ALUMÍNIO

A guerra no Oriente Médio e o reposicionamento do Brasil na cadeia global

A guerra no Oriente Médio e o reposicionamento do Brasil na cadeia global

A instabilidade logística no Oriente Médio abre oportunidade para o Brasil reposicionar-se na cadeia global como produtor de alumínio com baixo carbono, em vez de apenas fornecedor de matéria-prima.

A instabilidade no Oriente Médio, com impactos diretos sobre rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, reacendeu o alerta sobre a fragilidade de cadeias globais de suprimentos. No caso do alumínio, isso é ainda mais evidente. Ao contrário de outras commodities, o metal produzido nessa região depende integralmente de rotas marítimas para escoamento e qualquer disrupção logística rapidamente se traduz em volatilidade de preços, incerteza e rearranjos no comércio internacional.

O Golfo Pérsico é um dos maiores exportadores de alumínio do mundo. Produtores da região, como os Emirados Árabes, Bahrein, Arábia Saudita e Qatar, juntos produzem cerca de 6 milhões de toneladas de alumínio primário por ano, cerca de 8% da produção mundial. Empresas da região já anunciaram a redução da produção de alumínio primário como resposta direta à instabilidade logística e à incerteza sobre o fluxo de matérias-primas. O mercado reagiu rapidamente e compradores ao redor do mundo começaram a garantir volumes com antecedência, especialmente a Europa, que importa mais de14% de produtos de alumínio por ano do Oriente Médio.

Em meio a este contexto, surge a pergunta: o Brasil teria condições de aumentar a produção de alumínio e aproveitar esses novos movimentos globais? Sim, o Brasil tem condições estruturais para isso e poucos países no mundo podem dizer o mesmo. O país reúne uma série de ativos estratégicos que não só asseguram atendimento à demanda doméstica, mas também o reposicionamento do país na cadeia global de suprimentos.

O Brasil é o 4º maior produtor mundial de bauxita e o 3º maior de alumina. Temos uma cadeia verticalizada, da mina ao produto acabado, que é um diferencial competitivo raro no cenário global. E temos uma matriz energética predominantemente renovável, o que nos coloca em posição privilegiada em um mundo que exige cada vez mais alumínio de baixa pegada de carbono. A intensidade carbônica do alumínio brasileiro é significativamente menor que a média mundial e os índices de uso de alumínio reciclado (60%) no Brasil estão entre os maiores do mundo.

É verdade que a instabilidade no Oriente Médio coloca o Brasil no radar de mercados que historicamente dependiam do alumínio da região. Há um movimento concreto dos Estados Unidos sinalizando interesse em parcerias no âmbito dos minerais estratégicos, e supostamente o alumínio poderia fazer parte dessa agenda, assim como já integra as listas de materiais críticos da União Europeia, do Canadá, do Reino Unido e da Austrália. Mas a sinalização, por ora, aponta mais para produtos na base da cadeia do que para alumínio primário ou produtos com maior valor agregado.

E aqui está um ponto essencial: o Brasil não pode se contentar em ser fornecedor apenas de matéria-prima, justamente em um momento em que o mundo mais precisa de produto elaborado. A diferença de valor agregado ao longo da cadeia é enorme, e com ela, empregos de maior qualidade, renda e desenvolvimento tecnológico.

Ao mesmo tempo, há um desafio que não pode ser ignorado. É preciso garantir a segurança de suprimento para o nosso próprio mercado. O Brasil consome 1,88 milhão de toneladas de produtos transformados de alumínio por ano – e nossa produção primária atual, de 1,1 milhão de toneladas, ainda não é suficiente para atender sozinha essa demanda doméstica. A autossuficiência só se mantém quando somamos a produção secundária, oriunda da nossa cadeia de reciclagem, uma das mais expressivas do mundo.

Portanto, em um contexto de grande volatilidade no mercado internacional, que tende a acirrar a disputa global pelo metal, nossa maior preocupação no momento não é aumentar exportações. É garantir a segurança no suprimento de metal para o nosso próprio mercado doméstico e fortalecer as vantagens competitivas que nos permitem manter essa autossuficiência.

É importante lembrar que o Brasil está em um momento de recuperação e reversão de uma trajetória de desindustrialização, que ainda precisa se consolidar. A reativação de parte da capacidade reduzida no passado pode elevar em cerca de 20% a produção primária de alumínio e atingir 1,3 milhão de toneladas ao ano.

Mas para que possamos ir além disso, e de fato expandir a capacidade de forma mais significativa, são necessários novos investimentos, seja na ampliação das plantas existentes, seja construção de novas unidades. E é aqui que está o nó: esses projetos têm um horizonte de maturação longo e podem demorar vários anos para serem concretizados. Investimentos desse porte dependem de custo competitivo de energia, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e ambiente de negócios estável. São decisões estratégicas de longo prazo que as empresas tomam com base em perspectivas que vão muito além de um único conflito geopolítico.

O país está bem-posicionado para atrair esses investimentos e a janela de oportunidade existe, que é o aumento da demanda global por alumínio. Ela vai acontecer em algum lugar. A questão é: o Brasil vai criar as condições para que seja aqui? (Por: Janaína Dohas – Presidente da Abal (Associação Brasileira do Alumínio)

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