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MINERAIS CRÍTICOS

Appian Capital aposta no Brasil com níquel, grafite e mina subterrânea inédita

Por Redação Brasil Mineral
Appian Capital aposta no Brasil com níquel, grafite e mina subterrânea inédita

Fundo britânico de private equity anuncia EBITDA recorde projetado de até US$ 150 milhões para 2026, avança com projeto subterrâneo pioneiro em Santa Rita e lança braço de grafite para atender demanda de baterias de carros elétricos

A Appian Capital Advisory, gestora britânica de private equity especializada em mineração, tem planos ambiciosos para o Brasil. Em apresentação a jornalistas, executivos do fundo e de suas empresas de portfólio detalharam números expressivos de desempenho, o avanço do projeto de mineração subterrânea da Mina de Santa Rita, na Bahia, e a estrutura da Graphcoa, nova empresa voltada à produção de grafite para baterias de veículos elétricos. O conjunto dos projetos posiciona a Appian como um dos atores mais ativos na chamada mineração de transição energética no país.

Resultados financeiros: caminho para o recorde

O ponto de partida da apresentação foi o desempenho financeiro. Milson Mundin, executivo responsável pela gestão das empresas do portfólio da Appian no Brasil, abriu os números sem modéstia, mas com ressalvas sobre os fatores que os explicam.

"No primeiro semestre, tivemos um crescimento significativo das receitas relativamente ao primeiro semestre de 2025. Obviamente quando falamos de receita, há um fator externo, porque foram os preços que aumentaram, portanto o mérito não é exclusivamente nosso. Um dos méritos para nós são os controles de custo. Então,  batemos R$ 700 milhões no primeiro semestre e a expectativa é que seja um pouquinho mais que o dobro disso durante o ano, os 12 meses. E tivemos um EBITDA de R$ 350 milhões, então próximo de 50%, que para as minas eu acho que é um resultado muito, muito digno de nota", afirmou Mundin.

Para o ano cheio de 2026, a projeção é ainda mais ambiciosa. "Projetamos para este ano de 2026 um EBITDA recorde mais uma vez, da ordem de 140, 150 milhões de dólares, sobre um faturamento que deve ser próximo de 300", disse o executivo, referindo-se a valores em dólar para o ciclo completo do ano.

A margem EBITDA próxima de 50% sobre a receita semestral reflete tanto a valorização das commodities quanto a disciplina de custos que a gestora reivindica como diferencial operacional. O contexto é o de uma operação de níquel que já responde por quase 3 mil empregos diretos no sul da Bahia.

Santa Rita: quase 3 mil empregos e nova vida útil de até 30 anos

A Mina de Santa Rita, localizada nos municípios de Ipiaú e Itajibá, no sul da Bahia, é o ativo central do portfólio da Appian no Brasil. Gilcimar Oliveira, diretor de ESG e Pessoas da Appian Capital Brasil, apresentou os números sociais da operação e o impacto regional que ela representa.

"Este mês nós estamos chegando a um número bastante expressivo. Nós estamos fechando o mês de julho com 2.938 pessoas trabalhando na Mina de Santa Rita. São quase 3 mil pessoas", disse Oliveira. Para ele, o dado ganha ainda mais relevância quando se analisa a origem dessa mão de obra: "Hoje 77% da nossa mão de obra são pessoas da Bahia. 65% dessas pessoas são pessoas que vivem em um raio de até 65 km da mina. Mas o mais impressionante é: 50% da nossa mão de obra são pessoas de Ipiaú ou de Itajibá, que são os municípios de inserção das nossas operações ali."

O executivo destaca que essa característica não é apenas um dado social, mas uma estratégia deliberada. "Temos uma manutenção das tradições, da dinâmica social e econômica que se tem na região, movido pelas pessoas que são dali e não um influxo, um aporte de pessoas de outras regiões", explicou.

A mina opera há oito anos e está prestes a entrar em um novo capítulo. O chamado Projeto Underground promete estender a vida útil da operação em pelo menos 20 anos, e possivelmente 30 anos ou mais, a depender de um programa de sondagem em andamento. Na fase de construção, o pico de contratações deve chegar a 1.500 pessoas adicionais. "Se hoje estamos falando em 2.900, já contando com 350 pessoas no serviço da mina subterrânea, esperamos um número final de operação na ordem de 3.500 a 4.000 pessoas mobilizadas no site", projetou Malveira.

