* Criado pelo matemático italiano Conrado Gini, o coeficiente Gini é um instrumento que mede a concentração de renda em determinado grupo, apontando a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Numericamente, varia de zero a 1.