Embaixador Rodrigo de Azeredo Santos assume o IBRAM com perfil econômico e viés global

Diplomata de carreira com formação econômica deixa embaixada na Noruega para assumir a presidência da entidade representativa do setor em dezembro, sinalizando aposta em perfil internacionalista para atrair investimentos em recursos minerais estratégicos.
Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração nomeia diplomata de carreira para suceder Raul Jungmann na presidência da entidade; posse está prevista para a primeira quinzena de dezembro.
O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) tem um novo presidente. O Conselho Diretor da entidade decidiu, na sexta-feira, 25 de setembro, nomear o embaixador Rodrigo de Azeredo Santos para o cargo de Diretor-Presidente, encerrando um processo seletivo que se estendeu por quase um ano e que foi conduzido com suporte de empresa especializada em headhunting. Azeredo Santos, de 60 anos, diplomata de carreira e atual embaixador do Brasil na Noruega, deixará o posto em Oslo após concluir os trâmites administrativos junto ao Ministério das Relações Exteriores e assumirá o comando do IBRAM na primeira quinzena de dezembro. A escolha sinaliza uma aposta clara da mineração brasileira em um perfil internacionalista, com sólida formação econômica e longa experiência na atração de investimentos e promoção comercial — exatamente o conjunto de competências que o setor demanda num momento de disputas globais por recursos minerais estratégicos.
O vazio deixado por Jungmann
A nomeação encerra um longo período de incerteza institucional. O ex-ministro Raul Jungmann, que ocupava a presidência do IBRAM, faleceu em janeiro deste ano, deixando vacante o principal cargo executivo da principal entidade representativa da mineração brasileira. Diante da lacuna, o Conselho Diretor nomeou interinamente o diretor de Relações Institucionais e Assuntos Associativos, Pablo Cesário, para acumular a presidência enquanto se conduzia a busca pelo sucessor definitivo.
O processo seletivo teve início em fevereiro e foi deliberadamente cuidadoso. O colegiado ouviu múltiplos candidatos, avaliou trajetórias e confrontou perfis com as demandas concretas do setor, tudo isso com o apoio técnico externo de uma empresa de headhunting, prática que sinaliza a maturidade institucional com que o Conselho quis tratar a sucessão. Ao final, o consenso recaiu sobre o nome de Azeredo Santos.
A presidente do Conselho Diretor, Ana Sanches, fez questão de reconhecer publicamente a atuação de Cesário no período de transição. "Os conselheiros do IBRAM reconhecem e agradecem o trabalho e o esforço de Pablo Cesário neste período de interinidade, conduzindo com excelência pautas relevantes para o setor, e entendemos que a vinda do Rodrigo de Azeredo Santos irá somar ainda mais na forte atuação do IBRAM frente aos desafios e oportunidades da mineração", afirmou Sanches. Cesário permanecerá em seu cargo original de Diretor de Relações Institucionais e Assuntos Associativos e continuará respondendo pela presidência até a chegada do novo titular em dezembro.
Um diplomata para a mineração
A escolha de um embaixador de carreira para liderar o IBRAM pode surpreender à primeira vista, mas faz sentido quando se examina em detalhe a trajetória de Rodrigo de Azeredo Santos. Carioca, formado em Economia pela PUC-Rio em 1986, com passagem pelo Institut Catholique de Paris em 1987 e mestrado em Diplomacia e Relações Internacionais pela Schiller International University, em Londres, em 1990, Santos ingressou no Itamaraty em 1992. Em 2018, alcançou o posto de ministro de primeira classe, o nível mais alto da carreira diplomática brasileira.
Ao longo de mais de três décadas no serviço exterior, Santos construiu um currículo com forte viés econômico e comercial. Serviu nas embaixadas brasileiras em Moscou, onde chefiou os setores Econômico-Comercial e de Ciência e Tecnologia; em Washington, à frente do Setor de Política Financeira; e em Buenos Aires, como chefe do Setor de Infraestrutura e de Integração Produtiva. No Brasil, chefiou a Divisão de Programas de Promoção Comercial e, entre 2013 e 2016, dirigiu o Departamento de Promoção Comercial e Investimentos do Itamaraty, posição de enorme relevância para quem pretende atuar na interface entre mineração, investidores internacionais e mercados globais.
Em 2017, ele assumiu sua primeira embaixada, em Teerã, chefiando a representação brasileira no Irã até 2020. Na sequência, foi embaixador na Dinamarca, com representação cumulativa junto à Lituânia, de 2020 a 2024. Em 2024, teve o nome aprovado pelo Senado para assumir a Embaixada na Noruega, com representação cumulativa junto à Islândia, posto que ocupa até o momento.
