Durante a Exposibram 2026, tive a oportunidade de participar do Painel 25 – Tendências Transformadoras na Cadeia Produtiva da Indústria Mineral, ao lado de executivos que representam diferentes elos do setor: Bruno Pimentel, gerente de Desenvolvimento e Inovação da Samarco, como mediador do Painel, Luis Mascarenhas, da Metso, e Mauricio Casara, da U&M. O debate reuniu perspectivas da GEOSOL e do Grupo GEOPAR, da Metso e da U&M para discutir temas fundamentais para o futuro da mineração, com base em segurança, inovação, pessoas, custos e competitividade.
Participar dessa discussão foi também uma oportunidade de refletir sobre uma trajetória que começou, para mim, em 1990, quando iniciei minha carreira na GEOSOL. Ao longo de mais de três décadas, tive a oportunidade de atuar em diferentes áreas da empresa e acompanhar mudanças importantes na mineração, nas Geociências e na própria forma de fazer negócios. Essa experiência me reforçou uma convicção: uma empresa que pretende se perpetuar e permanecer relevante por muitas décadas precisa estar permanentemente disposta a evoluir.
O Grupo GEOPAR já atravessou três gerações de gestão, e sustentar uma trajetória de mais de 70 anos é um desafio permanente. Não basta olhar para aquilo que funcionou no passado. Precisamos acompanhar novos mercados, compreender as transformações do setor mineral e de outros segmentos e buscar oportunidades de eficiência antes que elas se tornem uma exigência. Ao mesmo tempo, essa evolução precisa acontecer sem perder a essência e os valores que construíram a nossa história.
Quando penso na transformação da cadeia produtiva mineral, vejo três elementos que precisam estar permanentemente conectados: gente, processos e sistemas a serviço da inovação. A mineração está se tornando cada vez mais intensiva em conhecimento, dados e tecnologia. A demanda global por minerais críticos para a transição energética e para as demais commodities – minério de ferro, ouro, cobre, níquel, fertilizantes etc. – somada a exigências ambientais e sociais mais rigorosas, amplia a responsabilidade de todos os agentes da cadeia e exige novas formas de trabalhar.

A tecnologia, por si só, não transforma uma operação. Uma nova ferramenta precisa conversar com processos, sistemas, equipamentos e, principalmente, com profissionais preparados para utilizá-la. É essa integração que permite transformar inovação em resultado. Por isso, vejo a transformação da mineração como um processo contínuo, no qual segurança, produtividade, sustentabilidade e competitividade precisam caminhar juntas.
A segurança é um bom exemplo dessa relação. Historicamente, ela sempre foi um requisito fundamental para a mineração. Hoje, porém, também se tornou um importante catalisador de inovação. Muitas das tecnologias que vêm sendo incorporadas às nossas operações têm como objetivo inicial reduzir a exposição das pessoas a situações de risco, aumentar a previsibilidade e fortalecer a gestão dos riscos críticos.
Na minha visão, a segurança começa muito antes da operação da mina. Na pesquisa mineral, a qualidade das informações geológicas, o monitoramento dos dados e a utilização de novas tecnologias de exploração já influenciam as decisões que serão tomadas em etapas posteriores. Quanto mais precisos e confiáveis forem os dados, maior será a nossa capacidade de reduzir incertezas, planejar melhor e tomar decisões mais seguras.
Essa visão está presente em diferentes iniciativas da GEOSOL. Um exemplo é o nosso Centro de Controle Operacional, o CCO, instalado em Belo Horizonte. A estrutura permite o monitoramento on-line das praças de sondagem, das condições de segurança e dos parâmetros operacionais de sondagem. Ter essas informações em tempo real facilita a elaboração de diagnósticos e permite que as equipes de gestão façam correções e tomem decisões com maior assertividade.
Outro projeto que considero importante é a Praça Inteligente e Sustentável. Desenvolvemos essa solução pensando simultaneamente nas pessoas e na operação. O contêiner multifuncional reúne áreas de vivência, banheiros, almoxarifado, escritório e um habitáculo climatizado, contribuindo para reduzir a exposição dos trabalhadores a condições climáticas adversas, ruído e poeira. Também buscamos ganhos de ergonomia, redução da interação homem-máquina e melhoria do tempo de mudança entre as locações dos furos e poços.