O projeto subterrâneo e a técnica inédita no Brasil

Do ponto de vista técnico, o Projeto Underground representa uma novidade para a mineração brasileira. A Appian optou pelo método Sub-Level Caving — técnica de lavra subterrânea por colapso controlado que, segundo Mundin, nunca havia sido aplicada no Brasil até então.

Para implementá-la, a empresa contratou especialistas internacionais. Francisco Carrasco, engenheiro de mineração vindo do Chile, explicou o método ao grupo: "Sub Level Caving é uma metodologia de extração subterrânea que basicamente requer dois grandes sistemas. O primeiro, que você precisa de túneis para aceder aos seus stops. E o segundo que a gente precisa é de detonação massiva de minério, de uma forma controlada”. 

Carrasco detalhou a geometria da jazida que justifica a escolha do método: "Em nossa jazida basicamente temos uns 900 metros de profundidade, um corpo mineral que tem entre 40 a 80 metros de espessura." A metodologia permite alta seletividade na extração, adaptando-se à geometria do depósito e viabilizando economicamente uma jazida que, em outras configurações técnicas, poderia não ser atrativa. "Os métodos de caving, por serem massivos, são os mais baratos disponíveis no mercado, e isso permite basicamente viabilizar uma mina que em outras latitudes poderia não ser atrativa", disse o especialista.

O projeto prevê a instalação de britagem no subsolo e correias transportadoras. "A gente basicamente só vai usar caminhões para atividades muito específicas. Basicamente todo o minério sai por britagem e correia", explicou Carrasco.

Mundin revelou que a abertura do túnel de acesso já está em andamento — iniciada antes mesmo da decisão formal de investimento, em uma estratégia de antecipação de risco que a gestora chama de early works. "A abertura do túnel do underground já começou. A gente já tá com mais de 400 metros de túnel aberto", afirmou. Ao final do ano, a projeção é atingir 1.200 metros. No plano de longo prazo, ao longo de toda a vida da mina, serão 200 quilômetros de desenvolvimento subterrâneo.

O investimento total programado para o projeto está estimado em R$ 3,3 bilhões, ou cerca de US$ 600 milhões. Até o final do ano, Mundin estima que já terão sido desembolsados entre US$ 30 milhões e US$ 40 milhões nos trabalhos iniciais. A decisão final de investimento (FID, na sigla em inglês) está prevista para o último trimestre do ano, quando o Estudo de Viabilidade Definitivo (DFS) estiver concluído.

Compromisso com pegada de carbono e o argumento do níquel premium

Gilcimar Oliveira também destacou a posição da operação de níquel na curva de emissões de carbono como um ativo comercial relevante. "Hoje nós já estamos posicionados no primeiro decil da curva de emissões", afirmou. O argumento é que a baixa pegada de carbono não se traduz necessariamente em um prêmio de preço imediato, mas amplia o espaço de mercado junto a compradores com compromissos de descarbonização. Muitas empresas hoje estão comprometidas com metas de carbono zero, metas de descarbonização. Então quando eles entram no Responsible Sourcing e compram de alguém que é capaz de demonstrar que o produto é produzido com uma baixa pegada de carbono, ele ganha em mais espaço de mercado", explicou. O Sub-Level Caving contribui para esse posicionamento ao reduzir a relação minério-estéril em comparação com a lavra a céu aberto, diminuindo o consumo energético por tonelada produzida.

Graphcoa: grafite brasileiro para baterias ocidentais

Se Santa Rita representa a base consolidada do portfólio, a Graphcoa é a aposta de futuro. Ricardo Alves, diretor executivo da empresa, apresentou o projeto com uma provocação inicial: "Costumo dizer que, antes da Graphcoa, os meus problemas com grafite eu resolvi com borracha." A brincadeira introduziu um argumento sério sobre a centralidade do mineral para a eletrificação dos transportes.

"Quando avaliamos uma bateria típica de íons de lítio, o principal mineral que está ali é o grafite. Então, sempre que vocês virem na rua um carro elétrico, uma bateria de cerca de 130 a 150 kg em média, desses 150 kg temos cerca de 50 kg de grafite, ou seja, um terço em massa é grafite", explicou Alves.

O executivo traçou um panorama sobre a concentração do mercado global: a China produz cerca de 80% do grafite concentrado e 98% do grafite anódico — aquele processado para uso em baterias. Nesse contexto, a Appian identificou uma oportunidade: posicionar-se como fornecedor confiável para o Ocidente, que busca reduzir sua dependência de insumos chineses para a cadeia de baterias.

