Apresentado por Aldo Almeida, da Hydro, o modelo das Usinas da Paz combina investimento privado, gestão pública e participação comunitária para ampliar serviços gratuitos em áreas de alta vulnerabilidade. A iniciativa, segundo o palestrante, mostra que segurança pública também se constrói com educação, cultura, esporte, qualificação e presença contínua do Estado.
Um modelo de colaboração contra a vulnerabilidade
Em territórios marcados pela vulnerabilidade social e, em alguns casos, pela presença do crime organizado, as Usinas da Paz foram apresentadas como uma resposta que vai além da segurança pública tradicional. O modelo combina poder público, iniciativa privada e comunidade na implantação de centros comunitários de grande porte, voltados a bairros populosos e carentes, com oferta contínua de serviços gratuitos.
Na palestra “Projetos colaborativos entre empresas e entes públicos para beneficiar segurança e bem-estar das comunidades: Usinas da Paz”, Aldo Almeida, da Hydro, destacou que a principal lição do programa está na colaboração. “Não adianta só a empresa querer mudar o mundo porque ela não vai conseguir se realmente ela não tiver lado a lado com o Estado”, afirmou. Para ele, desafios sociais complexos exigem soluções integradas: empresas, governos e comunidades não podem atuar como “ilhas”, sob pena de produzir resultados limitados.
As unidades foram implantadas em áreas que demandavam uma presença estatal mais efetiva e positiva. Segundo Almeida, a Hydro construiu três complexos em bairros com cerca de 100 mil habitantes cada, alcançando diretamente 300 mil pessoas. A companhia também entregou outras quatro unidades em municípios onde mantém operações, ampliando o alcance do programa e gerando valor compartilhado para comunidades e empregados que vivem nessas localidades.
Da construção à operação
O funcionamento das Usinas da Paz foi descrito por Almeida como um dos pilares do êxito da iniciativa. A divisão de responsabilidades é objetiva: o município doa o terreno, a empresa parceira financia, constrói e entrega o complexo equipado, e o governo estadual assume a gestão e a operação permanente. “O município doa o terreno onde vai ser construído, o empreendedor constrói tudo, equipa tudo, entrega, e o Estado opera”, detalhou.
A entrega, ressaltou o palestrante, não se limita à obra civil. As empresas equipam as instalações com itens necessários à programação prevista: instrumentos musicais, equipamentos de robótica, materiais esportivos, cozinhas industriais para cursos de culinária, livros para bibliotecas e outros recursos. A partir daí, o poder público organiza a oferta de mais de 70 serviços gratuitos, com a participação de diferentes áreas da administração, que destinam equipes para atuar nos espaços.

De acordo com Almeida, a meta original era chegar a 44 usinas. A gestão atual deve concluir 29 unidades, já em operação, das quais sete foram construídas pela Hydro. As estruturas funcionam durante toda a semana. De segunda a sexta-feira, recebem atividades programadas; aos sábados e domingos, áreas de lazer, como piscinas e quadras, ficam disponíveis para uso da comunidade.
Esse desenho contribuiu para criar senso de pertencimento. “As pessoas realmente se engajaram, entendem que aquilo é um patrimônio delas, então elas cuidam”, relatou Almeida. Para ele, a apropriação comunitária é essencial para preservar os equipamentos e sustentar o impacto social do programa ao longo do tempo.
Segurança com presença social
O efeito mais expressivo apresentado por Almeida está na segurança. Com base em dados públicos, ele afirmou que, na comparação com 2019, adotado como linha de base, os territórios atendidos pelas Usinas da Paz registraram redução de até 95% nos crimes violentos. O resultado, segundo o executivo, decorre de uma mudança na forma como o Estado se faz presente.
“O Estado se faz muito presente, de uma maneira não com a força policial, porque só a força policial não resolve, mas ela está presente de uma forma que ela antecipa aquele jovem que poderia entrar pra criminalidade”, explicou. A lógica é oferecer alternativas concretas antes que a vulnerabilidade se converta em trajetória de exclusão: educação, esporte, cultura, qualificação profissional, serviços de cidadania e espaços seguros de convivência.
O palestrante também observou que o respeito aos equipamentos é reforçado pelo uso amplo das estruturas. Mesmo pessoas ligadas a atividades ilícitas, disse ele, frequentam os espaços ou têm familiares atendidos pelos serviços. Isso cria uma proteção informal ao patrimônio e reforça a percepção de que as usinas pertencem à própria comunidade.
Além da redução da criminalidade, Almeida citou impactos em educação, com cursos técnicos e de robótica; em empreendedorismo, com apoio a pequenos negócios; e em cidadania, ao permitir que moradores de áreas periféricas e rurais se sintam vistos e atendidos pelo poder público. O ponto central, na avaliação dele, é que a segurança melhora quando a população passa a ter acesso regular a oportunidades e serviços.
Empresa como catalisadora
Almeida fez questão de delimitar o papel da iniciativa privada. A empresa pode integrar atores, acelerar soluções e aportar capacidade de execução, mas não deve substituir o poder público. “A empresa não pode achar que vai substituir o Estado porque ela vai falhar nisso. O papel da empresa é o quê? É fazer essa integração, é investir”, afirmou.

Nesse arranjo, a companhia contribui com gestão de projetos, eficiência na aplicação de recursos e agilidade na entrega das estruturas. A política, porém, permanece pública — e deve continuar sob responsabilidade do Estado. Para o palestrante, a governança é decisiva para controlar custos, cumprir cronogramas, enfrentar desafios de implantação e direcionar melhor os investimentos a partir de dados.
A perenidade também foi apresentada como condição para o sucesso. Segundo Almeida, o programa foi transformado em política de Estado, o que ajuda a assegurar continuidade para além de uma gestão específica. Sem essa blindagem institucional, advertiu, os resultados de uma iniciativa complexa e de longo prazo ficariam mais vulneráveis à descontinuidade.
Ao final, a mensagem foi de que a transformação social exige corresponsabilidade. “Se a gente tem a união do ente privado, do ente público, com a participação das comunidades, realmente temos a transformação de realidades”, concluiu Almeida. Nas Usinas da Paz, essa união se materializa em espaços que combinam serviço público, convivência e oportunidade — e que reposicionam a segurança como consequência de presença, cuidado e desenvolvimento.
