"A mineração nunca esteve tão no centro do mundo — e nunca foi tão mal compreendida". Foi com essa contradição na mesa que Gustavo Pimenta, CEO da Vale, subiu ao palco da convenção PDAC 2026 para apresentar a estratégia que pretende reposicionar não apenas a maior produtora de minério de ferro do planeta, mas o setor como um todo. Em uma apresentação densa, que atravessou tecnologia, meio ambiente, geopolítica e responsabilidade social, Pimenta foi direto ao ponto central de seu argumento: ser essencial não é suficiente.
"Sempre que somos questionados, dizemos que não existe IA sem nós. Não existe. Mas isso não é suficiente. Simplesmente não
podemos ficar parados numa conversa em que dizemos às pessoas: 'Desculpe, mas vocês precisam da mineração'. Precisamos ir além disso. Precisamos nos tornar em algo mais, além de dizer que somos essenciais", afirmou o executivo.
O paradoxo de uma indústria indispensável e desvalorizada
O ponto de partida de Pimenta foi o retrato de uma indústria que move o mundo, mas não move os mercados financeiros. Com dados precisos, ele ilustrou a disparidade que considera um dos maiores problemas estruturais do setor.

"Antes de vir para cá, eu estava verificando o valor de mercado da Nvidia em comparação com o nosso. Quatro trilhões e trezentos bilhões de dólares. Esse era o valor de mercado da Nvidia no início de março de 2026. A soma do valor de mercado das trezentas maiores empresas de mineração do mundo é de três trilhões e trezentos bilhões de dólares. Portanto, é menor do que o de uma única empresa do setor tecnológico", declarou. "Certamente, isso é algo desequilibrado."
Para o CEO, a raiz dessa desconexão não está apenas nas expectativas de preço ou nos ciclos de commodities. Está na percepção pública. Citando uma pesquisa da Global Scan realizada em 24 países, Pimenta apontou que a mineração ocupa posições críticas quando avaliada em termos de responsabilidade social. "Para mim, esta é uma das questões fundamentais que precisamos abordar. Isso terá um impacto enorme, não só na avaliação, mas principalmente em nossa licença para operar."
O diagnóstico, segundo ele, é agravado pela falta de interesse histórico da sociedade pelo setor. "As pessoas não se importavam muito com o que fazemos. Elas só queriam iPhones, computadores, e poder voar de um lugar para o outro." O que mudou, observou Pimenta, foi a percepção de que sem minerais críticos não há Inteligência Artificial, não há transição energética, não há eletrificação. A busca por "minerais críticos" no Google, segundo ele, cresceu de forma exponencial a partir de 2016. "Você vê isso como o aumento do interesse da sociedade no que fazemos, que é imenso agora."

Cinco eixos para a mineração do futuro
A resposta da Vale a esse cenário, se-
gundo Pimenta, está estruturada no que chamou de "mineração do futuro" — uma visão operacional e estratégica organizada em cinco frentes:

1. Tecnologia e digitalização
O primeiro eixo é a aceleração tecnológica. Para Pimenta, o setor ainda está "dando os primeiros passos" nessa área. Ele mencionou que a Vale opera a mina de Brucutu, em Minas Gerais, de forma totalmente autônoma, e a operação foi recentemente agraciada com o Prêmio Shingo — descrito pelo CEO como "o Prêmio Nobel em termos de excelência operacional". É a primeira mina da América Latina a receber essa distinção.
"O que eu digo à minha equipe é que existem pessoas por aí fazendo coisas assim. Então, não consigo acreditar que não possamos fazer mais com nossos próprios ativos fixos", disse. Para ele, a digitalização não é apenas uma questão de eficiência, mas de segurança: "Caminhar em direção a esse futuro não é apenas a coisa certa a se fazer porque é mais seguro, mas também porque é mais produtivo e eficiente."

2. Mineração minimamente invasiva
O segundo eixo é ambiental, e Pimenta o ilustrou com um exemplo que considera emblemático e, segundo ele, frequentemente contra intuitivo para o público em geral. A Vale opera há quarenta anos na Floresta Nacional de Carajás, no coração da Amazônia, numa área de 800 mil hectares — doze vezes o tamanho de Toronto, cinco vezes o tamanho de Londres. O compromisso assumido com o governo brasileiro foi usar apenas 2 a 3% desse território.
"Quarenta anos depois, vocês podem ver o que aconteceu com aquela área. Tudo foi devastado fora da área que protegemos", afirmou, exibindo imagens de satélite. A preservação foi garantida por tecnologia, segurança privada e parceria com a Polícia Federal brasileira. Nos últimos três anos, segundo o CEO, houve mais de quinhentas tentativas de invasão por garimpeiros ilegais.

