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Brasil Mineral - Edição 460

Agosto 2026
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A nova fase do lítio no Brasil

MINAS GERAIS

A nova fase do lítio no Brasil

Setor busca competitividade em um mercado pressionado por preços baixos e pela necessidade de agregar valor à produção nacional

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 460Agosto 2026Páginas 38-47

Quando a Sigma Lithium embarcou suas primeiras cargas comerciais de concentrado de espodumênio em 2023, o Vale do Jequitinhonha passou a ocupar espaço permanente no mapa global dos minerais críticos. Três anos depois, o cenário é mais complexo. A corrida pelo lítio continua atraindo investidores internacionais, mas a indústria brasileira enfrenta um desafio diferente daquele que marcou os primeiros anos do chamado "Vale do Lítio": transformar recursos geológicos abundantes em uma cadeia industrial competitiva.

O tema tem sido recorrente nas páginas de Brasil Mineral desde 2025. Se no início da década a atenção estava concentrada na descoberta de depósitos e na atração de capital estrangeiro, hoje o debate migra para questões como escala produtiva, custos operacionais, industrialização, segurança de suprimento e inserção do Brasil em um mercado cada vez mais estratégico para a transição energética.

A mudança de foco não é casual. O mercado internacional vive um período de ajuste após o forte ciclo de valorização registrado entre 2021 e 2023. A queda dos preços do carbonato e do hidróxido de lítio pressionou projetos em todo o mundo, obrigando empresas a rever cronogramas, custos e estratégias de financiamento. Nesse contexto, apenas os empreendimentos com boa qualidade mineral, logística competitiva e capacidade de expansão tendem a avançar.

Conforme destacado na última edição da revista Brasil Mineral – As 100 Maiores do Setor Mineral (https://brasilmineral.com.br/revista/459), em uma análise feita pelo editor da publicação, Francisco Alves, o setor brasileiro de lítio vive uma fase de transição entre a produção ainda limitada e a perspectiva de forte crescimento nos próximos anos. Atualmente, apenas três empresas mantêm operações produtivas no país — Sigma Lithium, AMG e Companhia Brasileira de Lítio (CBL) —, mas novos projetos em desenvolvimento indicam uma expansão significativa da oferta nacional.

A Sigma Lithium permanece como a empresa com maior capacidade instalada do segmento. Em 2025, contudo, em razão de uma reestruturação operacional que envolveu a internalização das atividades de mineração, a companhia manteve em funcionamento sua planta industrial por meio do reprocessamento de rejeitos.

A AMG informa que concluiu recentemente a ampliação da sua planta de concentrado de lítio, elevando a capacidade anual de 40 mil para 130 mil toneladas. A estratégia de verticalização inclui ainda a implantação de uma futura planta de hidróxido de lítio, projeto estimado em US$ 290 milhões e com previsão de início de operação no começo da próxima década.

Foto mostra o interior de uma mina subterrânea, com um túnel iluminado por luzes artificiais e trilhas de veículos no solo de terra e cascalho.
Mina da Cachoeira, da CBL

Já a Companhia Brasileira de Lítio – CBL busca ampliar sua participação na cadeia de valor do mineral. Em 2026, a empresa firmou parceria com a indiana Altmin, que investirá US$ 40 milhões para adquirir participação acionária de 33% na companhia. Os recursos serão destinados à expansão da refinaria de Divisa Alegre (MG), permitindo triplicar a capacidade de produção de compostos químicos de lítio utilizados em baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.

O fato é que, com reservas relevantes, novos investimentos e iniciativas voltadas à agregação de valor por meio do refino e da produção de compostos químicos, o Brasil busca consolidar sua posição como um dos principais polos globais de lítio, especialmente diante da crescente demanda da indústria de baterias e da transição energética mundial.

Esse impulso deve acontecer com a entrada de projetos em estágio avançado de implantação. A Lithium Ionic desenvolve o Projeto Bandeira, planejado para produzir 177 mil toneladas anuais de concentrado de espodumênio ao longo de quase duas décadas de operação. Já a Atlas Lithium avança com o Projeto Neves, no Vale do Jequitinhonha, cuja produção estimada é de aproximadamente 146 mil toneladas anuais de concentrado de lítio.

Sigma Lithium prepara nova fase de crescimento no Brasil

Imagem em 3D mostrando o layout de engenharia de uma planta industrial de mineração, com esteiras transportadoras, guindaste, maquinário amarelo e estruturas coloridas representando diferentes setores da instalação, sobre um terreno de terra.
Engenharia geral do Projeto Bandeira, da Lithium Ionic

Conforme divulgado nos canais oficiais da companhia, o ano de 2025 representou um período de consolidação operacional para a Sigma Lithium no Vale do Jequitinhonha. Após concluir a fase de implantação e ramp-up do projeto Grota do Cirilo, a companhia concentrou esforços na ampliação da eficiência produtiva, redução de custos, fortalecimento da estrutura financeira e preparação da segunda linha de produção, que deverá praticamente dobrar sua capacidade instalada nos próximos anos.

De acordo com o relatório anual, a Sigma produziu 68.368 toneladas de concentrado de óxido de lítio no segundo trimestre de 2025, volume 38% superior ao registrado no mesmo período de 2024 e ligeiramente acima da meta trimestral estabelecida pela companhia. Também ao longo do ano passado, a companhia informa que avançou na implantação da chamada Planta 2, considerada o seu principal projeto de crescimento e que foram concluídas etapas importantes de preparação do terreno, contratação de equipamentos críticos e engenharia de implantação. Quando entrar em operação, a nova unidade deverá acrescentar aproximadamente 250 mil toneladas anuais à capacidade produtiva da empresa, elevando o potencial total do complexo Grota do Cirilo para cerca de 520 mil toneladas por ano de concentrado de lítio.

