
China e EUA intensificam disputa por ativos de níquel fora da Indonésia devido à crescente demanda global.
A crescente importância do níquel para a indústria mundial de aço inoxidável, baterias e superligas está intensificando uma corrida geopolítica entre China e Estados Unidos por ativos de alta qualidade fora da Indonésia. De acordo com análise da consultoria especializada Project Blue, a rápida expansão da produção indonésia nos últimos anos transformou profundamente o mercado global do metal, criando ao mesmo tempo oportunidades e riscos para os dois países. Em 2025, a Indonésia respondeu por mais de 65% da oferta mundial de níquel extraído, enquanto empresas chinesas passaram a controlar grande parte da capacidade de processamento instalada no país.
Embora essa posição dominante tenha garantido à China acesso privilegiado a matéria-prima estratégica, a forte concentração dos investimentos em uma única jurisdição passou a ser vista como um fator de risco. Mudanças frequentes nas políticas industriais indonésias, incertezas regulatórias e possíveis alterações em royalties e tributos levaram grupos chineses a buscar novas oportunidades em outras regiões. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam desafios diferentes: dependem integralmente da importação de níquel refinado e buscam fontes de suprimento compatíveis com suas políticas de segurança econômica e de incentivo à manufatura doméstica.
Um dos principais exemplos dessa disputa é o projeto Kabanga, na Tanzânia, considerado um dos maiores depósitos de sulfeto de níquel de alta qualidade ainda em desenvolvimento no mundo. Em meados de 2026, a chinesa Lygend Resources negociava a aquisição de uma participação no empreendimento, controlado pela Lifezone Metals. Entretanto, a operação perdeu força quando a empresa optou por avançar nas negociações com o Orion Critical Mineral Consortium (CMC), grupo apoiado por investidores americanos e ocidentais. Segundo reportagens citadas pela Project Blue, o consórcio discute um aporte entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões em troca de uma participação relevante no projeto, enquanto a Lifezone manteria o controle da operação.
A competição por ativos de níquel não se limita à Tanzânia. A Lygend também disputa a participação de 49% da Glencore na operação de Koniambo, na Nova Caledônia. Já no Brasil, a MMG, controlada pela estatal chinesa Minmetals, aguarda a aprovação regulatória para concluir a aquisição dos ativos de níquel da Anglo American por US$ 500 milhões. Do lado americano, investidores disputam o controle da canadense Sherritt International, proprietária de importantes ativos de níquel e cobalto em Cuba e no Canadá.
Para a China, a necessidade de diversificação tornou-se mais evidente após uma série de medidas adotadas pela Indonésia. Em 2025, o governo reduziu a validade das cotas de produção de minério de níquel e promoveu cortes significativos nos volumes autorizados para 2026. Além disso, o setor acompanhou discussões sobre possíveis aumentos de royalties e a criação de novos mecanismos tributários. Embora parte dessas medidas não tenha sido implementada, a incerteza regulatória elevou a percepção de risco entre investidores e produtores.
Outro episódio que reforçou as preocupações ocorreu em julho de 2026, quando novas exigências para inspeções de exportação provocaram atrasos em embarques de alumina e produtos de níquel, incluindo ferro-níquel e precipitado de hidróxido misto (MHP). O governo conseguiu normalizar gradualmente as exportações, mas o caso expôs dificuldades de coordenação regulatória e operacional. Segundo a Project Blue, esses fatores tendem a estimular ainda mais a busca de empresas chinesas por fontes alternativas de suprimento em outras partes do mundo.
Os Estados Unidos, por sua vez, enfrentam um cenário de vulnerabilidade crescente. Além da ausência de capacidade nacional de fundição, o país depende de fornecedores externos que podem ser afetados por disputas comerciais. O Canadá, responsável por aproximadamente metade das importações americanas de níquel, tornou-se alvo de tarifas impostas por Washington, elevando as tensões entre os dois países. Paralelamente, ativos considerados estratégicos, como a operação Moa, em Cuba, enfrentaram interrupções de produção e problemas de abastecimento em 2026.
A preocupação americana aumenta diante da perspectiva de redução da produção doméstica. A mina Eagle, atualmente a única produtora primária de níquel dos Estados Unidos, tem vida útil prevista apenas até 2030. Os projetos que poderiam substituir essa produção ainda estão em estágios iniciais de licenciamento e desenvolvimento, com previsão de entrada em operação apenas na próxima década. Nesse contexto, projetos avançados como Kabanga ganham relevância estratégica para garantir o abastecimento futuro do país.
Na avaliação da Project Blue, a combinação de nacionalismo dos recursos minerais, rivalidade geopolítica e tensões comerciais está transformando o níquel em um dos metais mais estratégicos da atualidade. China e Estados Unidos têm motivações distintas, mas convergem em um mesmo objetivo: assegurar acesso a reservas de alta qualidade fora da Indonésia. Como grandes projetos de níquel prontos para desenvolvimento são raros, a tendência é que a disputa por participações acionárias, financiamento e controle desses ativos se intensifique nos próximos anos.
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