Chinesa Boton instala base de serviços no Pecém e amplia aposta no pós-venda de correias para mineração

Subsidiária Boton Brasil Conveyor Services Pecém, em São Gonçalo do Amarante, oferece instalação e emenda de correias, resposta a emergências e monitoramento inteligente.
A Wuxi Boton Technology, uma das maiores fabricantes chinesas de correias transportadoras para mineração, colocou em operação em 14 de outubro a Boton Brasil Conveyor Services Pecém Ltda., em São Gonçalo do Amarante, no Ceará, ao lado do Porto do Pecém. Apesar de ser a primeira subsidiária formal do grupo no país, a unidade não é uma fábrica. A Boton produz apenas na China e na Tailândia, e a operação cearense, como indica a própria razão social, é uma base de serviços para clientes de mineração, siderurgia, cimento e terminais portuários na América do Sul.
Na prática, a estrutura deve concentrar equipes de campo para instalação, emenda, inspeção, manutenção e troca de correias, além do suporte aos sistemas de monitoramento que a empresa passou a vender junto com o produto. A Boton não divulgou o valor investido, o número de funcionários nem se haverá estoque local de correias importadas pelo porto.
O modelo Simandou
A fórmula adotada no Ceará já foi testada pela empresa na África. Em março de 2024, a Boton começou a fornecer correias para o projeto de minério de ferro Simandou, na Guiné, e para atendê-lo criou a Boton Conveyor Services Guinea e um centro técnico com suporte 24 horas por dia. Em setembro deste ano, a relação evoluiu para um contrato de longo prazo com a SimFer, joint venture liderada pela Rio Tinto, pelo qual a chinesa passa a responder pela manutenção e pelo suporte operacional dos transportadores da mina.
Na mesma cerimônia, a empresa lançou globalmente o SERV, sigla em inglês para segurança, eficiência, confiabilidade e criação de valor, que empacota os serviços de ciclo de vida como uma linha de negócio própria. A companhia trata esse braço de serviços como sua segunda frente de crescimento, e a base do Pecém se encaixa nessa estratégia.
Clientes de peso
Fundada em 2000 por Bao Zhifang, que segue como presidente do conselho, a Boton tem sede em Wuxi, na província de Jiangsu, ações listadas na Bolsa de Shenzhen e um perfil peculiar: além das correias, opera jogos para celular no exterior. No primeiro semestre de 2026, a receita somou 1,97 bilhão de yuans, cerca de R$ 1,44 bilhão, alta de 22,3% sobre igual período do ano anterior, e o lucro líquido atribuído aos acionistas chegou a 192 milhões de yuans, aproximadamente R$ 140 milhões, avanço de 37,4%. A área de transporte industrial respondeu por 56% do faturamento, cerca de R$ 810 milhões, e a empresa relatou recorde mensal de receita de produtos no mercado internacional. Em 2025, a receita total foi de 3,46 bilhões de yuans, perto de R$ 2,5 bilhões.
A carteira explica a expansão. A Boton é fornecedora de longo prazo da BHP em minas de minério de ferro, carvão, cobre e níquel na Austrália e no Chile, e em junho as duas assinaram um acordo-quadro global para desenvolver em conjunto tecnologias de automação de transportadores, com base em experiências na mina de cobre de Escondida, incluindo detecção de rasgo longitudinal, escaneamento por raios X, alinhamento automático da correia com inteligência artificial e inspeção robotizada. O acordo prevê também bases de serviço próximas das operações da mineradora para reduzir o tempo de resposta.
Com a Rio Tinto, a chinesa renovou em 2024 um contrato de oito anos e, até o fim de 2022, já havia fornecido cerca de 500 quilômetros de correias para projetos da mineradora. A empresa afirma ainda atender as sete minas de cobre da Codelco no Chile e recebeu da estatal chilena, em 2024, prêmio de fornecedor destaque em correias transportadoras.
Para dar conta da demanda externa, a Boton anunciou em 2023 uma fábrica digitalizada na Tailândia, com investimento previsto de 630 milhões de yuans, o equivalente a cerca de R$ 460 milhões. É dessa unidade e das plantas chinesas que deve sair o produto para o mercado sul-americano.
Por que o Pecém
A escolha tem lógica logística e comercial. O Complexo Industrial e Portuário do Pecém abriga a ArcelorMittal Pecém, antiga Companhia Siderúrgica do Pecém, com capacidade para 3 milhões de toneladas de placas por ano e ligada ao porto, a cerca de 10 quilômetros, por correias transportadoras de minério de ferro, carvão e fundentes. O sistema de transporte de granéis do terminal, que inclui a correia de minério e o descarregador de navios inaugurados em 2016, consumiu R$ 212 milhões em investimentos do governo estadual. A posição do porto também facilita o recebimento de correias e componentes vindos da Ásia e o atendimento a clientes no Norte e no Nordeste, mais distantes do eixo de fornecedores concentrado no Sudeste.
Com a subsidiária brasileira, a Boton passa a ter estrutura própria de serviço em todas as grandes regiões mineradoras em que atua, que incluem Austrália, África Ocidental, Ásia Central e América do Sul. A empresa afirma que a unidade será a ponte entre sua base tecnológica e os clientes e parceiros no continente.
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