A empresa destacou ainda a internalização de parte das atividades de mineração anteriormente executadas por terceiros, medida que, segundo a administração, contribuiu para ganhos de eficiência operacional e redução de custos.

Em termos de relevância, a Sigma Lithium continua sendo o principal nome da indústria brasileira de lítio desde que consolidou a operação Grota do Cirilo, em Araçuaí e Itinga, como a primeira mina de lítio de grande porte do país voltada ao mercado internacional de baterias. E mesmo em um ambiente de preços mais baixos e maior controle regulatório, permanece como a única produtora brasileira com escala capaz de influenciar estatísticas globais de oferta.

CBL: a vantagem da verticalização

Enquanto a Sigma se tornou símbolo da nova fronteira do lítio brasileiro, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) representa a experiência acumulada. A empresa opera há décadas em Minas Gerais e continua sendo a única produtora nacional com integração entre mineração e processamento químico, produzindo compostos de maior valor agregado, como carbonato e hidróxido de lítio.

Essa característica tornou-se ainda mais relevante diante da crescente discussão sobre agregação de valor. O modelo da CBL demonstra que a competitividade futura do setor brasileiro poderá depender menos da exportação de concentrados e mais da capacidade de avançar para etapas industriais posteriores.

Foto de amostra de rocha (testemunho de sondagem) sendo segurada por uma mão, mostrando veios minerais.
Testemunho de sondagem do Projeto Neves, da Atlas Lithium

AMG: expansão gradual

A AMG Brasil mantém suas operações na mina Volta Grande, situada em Nazareno (MG), na unidade de minerais críticos, produzindo concentrado de espodumênio como parte da estratégia global da AMG Critical Materials.

Embora receba menos atenção do mercado do que a Sigma, a empresa ocupa posição importante por já possuir estrutura operacional consolidada e experiência em exportação de minerais especiais.

A expectativa do mercado é que a AMG continue ampliando gradualmente sua participação, aproveitando a infraestrutura já instalada e a proximidade com os pólos de desenvolvimento mineral do estado.

Imagem do artigo - página 45

Lithium Ionic: a próxima da fila

Entre os projetos em desenvolvimento, o Bandeira, da Lithium Ionic, é provavelmente o mais avançado. A companhia atualizou em 2025 seus recursos minerais para 27,27 milhões de toneladas medidas e indicadas, além de 18,55 milhões de toneladas inferidas.

O estudo de viabilidade aponta vida útil estimada de 18,5 anos e produção média anual de aproximadamente 177 mil toneladas de concentrado de espodumênio. O projeto apresenta indicadores econômicos robustos, com baixo custo operacional em comparação a empreendimentos internacionais.

Caso avance conforme o cronograma previsto, a Lithium Ionic poderá se tornar a segunda grande produtora de lítio do Vale do Jequitinhonha em termos de escala comercial.

Atlas Lithium: aposta na eficiência

Outro projeto que vem ganhando relevância é o Projeto Neves, da Atlas Lithium. Em 2025, a empresa concluiu o estudo definitivo de viabilidade, projetando produção anual próxima de 146 mil toneladas de concentrado de lítio. Em 2026, recebeu autorização para expansão do empreendimento, reforçando a expectativa de avanço rumo à fase de implantação.

O diferencial da Atlas está na busca por um modelo de menor intensidade de capital, característica que ganhou importância diante do ambiente de preços mais moderados para o lítio.

Outros projetos mantêm atividade exploratória

Além dos empreendimentos mais avançados, diversas empresas continuam ampliando seus programas de pesquisa mineral em Minas Gerais.

Entre elas destacam-se a australiana PLS, que desenvolve o projeto Salinas, e a St George Mining, que mantém trabalhos de exploração voltados a minerais críticos. Embora ainda estejam distantes da produção comercial, essas empresas ajudam a demonstrar que o potencial geológico do Vale do Jequitinhonha está longe de ser totalmente conhecido.

Legenda da foto mostrando instalação industrial de mineração com estruturas metálicas, esteiras transportadoras e pilhas de minério a céu aberto
Unidade de Minerais Críticos da AMG

A entrada de novos agentes também evidencia o interesse internacional pelos recursos brasileiros. Em 2025, documentos revelaram que a chinesa BYD passou a deter direitos minerários em áreas do Vale do Lítio, reforçando a crescente dimensão geopolítica do setor.

A principal questão para os próximos anos talvez não seja geológica, mas industrial. O Brasil já demonstrou possuir recursos minerais relevantes e capacidade de atrair investimentos. O desafio passa a ser construir uma cadeia de valor capaz de capturar parte da riqueza hoje concentrada em outras regiões do mundo.

A maior parte do concentrado produzido em Minas Gerais continua destinada ao exterior, especialmente para a Ásia, onde ocorre a conversão química e a fabricação de materiais para baterias. Esse modelo gera receitas de exportação, mas limita a captura de valor agregado dentro do país.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse internacional pelos chamados minerais críticos. Estados Unidos, China e União Europeia buscam diversificar cadeias de suprimento e reduzir dependências estratégicas. O lítio brasileiro passou a integrar esse tabuleiro geopolítico.

Nesse cenário, o futuro do lítio brasileiro dependerá menos da descoberta de novas jazidas e mais da capacidade de criar competitividade industrial. O Vale do Jequitinhonha já provou que possui recursos minerais de classe mundial. A questão que permanece aberta é se o país conseguirá avançar da condição de fornecedor de matéria-prima para a de participante efetivo das cadeias globais de tecnologia e energia.

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