No projeto Borborema, a Aura Minerals adotou uma solução de reuso para enfrentar, ao mesmo tempo, a escassez hídrica do semiárido e um passivo de saneamento básico. Com investimento de US$ 8 milhões, a companhia implantou uma adutora de 27 quilômetros e uma estação de tratamento de esgoto para abastecer o processo industrial da mina de ouro com efluentes tratados. A iniciativa, apresentada por Max Delfino, gerente de RH, Comunicação e ESG, na palestra “ESG na prática: o case Borborema”, trata cerca de 70 metros cúbicos de esgoto por hora e evita a captação de água nova em uma região de baixa disponibilidade hídrica.
A mineração em regiões de clima semiárido costuma ter na água seu principal limitador. No projeto Borborema, a Aura Minerals buscou transformar esse obstáculo em uma solução operacional e socioambiental: usar esgoto tratado como fonte de abastecimento para o beneficiamento de ouro. A alternativa permite reduzir a pressão sobre mananciais locais, dá segurança hídrica à operação e, ao mesmo tempo, enfrenta um problema antigo de saneamento básico.
Segundo Delfino, a área convivia com uma equação difícil para qualquer empreendimento mineral: a evaporação supera a precipitação, e a disponibilidade de água é limitada. Esse cenário, afirmou, ajudou a postergar por décadas a viabilização da mina. A pergunta central, portanto, era direta: “Como você faz uma operação de ouro com segurança hídrica em um local que não tem água?”.
A resposta encontrada pela companhia foi olhar para o efluente urbano não como passivo, mas como insumo. Antes do projeto, parte relevante do esgoto doméstico coletado recebia apenas remoção simples de sólidos e seguia para um rio local. A partir dali, o efluente poderia alcançar reservatórios usados no abastecimento, ampliando riscos ambientais e de saúde pública. Para Delfino, o ponto de partida foi justamente converter esse fluxo em fonte de água industrial, evitando tanto o descarte inadequado quanto a retirada de água nova do ambiente.
“Resolvemos um problema socioambiental, que é do Estado, que é do Governo, para de colocar esgoto no rio, nos açudes, recuperamos essa água, não impactamos a população retirando água nova do meio ambiente, numa região em que não existe água, e paramos de gerar doenças, insetos, entre outros”, explicou.

Depois de adquirir o projeto, em setembro de 2022, a Aura Minerals decidiu bancar uma solução própria para a questão hídrica. O investimento foi de US$ 8 milhões, valor equivalente, à época, a cerca de R$ 40 milhões a R$ 45 milhões. Os recursos foram destinados à implantação de uma adutora de 27 quilômetros e de uma estação de tratamento de esgoto construída para atender à operação mineral.
A adutora capta o esgoto bruto que antes seria destinado ao rio e o conduz até a área industrial. Na estação, o efluente passa por tratamento antes de ser incorporado ao circuito da mina. De acordo com os dados apresentados por Delfino, o processo remove 100% dos coliformes, 91% dos sólidos e reduz a turbidez em mais de 97%. A água resultante não é potável, mas atinge os parâmetros necessários para uso industrial, em especial no processo de lixiviação do ouro.
“Hoje, 100% de toda a água que roda, que opera dentro da indústria, é proveniente do esgoto de Currais Novos, uma solução que impactava diretamente a população e hoje não impacta mais, e conseguimos empregar pessoas com a água que antes era jogada no rio”, afirmou o gerente da Aura Borborema.
O desenho operacional também reduz perdas e elimina a necessidade de barragem de rejeitos. A água tratada entra no processo, o rejeito é filtrado e empilhado a seco, e a fração líquida recuperada retorna ao circuito. O esgoto tratado repõe, sobretudo, as perdas por evaporação, fator crítico em uma região semiárida. Com isso, a operação passou a ter uma fonte contínua de água de reuso, menos sujeita à sazonalidade das chuvas.
No primeiro ano de operação, a unidade tratou mais de 218 mil metros cúbicos de esgoto. Para a Aura Minerals, o resultado vai além da engenharia: a solução contribuiu para a aceitação do empreendimento pela comunidade, ao associar a atividade mineral à melhoria ambiental e à geração de empregos. Max Delfino comparou esse modelo com ciclos anteriores de atividade dependente da chuva, nos quais a contratação oscilava conforme a disponibilidade hídrica: “chovia, minerava; para de chover, demite todo mundo”.
A participação do poder público, segundo o executivo, ocorreu no campo institucional e de licenciamento, mas não no financiamento da solução. Questionado sobre o tema, ele respondeu: “Cem por cento privado. Tivemos a parceria, logicamente, com a questão das licenças, a questão de todo o processo de fazer, mas o investimento, a construção, a manutenção, a operação, toda cem por cento por nós”.
A mina, inicialmente projetada para 13 anos de vida útil, passou a ter horizonte estimado entre 25 e 30 anos, o que abre espaço para ampliar a captação e o tratamento de esgoto ao longo do tempo. Sobre o destino da estação após o fechamento da operação, Max disse que a transferência da estrutura ao poder público está em análise, dentro da ideia de deixar um legado para a região.
“Esse processo é transitório, volta para o poder público, uma vez que já é de sua responsabilidade. Nós não assumimos o papel do poder público: estamos retirando o esgoto, tratando e gerando oportunidade de desenvolvimento para a região com essa solução”, concluiu.
