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A importância da questão social no financiamento de projetos

Brasil Mineral 458Páginas 34-37
A importância da questão social no financiamento de projetos

A gestão social deixou de ser diferencial competitivo para se tornar condição obrigatória no financiamento de projetos de mineração. Em palestra no evento da Brasil Mineral, José Ricardo Thibes Pisani, head de exploração mineral da Prisma Capital e vice-presidente da Comissão Brasileira de Recursos e Reservas (CBRR), afirmou que projetos tecnicamente sólidos estão sendo descartados por fundos de investimento devido a riscos socioambientais mal equacionados. A percepção de risco associada a conflitos comunitários pode elevar em até 10% o custo de financiamento, comprometendo significativamente o valor presente líquido dos empreendimentos.

O projeto precisa estar "envelopado"

Com mais de 35 anos de experiência no setor mineral, José Ricardo Thibes Pisani trouxe uma perspectiva prática sobre o que separa projetos que conseguem financiamento daqueles que permanecem estagnados. Para ele, a recorrente pergunta em grupos do setor — "por que são sempre as mesmas empresas que conseguem atrair investidor?" — tem resposta direta: organização e conformidade em múltiplas dimensões.

"O projeto tem que estar muito bem envelopado. Então começa com projeto bom, mas um projeto bom não é suficiente pra atrair o investidor", afirmou. Além dos requisitos técnicos tradicionais — dados geológicos, estimativas de recursos, engenharia de processo, infraestrutura, análises de mercado e projeções de CAPEX e OPEX —, existe hoje um conjunto de fatores que funcionam como "deal breakers", capazes de inviabilizar negociações mesmo quando os fundamentos técnicos são sólidos.

Na visão do palestrante, a questão socioambiental atingiu tal nível de maturidade que deixou de figurar entre as preocupações explícitas dos executivos simplesmente porque se tornou pressuposto básico. "Se você não estiver protegido com esse guarda-chuva, não vai conseguir atrair qualquer tipo de investimento", destacou, mencionando que isso vale independentemente da modalidade de captação — seja IPO, empréstimo bancário ou fundos do BNDES.

O paralelo com o escândalo Bre-X

José Ricardo Tibes Pisani traçou um paralelo histórico para ilustrar como determinadas exigências se incorporam definitivamente às práticas do setor. Na década de 1990, após o escândalo Bre-X — fraude envolvendo reservas de ouro na Indonésia que abalou mercados globais —, a certificação de recursos minerais por profissionais qualificados e dentro de normas internacionais tornou-se mandatória. Hoje, essa exigência está tão internalizada que projetos sem dados organizados conforme padrões aceitos internacionalmente sequer são analisados.

José Ricardo Thibes Pisani
José Ricardo Thibes Pisani

"Se você chegar hoje em um fundo com projeto do qual não tem os dados organizados que permitam, no mínimo, avaliar dentro do padrão que é aceito internacionalmente, o fundo nem olha, já vai para o dead deal, de cara", explicou o executivo da Prisma Capital.

O mesmo processo de incorporação está ocorrendo com as questões socioambientais. A diferença é que, enquanto a certificação técnica de recursos é verificável por documentação, a gestão social demanda avaliação mais complexa e contínua.

Não basta estar legal, é preciso "se mostrar legal"

Um dos pontos centrais da apresentação foi a distinção entre conformidade documental e legitimidade perante as comunidades. José Ricardo Thibes Pisani utilizou uma expressão corrente na Prisma Capital para sintetizar essa diferença: "Não é só a questão de você estar legal, você tem que se mostrar legal também."

Possuir autorizações de órgãos ambientais não garante imunidade contra protestos ou interrupções operacionais. "Se você não tiver confiança que aquele papel é só mais um papel e amanhã, de qualquer forma, aquele papel não vai barrar um protesto na porta do seu empreendimento, do seu projeto, ele não vai avançar", afirmou.

Essa análise de risco social deve contemplar três dimensões temporais: o passado (histórico de relacionamento com a comunidade), o presente (situação atual das relações) e, principalmente, o "day after" — ou seja, quais ações serão necessárias para manter a situação sob controle ao longo da vida útil do projeto. Esses elementos precisam estar incorporados às projeções econômicas, sob pena de comprometer as estimativas de retorno.

Impacto financeiro concreto

José Ricardo Thibes Pisani apresentou dados de estudos internacionais que quantificam o impacto da gestão social no custo de capital. Projetos bem estruturados, com licença social para operar, podem ter custo de financiamento entre 6% e 10% inferior a projetos com deficiências nessa área. "Isso pode representar mais de 30, 40% do teu VPL, se você aumentar 5, 6% na taxa de desconto do seu projeto", calculou.

O executivo também mencionou que a Prisma Capital tem recusado projetos tecnicamente promissores devido a riscos socioambientais. "A gente tá abrindo mão de alguns projetos muito interessantes que a gente sabe que tem ali dinheiro na mesa, ou seja, se você investir, cê vai ter retorno do investimento, mas não avança porque o risco ele aumenta muito", revelou.

Além das questões socioambientais, José Ricardo Thibes Pisani destacou outros fatores que hoje compõem a análise de risco: compliance, conhecimento sobre os parceiros de negócio ("know your partner") — especialmente relevante diante de escândalos recentes no mercado financeiro — e valuations realistas. Propostas com avaliações infladas, como "direito mineral sem furo de sonda valendo um bilhão de dólares", chegam diariamente e são imediatamente descartadas.

Monitoramento dinâmico e contínuo

O palestrante ressaltou que a gestão social não pode ser estática. Empreendimentos minerais frequentemente modificam seu entorno ao longo do tempo, criando comunidades que não existiam no início das operações. "Se o teu empreendimento é de longo prazo e é um empreendimento sério, você vai criar uma comunidade ao redor do seu empreendimento que não estava lá no começo", observou.

José Ricardo Thibes Pisani citou o Quadrilátero Ferrífero como exemplo de situação complexa, onde a proximidade de operações minerais com áreas urbanas representa o que ele chamou de "bomba-relógio ativada", demandando monitoramento constante. Também mencionou casos internacionais, como o de uma operação na Austrália interrompida por invasão de caverna histórica, para ilustrar como falhas na gestão socioambiental geram custos de imagem, reputacionais e financeiros.

O executivo encerrou sua apresentação reforçando que, no atual ambiente de investimentos, a hierarquia de prioridades coloca a preservação do capital à frente dos ganhos. "Prioridade um, não perder dinheiro; prioridade dois, não perder dinheiro; prioridade três, não perder dinheiro; prioridade quatro, não perder dinheiro. A partir da prioridade cinco, é ganhar dinheiro", resumiu, concluindo que a questão social constitui hoje um "alicerce para a viabilidade financeira" de qualquer projeto mineral.

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