Minerais críticos como ativos estratégicos
Usmar foi além do discurso institucional, ao contextualizar o momento histórico. "Sob uma perspectiva ocidental, fomos, de certa forma, beneficiários inconscientes de um fornecimento confiável e de baixo custo por muito tempo. E isso está começando a se romper", disse ele. Para o CEO, conflitos no Oriente Médio e pressões sobre cadeias de suprimento globais estão tornando a segurança mineral uma prioridade estratégica de primeira ordem — e colocando a VBM em posição privilegiada.
Já a Chief Commercial Officer, Tina Gauthier, reforçou o diagnóstico com dados concretos. "Estamos vendo uma convergência de sistemas de energia, geopolítica e política industrial, o que deixa evidente que minerais críticos estão deixando de ser commodities e passando a ser ativos estratégicos", afirmou. Segundo ela, a demanda global por cobre deve crescer cerca de 50% até 2040, impulsionada pela eletrificação: veículos elétricos exigem quase três vezes mais cobre do que automóveis convencionais, e a demanda de eletricidade de data centers nos Estados Unidos pode saltar de 5% para 14% do total do país até 2030. No níquel, Gauthier projetou aumento de 42% na demanda ao longo da próxima década, com crescimento de 29% especificamente no segmento de alto valor — exatamente onde a VBM concentra sua atuação.

Para Marcelo Bacci, CFO da Vale S.A., "a VBM é um pilar muito importante e estratégico da Companhia, e vem ganhando cada vez mais relevância ao longo do tempo". Em sua visão, a companhia opera como um "negócio de dois motores": de um lado, o minério de ferro — robusto, de baixo crescimento, com produção entre 335 e 345 milhões de toneladas e meta de chegar a 360 milhões; de outro, a VBM — um negócio de metais básicos de rápido crescimento, com potencial de expansão orgânica de 4% a 6% ao ano.

Os números já refletem essa virada. Em 2024, a VBM representava 10% do EBITDA da Vale. Para 2025, a projeção sobe para cerca de 26%, com potencial de alcançar 30% a 35% no longo prazo. "Isso fará com que o negócio de metais básicos, como percentual do EBITDA total da Vale, seja muito semelhante ao que representa nos outros players diversificados", explicou Bacci, apontando que os concorrentes globais registram participação entre 25% e 45% nesse segmento.

Bacci também foi enfático sobre a capacidade de crescimento orgânico na região de Carajás, onde a VBM opera há mais de 40 anos. "Temos as pessoas, a infraestrutura, o conhecimento, as relações, temos todas as condições para entregar esse crescimento. E isso é sustentado por um potencial significativo de recursos, que nos dará ainda mais escala no futuro."

A aposta no cobre

Um destaque da VBM é o roadmap de crescimento em cobre, em que a meta é atingir 700 mil toneladas de produção anual até 2035, partindo das 382 mil toneladas entregues em 2025 — ano em que a companhia superou o guidance pela primeira vez em uma década.

Usmar foi preciso ao descrever o ponto de partida quando assumiu o cargo, em outubro de 2024. "Este negócio não atingia guidance há uma década. Precisávamos acertar isso primeiro." Em seguida, veio a reestruturação, quando se registrou mais de US$ 400 milhões em melhorias de caixa com a redução de despesas gerais globais, adoção de modelo descentralizado e inversão da lógica de gestão — da complexidade para o básico. Como resultado, houve uma melhora de US$ 1,9 bilhão no EBITDA em relação ao ano anterior. Desse total, segundo Usmar, cerca de US$ 850 milhões decorreram diretamente de ação gerencial.

O Chief Technical Officer, Chris McCleave, apresentou o portfólio de projetos que sustenta a meta de 700 mil toneladas. "O que vocês vão ouvir de mim hoje não é uma lista de desejos. É um portfólio de projetos reais, em diferentes estágios de maturidade, que, em conjunto, sustentam uma história crível de crescimento em cobre", disse ele, fixando três mensagens centrais: há um plano claro e executável; existe potencial crível além das 700 mil toneladas; e a forma de trabalhar foi fundamentalmente alterada.

