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MESA REDONDA

Esses cases demonstram que o ESG resolve o X da questão?

Brasil Mineral 458Páginas 46-51
Mesa-redonda foi mediada por Maria Amélia Enriquez (primeira à esquerda)

A mesa redonda com os vencedores da segunda edição do Prêmio Mineração & Comunidades evidenciou um padrão comum entre os projetos premiados: todos partiram de processos de escuta ativa junto às comunidades do entorno das operações. Conduzida por Maria Amélia Enríquez, a mesa-redonda reuniu representantes de CBA, Lundin Mining, CMOC Brasil, Mosaic e Galvani para discutir como iniciativas corporativas podem gerar valor social sem se confundir com políticas públicas. Os casos apresentados abrangem desde adaptação climática municipal até educação antirracista em comunidades quilombolas, passando por atendimento de saúde itinerante e apoio à agricultura familiar.

"O ESG não morreu; está mais vivo do que nunca." A frase, dita pela coordenadora de sustentabilidade da CBA, Lígia de Lima Carvalho, na mesa-redonda que se seguiu à premiação, dá o tom da segunda edição do Prêmio Mineração & Comunidades. Em um momento em que a sigla é questionada mundo afora, os cinco projetos vencedores ofereceram o tipo de resposta que dispensa retórica — e que o próprio painel resumiu em uma pergunta: esses cases demonstram que o ESG resolve o "X da questão"?

Lígia de Lima Carvalho
Lígia de Lima Carvalho

Criado há dois anos como desdobramento do tradicional seminário, o prêmio reconhece gestores responsáveis por projetos socioambientais, culturais e educativos no entorno de operações de mineração, distribuídos em cinco categorias. Foram algumas dezenas de trabalhos inscritos e uma avaliação que virou estatística: o conselheiro e jurado Arão Portugal contabilizou cerca de 1.500 minutos de análise e 500 páginas de leitura, com decisões definidas, em vários casos, por um único ponto. "Todos os finalistas devem se sentir premiados, porque todos os trabalhos tiveram muita qualidade", afirmou. A seguir, os cinco vencedores.

“Saúde na Roça” leva atendimento itinerante ao interior de Goiás

Categoria: Responsabilidade socioambiental participativa — CMOC Brasil, de Davidson Miranda (responsável técnico)

Em Catalão e Ouvidor (GO), a cobertura de saúde básica existe, mas esbarra em um detalhe da realidade local: boa parte das 15 comunidades atendidas pela CMOC Brasil é formada por idosos, com dificuldade de locomoção para chegar a uma consulta ou a um hospital. Foi esse diagnóstico, somado à escuta das comunidades, que deu origem ao Saúde na Roça.

O projeto leva atendimento médico e odontológico itinerante diretamente à população. A partir de uma anamnese inicial, faz o mapeamento dos casos e os encaminha ao atendimento especializado — etapa em que a Secretaria de Saúde entra para facilitar o acesso. A construção foi feita a várias mãos: a empresa sentou-se com o secretário municipal de Saúde para definir onde poderia contribuir sem se confundir com a política pública.

Hoje com indicadores mensurados e forte engajamento da população, o programa estuda expandir-se para outros municípios e até para outras empresas. "Deixar legado é transformar a vida das pessoas", resumiu Flávia de Paula Adorno, gerente sênior de ESG e licenciamento da CMOC. "A comunidade só entende a presença da empresa se sentir que a vida dela mudou." Para ela, o Saúde na Roça virou "a menina dos olhos" da companhia.

“AGP Clima” transforma adaptação climática em política pública

Categoria: Comunicação, relacionamento e engajamento — CBA, de Daniele Pedrosa (responsável técnica)

Quando construiu o próprio plano de adaptação às mudanças climáticas, a CBA fez uma pergunta simples: por que não levar esse conhecimento aos municípios onde opera? Nasceu daí o AGP Clima, parte da linha Apoio à Gestão Pública (AGP) da empresa.

