Por uma (boa) política industrial

03/06/2022
Coluna de Milton Rego

O Brasil precisa repensar o papel da sua indústria e propor alternativas para mitigar a perda de competitividade do setor. Para enfrentar esse desafio gigantesco e urgente, insisto na necessidade de uma coordenação governamental em relação à melhoria da nossa capacidade industrial.

Antes de mais nada, um disclaimer: considero legitima a crítica dos neoliberais sobre “gastar mal” ou sobre “a criação de campeões nacionais”. O Brasil colheu um resultado pífio quando tentou fazer política industrial. Mas imaginar que “o mercado” irá resolver tudo e nos levar ao paraíso é o mesmo que acreditar em Papai Noel. Não me recordo de um único exemplo de nação que tenha dado o salto da renda média abrindo mão de uma estratégia industrial robusta. 

O que os países que deixaram de ser pobres fizeram? A história ensina: política industrial. 

O debate não deveria ser se devemos ter política industrial, mas como ter uma boa política industrial. “Os países bem-sucedidos são aqueles que conseguiram encontrar soluções ‘boas o suficiente’ para seus problemas e passaram a implementar políticas em vez de ficar sentados lamentando a natureza imperfeita de seu sistema político”, ensina o professor Ha Jon Chang, economista sul-coreano especializado em desenvolvimento.

O combate à Covid-19 foi um exemplo eloquente. Não seria possível enfrentar um desafio dessa magnitude sem uma coordenação pública sobre os esforços econômicos privados. A política industrial opera a partir dessa mesma lógica. 

O papel do Estado é transversal. “O Estado deve estar concentrado na indução da cooperação, na coordenação de atores e na redução de incerteza. Sua tarefa não é a de escolher vencedores, mas a de criar condições para que os vencedores apareçam”, resume com precisão o professor Luiz Gonzaga Belluzzo.

Que tal olharmos os exemplos da Coréia, do Japão, de alguns tigres da Ásia Oriental e ver o que podemos emular? Nesses países, o Estado ajudou a desenvolver segmentos considerados estratégicos, ofereceu financiamento e investiu em P&D. 

Ficamos maravilhados com a capacidade da Pfizer elaborar uma vacina por meio de RNA mensageiro. Mas a base para o desenvolvimento da técnica veio de um estudo do DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), agência do governo norte-americano, cujas pesquisas também estão na origem da Internet, da tela sensível ao toque, do GPS e de boa parte das funcionalidades do seu smartphone. Pesquisa de alto risco, sem garantia de retorno, quem faz é o governo. 

A abertura econômica certamente contribuirá para a competitividade da nossa indústria, desde que seja feita de forma estratégica, levando em conta o fortalecimento das cadeias produtivas internas. Com mais abertura e com mais investimento externo temos de estar preparados para absorver o conhecimento que virá junto, a fim de usá-lo como alavanca para acelerar a complexidade da nossa indústria.

Como prega o pesquisador chileno Cesar Hidalgo, o desenvolvimento econômico pode ser entendido como um Lego. Aquele que possui muitas peças é capaz de montar brinquedos mais complexos. 

Fecho com exemplos da Europa. Mais ou menos na mesma época em que aqui “política industrial” virava palavrão, lá se transformava em política de Estado. Os dois maiores países do bloco, Alemanha e França, que juntos somam um PIB cinco vezes maior do que o brasileiro e dão as cartas da política comercial que rege União Europeia, pontuavam: “Se a Europa ainda quer ser uma potência industrial em 2030, precisamos de uma verdadeira política industrial europeia. Investimentos são necessários para permitir à Europa competir no cenário global e para o desenvolvimento de estratégias industriais de longo prazo (…) só podemos ter sucesso se reunirmos nosso financiamento, nossas habilidades e nossa experiência.” E, mais à frente: “A escolha é simples quando se trata de política industrial: unir nossas forças ou permitir que nossa base e capacidade industrial desapareçam gradualmente. Uma indústria forte está no centro do crescimento sustentável e inclusivo. E, acima de tudo, é o que dará à Europa sua soberania econômica e independência.”

Cartas à redação.