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Brasil Mineral - Edição 460

Agosto 2026
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Uma nova chance para o urânio no Brasil

ARTIGO

Uma nova chance para o urânio no Brasil

Por Tomás Albuquerque (*)

Brasil Mineral 460Agosto 2026Páginas 98-101

Somos um dos poucos países do mundo que dominam a tecnologia de todas as etapas do ciclo do combustível nuclear, da mineração de urânio à geração de energia nucleoelétrica. O Brasil vem trabalhando e desenvolvendo essas competências há mais sete décadas. Tivemos um momento muito promissor quando, há 51 anos, assinamos o acordo de cooperação Brasil-Alemanha, com o objetivo de construir oito reatores nucleares por aqui. O resto é história, que conhecemos muito bem.

Dos oito reatores, concluímos apenas um, Angra 2, e iniciamos o segundo, Angra 3. De lá para cá, uma sucessão de acontecimentos contribuiu para a estagnação do Programa Nuclear Brasileiro. Com uma matriz elétrica historicamente baseada na geração hidrelétrica, o Brasil manteve seus investimentos no modelo e, a partir do fim dos anos 1990 e início de 2000, passou a apostar fortemente em fontes renováveis, como a eólica e, mais recentemente, a solar. O caminho traçado explica por que o Brasil, apesar de possuir uma das maiores reservas de urânio do mundo, mantém uma produção diminuta que não nos faz figurar entre os grandes produtores.

A INB, Indústrias Nucleares do Brasil, sucessora da Nuclebrás, é a empresa pública responsável pelo exercício do monopólio constitucional sobre o aproveitamento do urânio e do combustível nuclear. O objetivo é produzir combustível para atender a necessidade brasileira, que hoje se restringe a Angra 1 e Angra 2. Juntas, as duas usinas consomem algo em torno de 450 t de concentrado de urânio. A demanda limitada é a causa de todo o represamento da cadeia: para que prospectar mais se o que temos é o suficiente para atender às nossas necessidades?

Este cenário não é uma exclusividade brasileira. Porém, salvo algumas poucas exceções, o mundo todo fez movimentos para mudá-lo. O urânio, uma commodity mineral como outra qualquer, durante muito tempo foi muito barato e desinteressante para os investidores. A oferta foi se ajustando à demanda e o mercado vinha equilibrado até agora. Porém, os movimentos pela redução dos gases nocivos à atmosfera e a busca por uma transição energética encontraram na geração nucleoelétrica uma ótima solução: alta densidade energética, sem emissão de CO².

Economias em expansão, como China e Índia, retomaram programas de construção de reatores nucleares como alternativa para substituir gradualmente as fontes fósseis. A instabilidade geopolítica e os conflitos entre países trouxeram de volta ao debate a preocupação com a independência energética. A isso se soma ainda o aumento exponencial de consumo de energia por parte das empresas de tecnologia, com a construção de data centers monstruosos e a disseminação do uso de inteligência artificial. O cenário reacendeu a visão de que o Brasil tem tudo o que precisa para ampliar sua capacidade de geração nucleoelétrica e trazer mais segurança ao nosso sistema elétrico.

Por isso, desde o início de 2023, é possível que a INB faça parcerias com outras empresas a fim de desenvolver novos depósitos de urânio, aumentar e fortalecer o ciclo do combustível nuclear. Além disso, na revisão do Plano Nacional de Energia, o Ministério de Minas e Energia sinalizou o interesse nacional nessa fonte, com um aumento da meta de geração nucleoelétrica para 14 GW em 2055. A mudança simboliza algo muito forte para o Programa Nuclear Brasileiro, pois reacende sua presença e traz uma nova chance para a produção do urânio no Brasil.

Na geração nucleoelétrica, tudo começa pelo combustível. E todo combustível começa na mina, com a produção de urânio. Se o Brasil pretende alcançar essa capacidade de geração, precisa começar agora a preparar toda a cadeia produtiva para entregar as cerca de 3 mil toneladas de urânio que serão necessárias para abastecer os futuros reatores. Porque toda usina nuclear começa muito antes do reator. Ela começa na mina. Sem combustível não há geração. E sem urânio não existe combustível.

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