Trata-se de um programa estruturante, de quatro anos, que capacita Defesa Civil e secretarias municipais — de Meio Ambiente a Assistência Social, Direitos Humanos e Saúde — em governança de adaptação. Ele integra a plataforma Iniciativa Ação Climática, cujo primeiro pilar é um Índice de Vulnerabilidade Climática dos Municípios (IVCM), público e disponível para todos os municípios brasileiros, que cruza riscos como enchentes, deslizamentos, enxurradas, incêndios, inviabilidade agropecuária e ameaças à saúde. Um segundo pilar é um checklist que ajuda o gestor público a identificar as competências a desenvolver, do planejamento financeiro à governança de dados.

A lógica de negócio é explícita. "Fortalecendo a resiliência do município, eu fortaleço a minha operação", disse Lígia de Lima Carvalho, coordenadora de sustentabilidade da CBA. "Não vou ter a interrupção de um caminhão no transporte de um insumo ou de um produto". Em implantação desde 2024 — começou em Muriaé (MG) e Juquitiba (SP) e hoje alcança seis municípios, até Piraju e Alumínio (SP) —, o programa foi incorporado ao framework de captação financeira da companhia: há um empréstimo atrelado à sua expansão, com desconto na taxa em caso de cumprimento de metas.

“Desenvolvimento Rural” fixa as famílias no campo, no entorno da Mina Chapada

Categoria: Desenvolvimento, cidadania e gestão de renda — Lundin Mining, de Josielle Padilha Silvestre (responsável técnica)

Em vez de olhar apenas para a mina, a Lundin Mining apostou na diversificação produtiva do território vizinho à Mina Chapada (GO). Identificadas a agricultura e a pecuária como potencialidades da região — e atendendo a um pedido das próprias comunidades —, a empresa criou, em 2019, o Programa Desenvolvimento Rural.

Flávia de Paula Adorno
Flávia de Paula Adorno

O modelo é direto: uma assessoria técnica rural visita as propriedades, identifica necessidades de produtividade, qualidade de vida e sustentabilidade, e acompanha cada propriedade mapeada por três anos seguidos. As entregas vão de currais e melhoria de pastagem a acesso à água e energia solar para a ordenha. "Em hipótese nenhuma repassamos dinheiro: entregamos sempre serviços e materiais", explicou a coordenadora de performance social, Josielle Padilha Silvestre. A construção de confiança é parte do método — segundo ela, o contato próximo da equipe com o dia a dia dos produtores agrega valor à vida das famílias.

O caso ilustra também a fronteira entre obrigação e iniciativa: criado a partir da escuta, o programa só se tornou condicionante na renovação da licença, em 2022 — o caminho inverso ao de boa parte dos projetos premiados. Os próximos passos podem incluir a estruturação de uma cadeia que ajude os produtores, hoje voltados sobretudo ao gado de corte, a produzir e vender mais.

“Projeto Raízes” resgata a identidade afro-indígena em escola quilombola da Bahia

Categoria: Resgate e valorização de culturas e tradições — Galvani, de Ariana Prado (responsável técnica)

O projeto mais delicado da noite, no dizer dos jurados, nasceu em uma escola quilombola em processo de fechamento, na zona rural de Irecê (BA). Com alta evasão e baixa autoestima de uma comunidade marcada por estereótipos — "ser do campo já é motivo de estereótipos, e ser quilombola dobra isso", observou Arnobson dos Santos Costa, presidente do Instituto Ser-Tão, parceiro da Galvani —, faltava à escola algo básico: reconhecer o próprio valor.

Josielle Padilha Silvestre
Josielle Padilha Silvestre

O Projeto Raízes: Histórias, Memórias e Identidades Afro-indígenas atacou uma lacuna concreta do ensino brasileiro. Em um estado em que 80% da população é autodeclarada negra, as escolas carecem de literatura negra e de formação docente para uma educação antirracista. O projeto levou livros, instrumentos musicais e vestimentas de tecidos africanos, oficinas com crianças e formação de professores. Começou em três escolas, com mais de 150 alunos e 60 professores; em sua segunda edição, já dentro da Secretaria de Educação, envolve mais de 70 profissionais e alcança diretamente mais de 1.500 alunos.