A experiência nórdica como ativo estratégico
Não é casual que os anos mais recentes da carreira de Azeredo Santos tenham sido passados nos países nórdicos. Sua passagem por Copenhague e Oslo o colocou no epicentro de debates sobre transição energética, energias renováveis, inovação e cooperação empresarial, temas que hoje atravessam diretamente a agenda da mineração, sobretudo em razão da demanda crescente por minerais críticos e estratégicos que alimentam as cadeias de baterias, veículos elétricos e infraestrutura de energia limpa.
Em 2021, quando ainda estava em Copenhague, Santos participou da cerimônia de assinatura de memorando de entendimento entre Brasil e Dinamarca sobre energias renováveis e transição energética. Ao apresentar seu plano de trabalho para a Embaixada em Oslo, estabeleceu entre as prioridades a atração de investimentos, a promoção do ambiente de negócios brasileiro, o estímulo ao comércio e o aprofundamento da cooperação em ciência, tecnologia e inovação, destacando o volume expressivo de investimentos noruegueses no Brasil, especialmente nos setores de energia, petróleo e gás e energias renováveis, além da presença de grandes empresas norueguesas no país.
Esse repertório é de enorme valor para o IBRAM. A entidade representa um setor que precisa, ao mesmo tempo, atrair capital estrangeiro, responder às exigências ESG dos mercados internacionais, dialogar com governos sobre royalties e políticas públicas e posicionar o Brasil como fornecedor confiável de minerais estratégicos para as cadeias globais de suprimentos. Um diplomata com trânsito entre investidores europeus, conhecimento dos mecanismos de promoção comercial e sensibilidade para os temas de transição energética chega ao IBRAM com credenciais que dificilmente seriam encontradas em um perfil exclusivamente setorial.
Apartidário e técnico, diz o Conselho
O Conselho Diretor foi enfático ao caracterizar o processo como apartidário e técnico. A decisão, segundo o colegiado, baseou-se na trajetória profissional de Azeredo Santos e na convergência de suas posições com as demandas da indústria da mineração e com os objetivos do Instituto. A menção explícita ao caráter apartidário não é irrelevante: em tempos de polarização política intensa, a escolha de um diplomata de carreira (servidor de Estado por definição, e não agente de governos específicos) transmite uma mensagem de estabilidade e de comprometimento com a continuidade institucional, independentemente das variações do ciclo político.
O Conselho também ressaltou que uma parcela expressiva da experiência de Azeredo Santos está ligada à economia, comércio exterior, investimentos, infraestrutura, ciência, tecnologia e relações com o setor empresarial — exatamente as áreas em que o IBRAM precisa operar com mais vigor nos próximos anos.
Um acadêmico no comando
Além da carreira diplomática, Azeredo Santos tem passagens pelo mundo acadêmico que reforçam sua capacidade analítica. Foi docente de Economia Internacional no Instituto Rio Branco (a academia diplomática brasileira) e palestrante na American University, em Washington. Em 2008, ele apresentou no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco a tese "A criação do Fundo de Garantia do Mercosul. Vantagens e Proposta", aprovada com louvor e publicada em 2011 pela Fundação Alexandre de Gusmão. No campo das condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco e distinções das ordens do Mérito Aeronáutico, do Mérito do Exército e do Mérito da Marinha.
O que esperar da nova gestão
A chegada de Rodrigo de Azeredo Santos ao IBRAM ocorre num momento em que a mineração brasileira enfrenta uma confluência de desafios e oportunidades raramente vista. Do lado das oportunidades, o Brasil detém reservas de minerais críticos que o colocam numa posição privilegiada na corrida global pela descarbonização — lítio, níquel, cobalto, terras raras e grafite estão entre os ativos que o mundo desenvolvido busca com urgência. Do lado dos desafios, o setor precisa avançar no licenciamento ambiental, aprimorar a governança, responder às demandas das comunidades e dos povos indígenas, demonstrar comprometimento com práticas ESG e construir narrativas positivas perante a opinião pública.
Nesse contexto, um presidente com fluência em negociações internacionais, familiaridade com mercados europeus e nórdicos, que são grandes demandantes e financiadores de projetos de mineração sustentável, e capacidade de dialogar em múltiplos idiomas e culturas pode ser um ativo considerável para a entidade. O desafio será traduzir essa expertise para a linguagem do setor produtivo brasileiro, com suas especificidades regulatórias, tributárias e políticas.