O ponto que sempre destacamos, e às vezes é contra intuitivo para a sociedade, é que a mineração protege o meio ambiente e a floresta", disse ele. A lógica, explicou, é econômica: ao justificar a exploração de 2 a 3% da floresta, geram-se recursos suficientes para proteger o restante. "Nenhum governo tem recursos suficientes para protegê-la.
Quanto ao futuro das operações em geral, o CEO foi ambicioso: "O futuro da mineração será um futuro onde geramos zero resíduos, zero rejeitos e zero carbono."
3. Descarbonização das operações

O terceiro eixo é a transição para energia limpa. A Vale definiu a meta de redução de um terço nas emissões de Escopos 1 e 2 até 2030 e, segundo Pimenta, está "quase lá". No Brasil, a empresa consome aproximadamente 2% do total do diesel nacional e explora alternativas como o etanol para sua frota de caminhões.
O desafio maior, admitiu o executivo, está no Escopo 3 — as emissões da cadeia de valor, em especial a indústria siderúrgica. "Se analisarmos toda a nossa emissão de CO₂, mais de 95% provém do setor siderúrgico." Para enfrentar esse problema, a Vale trabalha em duas frentes: o desenvolvimento de novos produtos — como o briquete verde, um grânulo de aglomeração a frio que reduz o consumo de energia no alto-forno — e os chamados mega hubs, centros siderúrgicos em regiões com acesso a energia limpa barata, como o Oriente Médio, os EUA e, no futuro, o Brasil com hidrogênio verde.
O acidente de Brumadinho, em 2019, foi citado por Pimenta como um divisor de águas que acelerou essa transformação internamente. "Fomos forçados a isso. Tivemos um acidente traumático e trágico em 2019 em Brumadinho, que nos obrigou

a repensar completamente as operações de mineração." Hoje, 85% da produção da Vale é realizada sem barragens, pelo método de empilhamento a seco. No ano passado, a empresa produziu 26 milhões de toneladas em regime circular, com meta de alcançar 10% da produção total por esse método.
4. Compartilhamento de valor com as comunidades
O quarto eixo é talvez o mais incomum para uma empresa do porte da Vale — e o que Pimenta defende com maior ênfase pessoal. Em 2021, a companhia anunciou o compromisso de tirar 500 mil pessoas da pobreza nas regiões onde opera.

Muitos dos meus acionistas perguntaram: 'Ah, é isso?' e 'Vamos contratar essas pessoas?'", recordou. "Não se trata apenas de dinheiro; trata-se de ajudá-las. Cada região tem um desafio específico. Às vezes é educação, às vezes são oportunidades de emprego, às vezes elas só precisam comer para sobreviver.
O programa, desenvolvido em parceria metodológica com a Universidade de Oxford, já levou 52 mil pessoas a superar o limiar de pobreza segundo padrões internacionais. "Sabemos o número de segurança social de cada uma das cinquenta e duas mil pessoas que, segundo padrões internacionais de mensuração, saíram da pobreza", afirmou o CEO.
O sonho declarado de Pimenta é transformar a relação entre mineradora e território: "Meu sonho é que amanhã, alguns desses estados e cidades onde atuamos, digam: 'Vale, por favor, venha para cá, porque vocês tornam minha vida melhor'. Vocês não estão aqui apenas para extrair e ganhar dinheiro."

5. A força de trabalho do futuro
O quinto eixo trata da renovação do capital humano. Para Pimenta, a transição tecnológica exige uma nova geração de profissionais — sem, contudo, desprezar a experiência acumulada pelos trabalhadores seniores.
"Os engenheiros que estão chegando precisam ser capazes de lidar com IA e

encontrar maneiras de serem mais produtivos. Portanto, é necessária uma nova força de trabalho coexistindo com a força de trabalho sênior experiente que já está nas empresas", disse. Sobre diversidade, o CEO foi enfático ao afirmar que a empresa não mudou suas convicções por pressões externas: "Não mudamos o que acreditamos ser o certo só por causa de mudanças aqui e ali nas diretrizes do governo." A meta de representação feminina foi dobrada de 13% para 26%.
A estratégia de negócios: foco em três commodities
Toda essa agenda de transformação está ancorada em uma estratégia comercial deliberadamente concentrada: minério de ferro, cobre e níquel. A escolha não é por falta de ambição, mas por disciplina.