O diferencial, porém, está na governança. Arnobson, que era diretor da escola quando a Galvani chegou e hoje coordena políticas de equidade étnico-racial na Secretaria de Educação, conta que a parceria ajudou o município de Irecê a obter boa avaliação do MEC nessas políticas — e que a escola venceu o Prêmio Luz na Educação, da Rede Globo, com participação direta da empresa. "Quando se promove o resgate da história, da memória e da identidade, ninguém mais tira", afirmou.

Arnobson dos Santos Costa
Arnobson dos Santos Costa

“Sala de Acomodação Sensorial” acolhe estudantes neurodivergentes em Uberaba

Categoria: Respeito e harmonia com comunidades — Mosaic, de Thaís de Oliveira Alves González (responsável técnica)

A iniciativa mais inesperada partiu de uma conversa. Em uma escola de Uberaba (MG) que já recebia um programa de hortas acessíveis da Mosaic, em ambiente de alta vulnerabilidade social, a direção relatou a dificuldade de acolher crianças neurodivergentes sem um espaço adequado para que se regulassem em momentos de crise. Embora estivesse fora do escopo de uma empresa de fertilizantes, a demanda foi levada a sério.

Resultado: a Sala de Acomodação Sensorial, implantada na rede pública de ensino. O projeto exigiu da empresa estudar um tema novo, buscar parceiros técnicos especializados — para garantir um espaço inclusivo, e não excludente — e treinar profissionais tanto no cuidado com os equipamentos quanto no acolhimento socioemocional dos alunos. "Não adianta dizer que estamos escutando e permanecer com a agenda fechada, sem flexibilidade", disse a especialista de projetos sociais Thaís de Oliveira Alves González.

Esses cases demonstram que o ESG resolve o X da questão?
Thaís de Oliveira Alves González
Thaís de Oliveira Alves González

Construída em conjunto com a escola e a Secretaria de Educação — que aderiu de portas abertas — e mantida sob termos firmados entre as partes, a sala já é replicada em Paranaguá (PR) e Cajati (SP). O efeito demonstração é tangível: ao verem a divulgação nas redes da Mosaic, outras comunidades passaram a pedir um espaço igual.

O case que convence o "não convertido"

Reunidos em uma mesa-redonda mediada pela economista e jurada Maria Amélia Enríquez — que lembrou que "a atividade mineral é temporária no território; a comunidade é permanente" —, os vencedores foram desafiados a responder à pergunta que mais incomoda os pragmáticos. Levantada pela conselheira Vânia Andrade, ela ganhou contornos de provocação na voz da própria moderadora: "Em Deus eu acredito; o resto tem que mostrar números".

Os exemplos vieram. Josielle Padilha Silvestre contou o caso de uma estrada de acesso que acumulava reclamações: bastou levar o gerente de operação para conversar diretamente com um morador para que o problema fosse resolvido. "No ano anterior, tínhamos nove reclamações recorrentes sobre o mesmo tema. Depois dessa visita, não tivemos mais nenhuma." O indicador, lembrou ela, integra a licença social — e, no fim, afeta o resultado. Na CBA, a pressão positiva vem também dos clientes: um grande comprador de folhas para embalagens avalia direitos humanos e relacionamento com a comunidade como parte da nota de fornecedor.

Mais difícil de monetizar, mas decisivo, é o engajamento interno. As empresas foram unânimes: o desafio maior, muitas vezes, é convencer engenheiros e equipes de operação. A Galvani reforçou seu programa de visitas para aproximar o pessoal técnico das comunidades vizinhas; a Mosaic leva executivos a campo no que chama de Social Experience. E todas convergiram sobre o papel da comunicação — de boletins comunitários a vídeos e ações com a imprensa local. "Se não conseguimos mostrar o que fazemos, as pessoas não sabem", resumiu Flávia de Paula Adorno.

Esses cases demonstram que o ESG resolve o X da questão?

Ao fim, o diretor editorial da revista Brasil Mineral, Francisco Alves, anunciou que os 15 trabalhos finalistas nas cinco categorias integrarão a edição especial com a cobertura completa do evento. Como sintetizou Maria Amélia Enríquez, "as boas iniciativas merecem ser replicadas e publicizadas".

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