"A estratégia da Appian é se posicionar tendo as minas aqui no Brasil, concentrar 95% aqui no Brasil", disse Alves. A lógica comercial é direta: "Não faz sentido o Brasil produzir grafite e mandar para a China, pois eles já produzem grafite, são o principal produtor. Então os Estados Unidos é uma opção para o grafite, porque é onde haverá demanda."

A estrutura operacional da Graphcoa se divide em duas unidades. A Graphcoa propriamente dita é responsável pela extração e concentração do grafite no Brasil — partindo de um teor de 3 a 4% na mina e chegando a um concentrado com 95% de pureza. A Allied Graphite, também da Appian, recebe o material nos Estados Unidos e desenvolve o processo de purificação até os 99,995% necessários para uso em baterias, em uma rota que não dependa de tecnologia ou reagentes chineses.

De Itajimirim a Jordânia: o mapa do grafite

A jornada técnica da Graphcoa começou em Itajimirim, na Bahia, onde a empresa construiu uma planta de demonstração com investimento de R$ 50 milhões. A instalação não é um simples piloto de laboratório, pois opera 24 horas, reproduz mais de sete processos de concentração em série e já processou mais de 30 mil toneladas de minério, produzindo cerca de 500 toneladas de concentrado. Oito exportações para os Estados Unidos e o Canadá já foram realizadas.

"A Mina Boa Sorte nos permitiu sair de um grupo de pessoas que almejavam um projeto e passamos a ser uma empresa de grafite, com um portfólio, com produtos, com controle de qualidade, com laboratório", descreveu Alves. O objetivo da planta de demonstração foi romper o que ele chama de "referência circular": sem produto para mostrar, não há cliente; sem cliente não há financiamento; sem financiamento, não há produto”.

O projeto central da Graphcoa, porém, é o Grafite Jordânia, no município de Jordânia, também no Vale do Jequitinhonha. Os números são de outra escala: reservas para mais de 50 anos de operação, teor médio na Área C de 5,5% — contra 3,27% da Área A —, e capacidade projetada de 55 mil toneladas por ano de grafite concentrado. "A gente quase que dobra a capacidade instalada do Brasil", disse Alves, lembrando que o país já produz entre 65 mil e 70 mil toneladas anuais.

O investimento total previsto para o projeto Jordânia é de aproximadamente R$ 700 milhões. A empresa espera obter a licença ambiental até o fim de 2025 e iniciar a construção em 2026, com o primeiro grafite saindo aproximadamente um ano e meio depois. "A gente espera ter a licença no final desse ano e iniciar a construção no ano que vem", afirmou Alves.

Do ponto de vista competitivo, o projeto se posiciona no primeiro quartil de custo operacional e entre os 10% mais eficientes do mundo em intensidade de capital — dólar por tonelada de capacidade instalada —, incluindo projetos chineses na comparação.

A decisão de não operar com barragem de rejeitos, adotada desde a planta de Itajimirim, também será replicada em Jordânia: o processo de filtragem permite o empilhamento a seco dos resíduos.

Terras-raras: no radar, mas não na fila da frente

Uma pergunta dos jornalistas sobre terras-raras abriu espaço para Mundin situar as prioridades da Appian no Brasil. O executivo confirmou que o tema está no horizonte da gestora, mas em posição secundária em relação às apostas atuais. "Não, está no radar, sim, mas digamos numa segunda escala de prioridade em relação aos minerais de transição e aos metais básicos", disse.

O que se delineia na estratégia da Appian no Brasil, portanto, é uma tese de investimento construída sobre três pilares interdependentes: ativos de níquel com longa vida útil e pegada de carbono competitiva; grafite para a cadeia ocidental de baterias, aproveitando a posição geopolítica neutra do Brasil; e desenvolvimento de capacidade técnica local para sustentar operações de vanguarda.

A combinação de Santa Rita com o Projeto Underground e da Graphcoa com a Allied Graphite nos EUA traça um arco que vai da mina à bateria — passando pelo Brasil como elo essencial. O timing, como Mundin fez questão de lembrar, é o da mineração: lento, consistente e pouco afeito a soluções de curto prazo. Mas os números já produzidos — R$ 700 milhões de receita no primeiro semestre, EBITDA de 50%, projeção de recorde em 2026 — indicam que a paciência, ao menos por enquanto, vem sendo recompensada. (Por Brasil Mineral)

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