Em 2010, a Vale era a segunda maior empresa de minério de ferro do mundo, com um valor de mercado de 170 bilhões de dólares. Dezesseis anos depois, não estamos mais entre as 10 maiores", reconheceu Pimenta. O diagnóstico é direto: "Cometemos alguns erros, principalmente focar em commodities que não sabíamos como processar e em locais de difícil operação.
No minério de ferro, a Vale retomou no ano passado a posição de maior produtora mundial, com 336 milhões de toneladas, e mira 360 milhões. A vantagem competitiva é estrutural: a empresa possui vinte instalações de mistura em todo o mundo e entrega minério na China por cerca de cinquenta dólares a tonelada, com preço de mercado em torno de cem dólares. "Se você pensar em cem menos cinquenta, trezentos e sessenta milhões de toneladas, são quase quinze bilhões de dólares de EBITDA anual com o minério a cem dólares", calculou o CEO.

Sobre o temido impacto de Simandou — o megaprojeto de minério de ferro na Guiné que preocupa o mercado — e a desaceleração da China, Pimenta manteve tom cauteloso, mas otimista. Citou Índia, Taiwan e outros mercados emergentes como nova base de demanda sólida, além do esgotamento natural das reservas globais. "Há um esgotamento anual de cerca de seis a oito milhões de toneladas no setor. As minas estão ficando mais antigas. Está se tornando mais caro desenvolvê-las."
No cobre, a Vale produziu cerca de 380 mil toneladas no último ano e Pimenta vê potencial de dobrar ou superar esse volume, aproveitando a infraestrutura já existente.
A intensidade de capital da Vale para novos projetos é, segundo o CEO, cerca de 20% abaixo da média do setor — uma vantagem que ele considera determinante para a geração de retornos. Como exemplo, citou o projeto 120+, previsto para este ano na região norte: "O custo C1 de entrega no porto é de quatorze dólares. Esse é o menor valor globalmente no setor, com um teor de Fe de 65%."

No níquel, Pimenta reconheceu os desafios dos últimos anos, mas destacou a singularidade estratégica do negócio: "Somos o maior produtor de níquel no Hemisfério Ocidental. Isso é muito estratégico e continua sendo um ativo importante para nós."
Questionado sobre a possibilidade de diversificar para outras commodities — como potássio, no caso da BHP, ou lítio, no caso da Rio Tinto —, o CEO foi firme: "Não acho que haja outra oportunidade melhor que devamos aproveitar. Se pudermos dobrar o tamanho do negócio corporativo, com uma intensidade de capital 20% menor, é aí que nosso dinheiro deve estar." Ele informou que a empresa participa com 25% de um fundo de um bilhão de reais do BNDES voltado ao desenvolvimento de minerais críticos no Brasil, mas esclareceu que o papel da Vale é de patrocinador e não de operador.
Da essencialidade à prosperidade compartilhada
Ao encerrar sua apresentação, Pimenta voltou à questão que estruturou todo o argumento. O progresso nos indicadores de segurança, nas classificações ESG — MSCI, ISS Sustainability, entre outras —, e na percepção pública da empresa são sinais de que a jornada está no caminho certo. Mas ele foi o primeiro a relativizar os avanços: "Ainda é ruim, sejamos claros. Estamos substancialmente abaixo do que eu acho que deveríamos estar."
A transformação cultural interna, iniciada após Brumadinho, é tratada como alicerce de tudo o mais. "Percebemos que o acidente não era um problema de engenharia. Era um problema cultural que tínhamos que atacar e resolver."
A métrica de sucesso que Pimenta propôs ao conselho de administração quando assumiu o cargo é reveladora do tom que quer imprimir à empresa: "Como queremos medir o nosso sucesso? Daqui a alguns anos, quando sairmos, vamos olhar para trás e sentir orgulho do que conquistamos."
A resposta que ele mesmo constrói ao longo da apresentação sugere que orgulho, para a Vale, significa ser uma empresa economicamente competitiva, ambientalmente responsável e socialmente reconhecida — não pela necessidade do que extrai do solo, mas pelo que devolve ao mundo acima dele.
"Nos próximos anos, teremos que ser capazes de deixar de ser apenas essenciais para nos tornarmos uma empresa que realmente se importa e impulsiona a prosperidade compartilhada. Essa é a nossa missão e é nisso que estamos trabalhando na Vale", concluiu Pimenta.