Entre os projetos, o executivo destaca Bacaba — âncora de curto prazo no Hub Sul, em execução, com aproximadamente 23% de conclusão física. Ele informa que o capital do projeto foi reduzido pela metade em relação ao estudo de viabilidade original, sem aumento de custos operacionais. A taxa interna de retorno saltou de cerca

de 15% para mais de 60%. "Isso mostra que simplificação disciplinada, parcerias fortes, decisões técnicas melhores e execução integrada podem destravar valor e, ao mesmo tempo, reduzir risco", afirmou McCleave.

Outro projeto de destaque foi o projeto Alemão, redesenhado de cava a céu aberto para operação subterrânea por subníveis com realces abertos. A mudança gerou cerca de US$ 500 milhões em otimização de CAPEX, com produção estimada em 80 mil toneladas de cobre e 140 mil onças de ouro por ano. "A licença prévia foi requerida em outubro de 2025 e estamos atuando de forma antecipada para mitigar riscos", disse McCleave.

No Hub Norte, o projeto Paulo Afonso emerge como o próximo grande passo: cava convencional a céu aberto, planta de 12 milhões de toneladas por ano, produção estimada de 80 mil toneladas de cobre e potencial de 16 anos de vida útil.

No Canadá, a joint venture Victor NRSE com a Glencore, em Sudbury, projeta produção de 50 mil toneladas de cobre por ano, com mais de 20 anos de vida útil — além de níquel, ouro, platina e paládio.

Uma das inovações técnicas mais comentadas pelo executivo da VBM foi a Coarse Particle Flotation (CPF), tecnologia que remove estéril mais cedo no processo de beneficiamento, antes da moagem fina, liberando capacidade ao longo de toda a cadeia. Em Salobo, a CPF aumentará a capacidade de processamento em cerca de 6 milhões de toneladas por ano, reduzirá o consumo

específico de energia em aproximadamente 10% e gerará cerca de 30 mil toneladas adicionais de cobre por ano. "O ponto-chave da tecnologia CPF não é apenas Salobo, mas sua escalabilidade", destacou McCleave. "Ela pode ser implementada gradualmente em vários de nossos concentradores ao longo do tempo."

Os desafios no níquel

Se o cobre foi a vedete na estratégia de crescimento da VBM, o níquel ocupou o papel de ativo estratégico sob pressão — mas também de oportunidade de reposicionamento. Gauthier resumiu o paradoxo: a Indonésia hoje fornece 65% do níquel mundial, e a VBM se encontra, nas palavras de Usmar, "entre a oferta da Rússia e a da China. Essencialmente, somos um dos últimos fornecedores ocidentais."

Os produtos de níquel de alta qualidade da VBM representaram, em 2025, quase 50% do consumo do metal nos Estados Unidos em aplicações de alto valor fora do segmento de aço inoxidável. A companhia opera cinco instalações de refino de níquel geograficamente diversas, produz o maior volume de níquel refinado fora da Ásia e da Rússia e é o maior fornecedor de níquel metálico para os mercados ocidentais a partir de refinarias no Canadá.

Nossos produtos de níquel metálico atraem consistentemente prêmios acima do preço do níquel da LME", afirmou Gauthier, acrescentando que 69% do níquel produzido pela VBM está no primeiro quartil em intensidade de carbono. "Baixo carbono não é apenas um atributo de sustentabilidade para nós. Acreditamos que se tornará uma fonte de diferenciação em onde e como colocamos nossos volumes de níquel.

A jornada de competitividade em níquel, porém, ainda não está concluída. O CFO Murilo Muller foi transparente ao apresentar o all-in cost da operação polimetálica: encerrado em US$ 17,3 mil por tonelada de níquel em 2025, depois de uma melhora expressiva em relação a US$ 25 mil em 2024. "Isso não é suficiente. Queremos ir além", admitiu. Um programa

interno lançado em agosto do ano passado mira o breakeven de fluxo de caixa mesmo em cenários de preços historicamente baixos. Porém, ele foi cauteloso quanto aos prazos: "Este é um negócio de médio a longo prazo. Não tomamos decisões de tempos em tempos; precisamos avançar de forma consistente."
A tarefa mais difícil