Na investigação geotécnica, para compor o portfólio da REDE Engenharia, tivemos a oportunidade de desenvolver, do zero, a SHCRR, Sonda Hidráulica de CPTu Remoto Robotizado, fabricada pela GEOBIT. Trata-se de um equipamento não tripulado, operado via satélite, destinado à realização de ensaios CPTu e de dissipação em estruturas com restrição de acesso, como barragens de rejeitos. As primeiras operações foram realizadas com sucesso em uma barragem de rejeitos da ArcelorMittal. É um exemplo de como uma necessidade operacional pode se transformar em uma solução tecnológica voltada à segurança e à qualidade dos dados.
Na linha de equipamentos para pesquisa geológica, também desenvolvemos a Smart GEOBIT SHPP. Um de seus diferenciais é a operação segura por meio de um painel de comando afastado da sonda, associada à tecnologia embarcada, facilidade de operação, robustez e confiabilidade. É um equipamento 100% nacional, desenvolvido em parceria entre a GEOSOL e a FINEP, e representa a nossa capacidade de transformar conhecimento operacional em produto.
A sustentabilidade também está presente nesse processo de desenvolvimento. Nossa Sonda Elétrica, projeto desenvolvido com apoio da FINEP, encontra-se em fase final de testes operacionais e foi concebida para trabalhar pelo método rotativo diamantado sem emissão de carbono e gases de efeito estufa, utilizando energia fotovoltaica e conjuntos de baterias removíveis. Vejo essa iniciativa como mais um exemplo de que segurança, inovação e sustentabilidade podem ser trabalhadas conjuntamente.
Mas inovação não significa apenas criar equipamentos completamente novos. Também precisamos olhar para os ativos existentes, modernizá-los, ampliar sua vida útil, reduzir desperdícios e utilizar melhor o conhecimento acumulado nas operações. Tecnologias como automação, monitoramento, manutenção preditiva e análise de dados precisam estar conectadas às necessidades reais de cada operação.
Nesse contexto, a estratégia de Soluções Integradas e de verticalização do Grupo GEOPAR tem um papel importante. Em um mundo que busca cada vez mais eficiência operacional, verticalizar não foi apenas uma escolha, mas uma necessidade para ampliar competências e oferecer respostas mais adequadas às particularidades de cada projeto. Para mim, eficiência não significa simplesmente fazer mais barato. Significa entregar mais valor, de forma mais rápida e alinhada às expectativas do cliente.

É essa lógica que também orienta o desenvolvimento de soluções específicas, como o recente avanço em escaneamento de testemunhos, capaz de gerar análises multielementares e mineralógicas rápidas e apoiar decisões ainda em campo. Da mesma forma, o SGS GEOSOL vem ampliando sua atuação em novos métodos de análises geoquímicas, ambientais, testes metalúrgicos e outsourcing. São movimentos que ajudam a integrar diferentes competências e aproximar as diversas etapas da cadeia produtiva.
A qualidade da informação é outro ponto que considero decisivo para a competitividade. Dados geológicos mais precisos e uma maior integração entre processos, tecnologias e etapas da cadeia podem reduzir custos, aumentar a produtividade e melhorar a tomada de decisão. A transformação digital, portanto, não deve ser entendida apenas como a aquisição de novas ferramentas, mas como a capacidade de fazer com que a informação certa chegue à pessoa certa quando ela é necessária.
Ao mesmo tempo, quanto mais tecnológica se torna a mineração, maior é a importância das pessoas. A tecnologia muda processos, funções e formas de trabalhar, mas não elimina a necessidade de conhecimento. Pelo contrário: passa a exigir profissionais capazes de combinar conhecimento técnico em geologia e engenharia com novas competências em dados, automação, sistemas digitais e sustentabilidade.
Esse é um dos motivos pelos quais considero tão importante a experiência da GEOSOL com a Escola de Sondagem. A iniciativa, criada nos anos 2000 e remodelada em 2021 em parceria com o SENAI de Nova Lima, tem como objetivo oferecer formação inicial e continuada para atuação na pesquisa mineral, com foco em sondagem e perfuração de poços. Já formamos quase 700 sondadores, incluindo mulheres participantes do projeto pioneiro Mulheres na Sondagem.
Precisamos preparar as pessoas para a tecnologia sem abrir mão do conhecimento acumulado. A experiência de quem está no campo continua tendo enorme valor. O desafio está em fazer com que esse conhecimento seja preservado, compartilhado e combinado com as novas ferramentas e métodos disponíveis. A transformação que buscamos não é uma substituição entre pessoas e tecnologia, mas uma integração entre as duas.
