PONTO DE VISTA

A pergunta que não quer calar

A pergunta que não quer calar

Por Milton Rego

Por Milton Rego

Em vez dos bem cortados ternos ocidentais que costuma usar, Xi Jinping envergava o tradicional uniforme maoísta ao falar na cerimônia em comemoração aos 100 anos do Partido Comunista Chinês, em julho. Como reza o ditado, o hábito faz o monge. Quem discursava ali não era o presidente do gigante asiático, mas, antes, o secretário-geral do PCCh. Dias depois, o governo chinês anunciava que passaria a regular os setores de tecnologia e de educação, derrubando os mercados financeiros internacionais.

A sutiliza chinesa costuma escapar aos olhos ocidentais. De país fechado, atrasado e rural até o início dos anos 1980 do século passado, a China se transformou numa potência extraordinária. Conquistou em pouco mais de 30 anos o que os Estados Unidos levaram um século para fazer. O país exibe hoje uma capacidade industrial avassaladora. Produz mais papers de ciência básica do que qualquer outra nação ocidental. Ocupa o primeiro lugar no mundo em computação quântica. No momento em que escrevia este texto, um robô made in China esquadrinhava a superfície de Marte.

O “capitalismo de Estado chinês”, maneira equivocada usada pelo Ocidente para se referir ao país, venceu. A obra não leva a assinatura de um homem, tampouco de um governo. É obra de um partido, o PCCh, e da manobra que engendrou para sobreviver.

Com o colapso da União Soviética, nos anos 1980, os comunistas chineses se deram conta de que poderiam ter o mesmo fim caso não promovessem mudanças no regime. A guinada em direção à economia de mercado foi planejada, controlada, custou vidas – o massacre da Praça da Paz Celestial aconteceu em 1989 – e triunfou.

No início dos anos 2000, na posição de executivo de diversos setores industriais brasileiros que tentavam se defender do tsunami de produtos chineses – então sinônimo de má qualidade de manufatura – me perguntava se aquela situação se manteria. O crescimento chinês era sustentável? O enriquecimento da sociedade chinesa e a ascensão da sua classe média não iriam afetar a estabilidade do país, como já tinha acontecido em 1989?

Na época, o mainstream dos analistas econômicos dava como certa alguma instabilidade, que viria junto com a urbanização e com uma população tornada mais cosmopolita. A previsão, contudo, não se confirmou. A China adentrou o novo milênio acelerando e se saiu melhor do que o mundo ocidental em todas as crises globais. Na mais recente delas, a provocada pela Covid-19, a sua resposta foi eficiente e sua economia respondeu até o momento mais rapidamente e com mais vigor do que as outras.

Qual é, então, a mágica que faz o autointitulado “Socialismo com Características Chinesas” mais eficiente do que as grandes democracias ocidentais? A mágica se chama PCCh. O toque sutil do partido está entranhado na vida nacional. Sua estrutura se difunde em todas as camadas da sociedade chinesa, das universidades e fábricas até o campo. A decisão, porém, repousa na mão de poucos camaradas. A condução do PCCh é um eco da criação do Partido Comunista por Lenin um século atrás – pequeno e coeso no topo, difuso e presente na base.

Teoricamente, o Partido não manda nas empresas, inclusive nas estatais. No entanto, estar no Partido e, mais do que isso, ser um eficiente dirigente partidário é, cada vez mais, o único caminho de sucesso na economia da China.

Xi Jiping pertence ao PCCh desde a mocidade, assim como todo o primeiro escalão do governo. Enquanto a estrutura estatal conta com ministérios, banco central, bancos de desenvolvimento etc, com governança e “checks and balances” de padrão ocidental, o Partido não está sujeito a essas amarras.

Richard McGregor, jornalista que passou muitos anos na China cobrindo política, autor do livro “The Party”, dizia que essa ambiguidade era “semelhante a um banqueiro de Wall Street desaparecendo como Clark Kent em uma cabine telefônica e emergindo rapidamente alguns minutos depois vestido como Karl Marx."

A maneira de operar dá ao Partido o poder de dirigir a economia e a sociedade de uma forma sem precedentes. Trata-se de uma autocracia no comando da maior e mais avançada economia de mercado do mundo, que não se limita a observar de longe o que acontece. Pelo contrário, intervém e enquadra quem for quando acha que é o caso. Foi o que aconteceu no início deste ano com Jack Ma, o bilionário dono da Alibaba, e agora com as empresas de ensino.

A questão que se coloca para o mundo é como enfrentar o dragão oriental sem correr o risco de acabar chamuscado pelo seu poder de fogo. O primeiro desafio, me parece, é tentar estabelecer uma relação isonômica entre as capacidades produtivas. Mas, como chegar a um level playing field a partir de estruturas de controle da economia tão distintas? O que estaria, por exemplo, dentro do âmbito regulatório da OMC?

Outra questão – e eu diria a mais importante –, é analisar os resultados práticos em termos de melhoria da qualidade de vida auferidos pelo governo comunista chinês via-a-vis com aquilo que as democracias ocidentais vêm entregando.

É nessa hora que surge a pergunta que não quer calar: estaríamos dispostos a sacrificar os valores da democracia liberal – estado democrático de direito, eleições livres, igualdade perante a lei, liberdade de imprensa e de manifestação de pensamento, livre mercado, propriedade privada, pluralismo político e transparência – em nome de crescimento econômico e de geração de riqueza maiores?

Tenho a impressão de que já sei a resposta...

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