O Chief Operating Officer Alfredo Santana apresentou o que chamou de a tarefa mais difícil na mineração: "A coisa mais difícil não é ter um trimestre forte ou até mesmo um ano forte. A coisa mais difícil, na verdade, é tornar a boa performance repetitiva." Em sua visão, a VBM atravessou uma primeira fase de restauração de performance (2022–2025) e agora entra na etapa de consolidação: "seguro, estável, capaz e repetível."
Os números operacionais reforçam a narrativa. Salobo atingiu recorde histórico em 2025: 217 mil toneladas de cobre e quase 400 mil onças de ouro. O processamento da planta cresceu 40% e o movimento de mina, 13%. Em Sossego, a utilização de caminhões subiu quase 20% e o processamento da

planta melhorou 10%. Onça Puma, planta de ferro-níquel no Pará, aumentou a disponibilidade em 30% e o teor de níquel no produto em 20%, com ramp-up do segundo forno entregue antes do cronograma e dentro do orçamento. Em Sudbury, o minério extraído cresceu mais de 40% e o processamento da planta avançou 25%, com a meta de atingir entre 5,5 e 6 milhões de toneladas neste ano. Long Harbour alcançou seu melhor resultado em seus 11 anos de operação.
Em segurança, Santana destacou uma transformação cultural: a taxa de frequência de lesões registráveis (TRIFR) caiu de acima de 7 para abaixo de 2, mantida nos últimos três anos. Incidentes de processos críticos foram reduzidos em cerca de 70%. "Segurança é a condição que permite performance sustentável", afirmou. "Não tivemos vidas perdidas ou alteradas há mais de dois anos."
Sustentabilidade como alavanca de negócio
Para Laura Brooks, Diretora de Sustentabilidade, a VBM tem adotado uma abordagem de quatro eixos — excelência operacional, habilitação do pipeline de crescimento, certificações e transparência — estruturada não como obrigação regulatória, mas como pilar de geração de valor.
Na mina de Sossego, reclamações de comunidades sobre ruído, poeira e vibração caíram 60% em dois anos após a adoção de fóruns de engajamento e ajustes nas práticas de desmonte. O emprego local cresceu 138%. Em Sudbury, a introdução de veículos elétricos a bateria em operações subterrâneas melhorou a qualidade do ar e reduziu o ruído. No projeto Alemão, estudos de trade-off multifatorial permitiram reduzir o tamanho das estruturas de rejeitos pela metade e diminuir a pegada total do projeto em 34%, ao mesmo tempo em que reduziram riscos.
No campo das emissões, Brooks informou que 92% do cobre produzido pela VBM e 69% do níquel estão no primeiro quartil em intensidade de carbono, com redução de 22% nas emissões absolutas de escopos 1 e 2 em relação à linha de base de 2017. A companhia também anunciou conformidade de 98% com o padrão global de gestão de rejeitos (GISTM), com compromisso de fechar o percentual restante até maio de 2026, e publicou seu primeiro relatório de sustentabilidade.
Finanças: balanço forte, crescimento autofinanciado
Segundo Murilo Muller, os dados financeiros sustentam a trajetória de crescimento da VBM. Em 2025, o EBITDA mais que dobrou em relação a 2024, com cerca de US$ 800 milhões oriundos de melhorias internas — aproximadamente US$ 500 milhões de redução de overheads e descentralização, e cerca de US$ 300 milhões de aumento de volumes. O CAPEX caiu de US$ 1,9 bilhão para US$ 1,6 bilhão, com US$ 200 milhões dessa redução atribuídos a melhorias de processo e eficiência na gestão de projetos.
A dívida líquida encerrou 2025 em cerca de US$ 1,2 bilhão, com índice Dívida Líquida/EBITDA de 0,4x. Para 2026, considerando o cenário mais pessimista de preços de consenso, a projeção ainda aponta para geração de fluxo de caixa positivo de cerca de US$ 400 milhões. No cenário mais otimista, o número se aproxima de US$ 2 bilhões.
Somos realmente uma empresa totalmente autossustentável e autofinanciada. Não recebemos nenhum dinheiro adicional dos acionistas desde o carve-out", afirmou Muller. "Queremos estar bem protegidos no nosso balanço para financiar esse crescimento.