Outro aspecto que discutimos foi a relação entre inovação e competitividade. Desenvolver novas soluções exige investimento, tempo, testes e disposição para assumir riscos. Por isso, precisamos fazer escolhas responsáveis. Muitas vezes, uma tecnologia pronta disponível no mercado pode apresentar resultados mais rápidos e menos onerosos. Em outras situações, desenvolver uma solução própria pode oferecer maior aderência à operação e benefícios mais duradouros. O papel da gestão é justamente avaliar essas alternativas e encontrar o equilíbrio adequado.
Tenho como princípio que pesquisa, desenvolvimento e inovação precisam trazer benefícios para a sociedade, melhorar a qualidade de vida de quem trabalha, preservar o meio ambiente e manter o foco constante na segurança operacional. Nosso primeiro valor é o Respeito à Vida. Ao mesmo tempo, uma empresa precisa gerar resultados. A conta precisa fechar. Portanto, a inovação também precisa ser economicamente sustentável.
Essa avaliação econômica deve considerar não apenas o investimento inicial, mas todo o ciclo de vida de uma solução: disponibilidade, manutenção, consumo de recursos, produtividade e custo total de operação. Quando avaliamos uma nova tecnologia, precisamos entender o resultado que ela produzirá ao longo do tempo e não apenas o impacto imediato sobre o orçamento.
Também considero fundamental evoluir a relação entre mineradoras, fornecedores e prestadores de serviços. O avanço tecnológico não acontece de forma isolada. Precisamos trabalhar de maneira mais colaborativa, compartilhando problemas, conhecimentos e experiências para desenvolver soluções que façam sentido nas condições reais das operações. Um fornecedor pode ser muito mais do que aquele que entrega um equipamento ou um serviço; pode ser um parceiro na construção de uma solução.

Há ainda desafios que ultrapassam a tecnologia. Um deles é a adaptação às mudanças regulatórias e econômicas. No caso da Reforma Tributária, por exemplo, a GEOSOL vem investindo na compreensão da nova legislação, com apoio de consultorias e assessorias qualificadas, treinamento dos colaboradores e sistematização dos processos internos. Antecipar mudanças e preparar a organização também faz parte da capacidade de evoluir.
Ao olhar para todos esses pontos, reforço a percepção de que a transformação da mineração não será resultado de uma única tecnologia, empresa ou etapa da cadeia. Inteligência Artificial, automação, sensoriamento remoto, monitoramento, eletrificação, digitalização e análise de dados são ferramentas importantes, mas precisam estar integradas aos processos e às pessoas para gerar resultados concretos.
Na GEOSOL e no Grupo GEOPAR, procuramos fazer essa integração de diferentes maneiras: desenvolvendo equipamentos, investindo em capacitação, utilizando dados para melhorar a gestão, criando soluções específicas para nossos clientes e buscando maior integração entre as empresas e competências do grupo. O objetivo é transformar conhecimento e experiência em soluções que tragam mais segurança, eficiência e valor para as operações.
Essa visão está alinhada à própria cultura do Grupo GEOPAR, sintetizada no nosso acróstico: Gente, Evolução, Otimismo, Produtividade, Atendimento e Resultados. Esses conceitos representam uma forma de enxergar o negócio em que as pessoas estão no centro, mas sempre associadas à evolução, à eficiência, ao atendimento às necessidades dos clientes e à geração de resultados.
Saio desse debate com a convicção de que o futuro da mineração será cada vez mais conectado. Precisaremos conectar dados, tecnologias, processos e pessoas. Precisaremos aproximar mineradoras, fornecedores, universidades, institutos de pesquisa e empresas de tecnologia. E precisaremos transformar essa conexão em soluções capazes de melhorar a segurança, a produtividade, a sustentabilidade e a competitividade do setor.
Mais do que tentar prever quais tecnologias estarão disponíveis nos próximos anos, precisamos estar preparados para identificar os problemas e as oportunidades que surgirem e ter capacidade de desenvolver respostas. Inovação, para mim, tem valor quando deixa de ser uma possibilidade e passa a produzir um resultado concreto. É quando uma tecnologia reduz um risco, melhora uma operação, aumenta a qualidade de uma informação, preserva um ativo, reduz um impacto ambiental ou melhora a vida de quem está trabalhando.

A mineração brasileira possui conhecimento, recursos minerais, empresas, profissionais e instituições capazes de participar ativamente dessa transformação. O desafio é integrar essas competências e construir uma cadeia produtiva cada vez mais conectada e preparada para responder às novas demandas do setor. Foi essa, para mim, a principal reflexão deixada pelo Painel 25 da Exposibram 2026: a transformação não acontece em pontos isolados. Ela acontece quando pessoas, processos, tecnologias e empresas evoluem juntas e conseguem transformar inovação em valor para toda a cadeia mineral.

