As dificuldades das junior companies para atrair investidores

05/03/2026
Apesar das barreiras os investidores seguem focados no Brasil pela qualidade geológica e oportunidades de alto retorno ao longo da vida dos projetos.

 

As principais barreiras ao capital para mineração no Brasil não são técnicas/geológicas, mas estruturais, devido a fatores como imprevisibilidade de prazos ou marcos, mercado de ações pouco profundo e juros altos e renda fixa atraentes, drenando recursos de projetos de longo prazo. Foi o que afirmaram os participantes do painel sobre mercado de capitais para junior companies no Brasil, realizado durante o Brazilian Mining Day, no âmbito da convenção PDAC 2026. O painel foi moderado por Ana Paula Repezza (diretora de Negócios da ApexBrasil) e contou com a participação de Luciano Coutinho (consultor independente e ex-presidente do BNDES), Bruno Scarpelli (diretor Executivo da Centaurus Metals), Mark Travers (CEO da Brazilian Nickel) e Henrique Tavares (gerente de Mineração, Aço e Bens de Capital do Invest Minas). Para eles, apesar das barreiras os investidores seguem focados no Brasil pela qualidade geológica e oportunidades de alto retorno ao longo da vida dos projetos.

Sobre a percepção de risco-país, eles argumentam que há casos práticos indicando boa posição do Brasil, citando como exemplo a abertura de um escritório da agência americana DFC no País. Não temor de nacionalizações e os riscos, comparado com outras jurisdições sul-americanas, são muito menores.

A “corrida” aos minerais críticos ainda está em consolidação e há casos em que o acesso a capitais tem sido dificultado pela crença em oferta suficiente, como é o caso do níquel da Indonésia. Os governos e bancos de desenvolvimento começam a mitigar os riscos, com instrumentos de garantias e com investimentos, atraindo capital privado.

Os painelistas destacam o papel do financiamento proporcionado pelo BNDES e congêneres. Há oferta de financiamento para dívidas de longo prazo, mas falta capital próprio para as fases iniciais dos empreendimentos. O fundo para minerais críticos, com R$ 400 milhões e o fundo para transformação/inovação ainda são insuficientes, diante da escala do potencial brasileiro.

O estado de Minas Gerais tem desenvolvido ações para atrair investimentos, reduzindo a burocracia e oferecendo incentivos fiscais, como o financiamento de máquinas e insumo. Além disso, o estado, que tem 100% de energia renovável, está reforçando a agenda a agenda de “materiais verdes”.

Sobre o papel proativo do capital privado, além do cheque há possibilidades de parceria em geologia, engenharia, ESG e relações com stakeholders, sendo mencionado como exemplo o fundo pré-operacional gerido pela Warrant, com meta de R$1,5 bilhão para destravar valor e levar projetos à produção.

As principais preocupações dos investidores estrangeiros são a licença social, que até supera a licença ambiental, gestão por transparência, diálogo contínuo e engajamento comunitário adaptado ao contexto local. Um outro ponto destacado é o ESG como condição de acesso a capital e mercados, a comprovação de baixa intensidade de carbono, aderência a padrões internacionais, consultoria ambiental independente e acreditações para vender a cadeias de baterias. Por outro lado, os credores soberanos e de exportação também se tornam mais e mais exigentes.

Quanto à política industrial e coordenação, eles apontam a necessidade de desenvolver o midstream doméstico para reduzir riscos, agregar valor e ancorar offtake. Sugerem urgência em melhorar/coordernar licenciamento, ampliar e especializar instrumentos financeiros e fundos (incluindo os de pensão) e fortalecer parcerias estado–investidores–juniors companies. Um exemplo mencionado foi o do lítio, que roadshows e conexões já resultaram em investimento de US$40 milhões. (Francisco Alves/Mara Fornari)