Representantes de institutos e fundações ligados ao setor mineral defenderam que essas estruturas permitem uma atuação social mais efetiva e duradoura do que áreas internas das empresas. O painel "Institutos e Fundações são o diferencial para o ESG na prática?", realizado no evento Mineração e Comunidades da Brasil Mineral, reuniu organizações com perfis distintos — desde a Fundação Gorceix, com 66 anos, até o Instituto AngloGold Ashanti, criado há pouco mais de um ano. Os participantes destacaram legitimidade institucional, capacidade de estabelecer parcerias estratégicas, visão de longo prazo e governança rigorosa como diferenciais para a execução de projetos sociais em territórios minerários.
Entre dor e legado: a origem das organizações
A moderadora Rosane Santos abriu o debate questionando os painelistas sobre a necessidade que motivou a criação de suas respectivas instituições. As respostas revelaram trajetórias diversas, mas com pontos de convergência.
Bárbara Azevedo, diretora executiva do Instituto Lina Galvani, explicou que a organização surgiu há 23 anos não de uma dor, mas de uma intenção de legado. "Ela não ficava restrita apenas aos territórios diretos do entorno, mas olhava para outros territórios também que tinham algum tipo de relacionamento com o desenvolvimento dos territórios", afirmou. Segundo ela, o instituto nasceu para complementar o trabalho da empresa com metodologias próprias, como terapia comunitária.

Fernando Cláudio, diretor do Instituto AngloGold Ashanti, destacou que a organização foi criada para garantir continuidade aos projetos sociais após o encerramento das operações minerárias. "A gente tem uma clareza muito grande do tempo restrito que a mineração tem como atividade, mas o desenvolvimento social, o desenvolvimento de uma região, precisa muito ser trabalhado durante o período de operação", declarou. Para ele, o instituto representa "a mineração para além da mineração".
Antônio Chaves, diretor-presidente da Fundação Victor Dequech, contextualizou que a entidade foi constituída para perpetuar práticas sociais que o fundador da Geosol, Victor Dequech, já realizava quando a empresa era pequena. Com o crescimento da companhia para mais de 4 mil colaboradores, a fundação passou a garantir que esse DNA social fosse preservado. "A gente não substitui a empresa, mas complementa", sintetizou.
O professor Cristóvam Paes de Oliveira, presidente executivo da Fundação Gorceix, apresentou a história da instituição criada em 1960 para apoiar a Escola de Minas de Ouro Preto. "Eu acho que nós somos a primeira, se não formos a primeira somos uma das primeiras fundações de apoio a uma instituição de ensino superior no Brasil", afirmou. A fundação atua em três vertentes: assistência social, pesquisa científica e tecnológica, e apoio à Universidade Federal de Ouro Preto.
O que institutos e fundações fazem que empresas não podem

Os painelistas foram questionados sobre as atividades exclusivas de suas organizações que não poderiam ser executadas diretamente pelas empresas. As respostas evidenciaram diferenças importantes entre os modelos jurídicos.

Antônio Chaves foi direto ao apontar restrições legais. "Uma empresa não pode desempenhar programas de inclusão produtiva, por exemplo. Primeiro precisa não ter fim lucrativo para que se faça isso, por questões legais", explicou. Ele citou que a Fundação Victor Dequech mantém a única escola de sondagem do Brasil, podendo emitir certificados de capacitação — algo vedado a uma empresa de pesquisa mineral.
Bárbara Azevedo ressaltou a questão da legitimidade. "A gente tem uma obrigatoriedade, sim, de prestar contas. No final do dia, sendo investimento social privado ou sendo filantropia, é um dinheiro privado que é decidido ser colocado em benefício público", afirmou. Ela destacou que o Instituto Lina Galvani criou um comitê de sinergia para definir claramente os limites de atuação entre o instituto e a área de responsabilidade social da empresa.
Fernando Cláudio enfatizou a facilidade de estabelecer parcerias. "O instituto consegue se posicionar de uma forma melhor nesse contexto do que uma mineradora. A facilidade do instituto em estabelecer parcerias com o poder público, com outras empresas, instituições do terceiro setor, esse é um valor muito grande", argumentou.
Governança e prestação de contas
A discussão sobre governança revelou diferenças entre fundações e institutos. Cristóvam Paes de Oliveira explicou que a Fundação Gorceix é totalmente autônoma e não está ligada gerencialmente à Universidade Federal de Ouro Preto. "Nós somos auditados pelo Ministério Público, além das auditorias internas, dos nossos conselhos, da nossa Controladoria", detalhou.

Bárbara Azevedo esclareceu que, nos institutos, a situação é mais difusa. "Várias vezes o trabalho do instituto acaba se confundindo com o trabalho da área de responsabilidade social corporativa ou de relacionamento com comunidades", admitiu. Para mitigar essa sobreposição, ela defendeu a importância de conselhos com membros independentes e processos de diagnóstico participativo com as comunidades.

A questão da adaptação às mudanças sociais também foi abordada. Antônio Chaves explicou que uma fundação não pode mudar sua finalidade, mas pode atualizar a forma de cumpri-la. "Nosso estatuto tem cinco revisões. Ele está bem atual para a necessidade de hoje e continua com as mesmas finalidades", disse, descrevendo isso como "o equilíbrio entre essência e forma".
Modelos de sustentabilidade e independência
Uma participante da plateia questionou como garantir a continuidade dos institutos após o eventual encerramento das operações minerárias. Fernando Cláudio respondeu que o Instituto AngloGold Ashanti já trabalha com visão de independência financeira. "Como, daqui a um tempo, queremos reduzir essa dependência?. Dentro do Instituto AngloGold Ashanti, o que a gente enxerga é o desenvolvimento de produtos sociais que possam ser negociados e oferecidos para outras empresas", explicou.
Ele revelou que a organização já estuda um projeto de rebranding para se distanciar da identificação exclusiva com a empresa mantenedora, possivelmente adotando a sigla "Instituto AGA", para facilitar parcerias com outras companhias.
Bárbara Azevedo complementou destacando a importância de uma governança bem definida para demonstrar que o instituto não sofre ingerência da empresa. "Eu tenho conselheiros independentes também sentando dentro do meu board, justamente para garantir essa independência", afirmou.
Atuação em contextos de alta vulnerabilidade
O debate também abordou a atuação em regiões de alta vulnerabilidade social. Bárbara Azevedo explicou que o terceiro setor vem sofisticando seus indicadores. "Medir o ROI social, para cada real que eu coloco, quanto que eu tenho de retorno, quanto eu consigo alavancar a partir desse recurso que estou investindo", exemplificou. Ela apontou como nova fronteira a medição de resultados sistêmicos, que avaliam impactos em cadeias produtivas e sistemas públicos, não apenas em beneficiários diretos.
O painel evidenciou que, apesar das diferenças entre fundações e institutos, ambos os modelos oferecem vantagens para a execução de estratégias sociais no setor mineral, especialmente quando se considera a necessidade de continuidade das ações após o encerramento das operações e a construção de relações de confiança com as comunidades.
