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RODA DE CONVERSA

O ESG acabou?

Brasil Mineral 458Páginas 6-11
O ESG acabou?

A recente decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de suspender a obrigatoriedade de publicação de relatórios de sustentabilidade reacendeu o debate sobre o futuro do ESG no Brasil. Durante a roda de conversa "O ESG acabou?", realizada no 11º Seminário Mineração &/X Comunidades da Brasil Mineral, especialistas foram unânimes: a agenda não se encerrou, mas passou por um processo de amadurecimento que exige maior materialidade e integração com a gestão de riscos. Independentemente de obrigações regulatórias, a mineração não pode prescindir da licença social para operar — e investidores seguem atentos à transformação efetiva nos territórios.

Do meteoro ao amadurecimento

A moderadora Cristiane Holanda abriu o painel contextualizando as transformações da agenda ESG na última década. Entre 2015 e 2020, impulsionado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e pelo Acordo de Paris, o tema ganhou relevância nas corporações. A partir de 2021, contudo, surgiram críticas relacionadas à proliferação de metodologias distintas, ao greenwashing e à subjetividade dos indicadores divulgados.

Cristiane Holanda
Cristiane Holanda

Adriana Solé foi incisiva ao caracterizar a trajetória do ESG. "Pra mim, em termos de visibilidade, ele foi um meteoro. Teve uma força muito grande, pós-pandemia, o mundo, todo mundo muito sensível com aquela questão toda pandêmica. Ele foi um meteoro, porque expôs uma série de vulnerabilidades em todas as letrinhas", afirmou. Para Solé, o conceito foi "machucado" sucessivamente pela guerra da Ucrânia, que evidenciou a dependência europeia do gás russo, e pela guerra entre Israel e o Hamas, que polarizou a sociedade e enfraqueceu narrativas de direitos humanos.

Rosane Santos ofereceu uma leitura diferente. "Eu não acho que o ESG acabou não, gente, eu acho que ele é adulto, que ele amadureceu", disse. Santos comparou o processo à criação de um filho: "Você tem o filho na infância, depois na adolescência, e aí ele quer sair, né, ele quer experimentar o mundo e depois ele vira adulto e você não consegue mais ali controlar do seu jeito".

Licença social como imperativo

Eduardo Leão, da G Mining, trouxe a perspectiva de quem opera em territórios remotos. "A gente não tem que dizer 'estamos inseridos no território', porque nós somos o território. Nossos funcionários são de lá, nossas comunidades são de lá. Nós estamos ali juntos, de braços dados", declarou.

Leão relatou que a comunidade Morro do Macaco, próxima à mina Tocantinzinho, em Itaituba (PA), recebeu treinamentos sobre direitos humanos, trabalho escravo e trabalho infantil promovidos pela empresa. "Se não é a gente fazendo isso, trazendo esse conhecimento pra eles, não tem como a prefeitura de Itaituba chegar lá, a 400, 500 km de distância", explicou. Para ele, o Estado não consegue estar presente em todos os lugares, e a mineração assume papel de agente de transformação.

Adriana Solé
Adriana Solé

Rosane Santos reforçou que a licença social vai além de evitar bloqueios de estrada. "É a legitimidade, é a reputação, é a confiança que a comunidade tem naquilo que a gente faz, a ponto de falar: 'é isso aí, continua fazendo, porque eu valido vocês'", afirmou. Segundo ela, esse ativo precisa ser reconhecido como parte da operação, e não tratado como custo ou despesa.

Investidores querem ver transformação

Evento lotou o auditório da FIEMG
Evento lotou o auditório da FIEMG

Os painelistas convergiram ao apontar que o mercado de capitais — origem do próprio termo ESG, cunhado em 2004 — segue atento à performance socioambiental das empresas. Eduardo Leão observou que investidores têm visitado os territórios com frequência quase mensal para verificar se as práticas reportadas se materializam. "Hoje, todos esses investidores, o mercado de capitais, deu um passo a mais, está vindo verificar se acontece tudo que a gente está reportando, e saber qual é o tipo de investimento social que aquele acionista também está fazendo", relatou.

Rosane Santos acrescentou que gestores de fundos interessados em ativos minerários mantêm o olhar "firme" e "assertivo". "A mineração ainda é muito fechada. Quem tá de fora tem uma necessidade de entender o que esse setor faz, como esse setor faz, por que faz e pra quem faz", observou. Ela alertou que o setor "não tem a chance de errar de novo", após os desastres recentes.

Rosane Santos
Rosane Santos

Cristiane Holanda, da Nexa, compartilhou um episódio ilustrativo: na semana anterior ao evento, investidores questionaram a empresa sobre as medidas adotadas em relação ao fenômeno El Niño previsto para o segundo semestre. "Eu quase caí da cadeira, confesso a vocês. O investidor querendo saber o que a gente está fazendo em relação a mudanças climáticas", relatou.

Geopolítica e soberania operacional

Adriana Solé destacou que o cenário geopolítico fragmentado impõe novos desafios às empresas. "O grande desafio da mineração e das empresas de uma forma geral é a sua soberania operacional. De onde é que você vai garantir a sua empresa rodando todo dia, normalmente, sem mimimi?", questionou. Para ela, a instabilidade nos fretes, nos preços do petróleo e nas cadeias de suprimento obriga as companhias a demonstrar que investimentos socioambientais têm retorno. "Tudo bem, eu quero uma empresa limpa, eu quero uma empresa social, mas me mostra que isso é pagável, que eu consigo pagar", resumiu.

Solé também lembrou que a mineração protagonizou os maiores desastres socioambientais recentes no Brasil, incluindo Mariana, Brumadinho e Maceió. "O que nós fizemos de social, de ambiental, tem que ficar por honra. A sociedade vai nos cobrar e essa é a materialidade que nós vamos ter que responder. Não tem retrocesso nisso que nós já fizemos", afirmou.

Engenharia precisa entrar na conversa

Durante a sessão de perguntas, uma participante questionou a ausência da engenharia nas discussões sobre ESG. "Os desastres vieram da engenharia. E aonde que a engenharia está nessa discussão?", indagou. Para ela, o debate permanece focado "da porteira pra fora", na relação com comunidades, enquanto decisões técnicas internas às operações seguem dissociadas.

Eduardo Leão respondeu com um exemplo prático. No início do projeto Tocantinzinho, a engenharia propôs relocar a comunidade Morro do Macaco, porque ela estaria dentro da mancha de inundação da barragem. Leão questionou a solução: o impacto seria de apenas 30 centímetros, enquanto as cheias naturais do rio atingiam um metro. A alternativa adotada foi construir um dique de proteção, por menos de um milhão de reais, evitando uma relocação que custaria cerca de dez milhões. "Foi financeiramente, ambientalmente e socialmente", resumiu.

Adriana Solé reconheceu que a formação dos engenheiros ainda carece de visão holística. "Nós continuamos sendo aquele pé de boi mesmo. Quem, nas escolas, tá dando esse tipo de informação?", questionou.

Transformação como condição

Eduardo Leão
Eduardo Leão

O painel evidenciou que, apesar das mudanças regulatórias e das oscilações no discurso global, a agenda ESG permanece central para a mineração brasileira. O consenso entre os especialistas é de que o conceito evoluiu de uma abordagem reputacional para uma lógica de gestão de riscos e criação de valor sustentável. A licença social deixou de ser uma formalidade e tornou-se condição para operar, com investidores cada vez mais dispostos a verificar in loco a transformação prometida nos relatórios. Como sintetizou Rosane Santos, "se não transformar, gente, não vai adiantar fazer por fazer".

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