Edição 457 - Ver índice

Brasil Mineral - Edição 457

Maio 2026
Ler como:
Revista
Artigo
Circularidade em escala: como a Vale transforma rejeitos em valor

VALE

Circularidade em escala: como a Vale transforma rejeitos em valor

Ao incorporar a circularidade ao centro da estratégia de negócio, a Vale amplia o reaproveitamento de materiais, desenvolve novos produtos, conecta cadeias produtivas e reforça o papel da mineração como agente de transformação econômica, ambiental e territorial.

Por Mara Fornari

Brasil Mineral 457Maio 2026Páginas 40-49

A mineração vive em evolução contínua, impulsionada por inovação, tecnologia e uma nova forma de gerar valor. Na Vale, isso se traduz na estratégia da Mineração do Futuro, que reúne circularidade, operações inteligentes, menor impacto, mais segurança e compartilhamento de valor como bases de um modelo cada vez mais responsável e em sintonia com o que a sociedade espera de nós" – a afirmação de Rafael Bittar, vice-presidente executivo Técnico da Vale, funciona como ponto de partida para compreender uma mudança que vem ganhando profundidade dentro da indústria mineral e que, nos últimos anos, passou a ocupar posição estratégica no planejamento das grandes mineradoras.

Durante muito tempo, o setor foi marcado por uma lógica produtiva linear, centrada na extração, beneficiamento e destinação final dos materiais resultantes do processo mineral. Nesse modelo, rejeitos e estéreis eram normalmente tratados como consequência inevitável da operação, associados principalmente à disposição segura e à gestão ambiental. Hoje, esse entendimento começa a ser revisado sob uma nova perspectiva — mais tecnológica, mais integrada e, sobretudo, mais conectada às demandas contemporâneas por eficiência, descarbonização e melhor aproveitamento dos recursos naturais.

Na Vale, essa mudança de visão já se traduz em prática industrial. A mineração circular deixou de ser apenas um conceito em debate dentro da agenda ESG para assumir papel concreto dentro da estratégia de negócio da companhia. Mais do que uma agenda complementar, ela passou a integrar o que a empresa denomina Mineração do Futuro, uma plataforma estratégica que reúne circularidade, digitalização, automação, redução de impacto ambiental, segurança operacional e geração compartilhada de valor. Trata-se de uma abordagem que amplia o olhar sobre o processo produtivo e propõe uma mineração capaz de gerar mais valor com menos desperdício, estendendo a vida útil dos recursos e criando possibilidades de uso para materiais historicamente subaproveitados.

Os números ajudam a demonstrar a dimensão desse avanço. Em 2025, a Vale mais que dobrou a produção proveniente de fontes circulares, alcançando 26,3 milhões de toneladas de minério de ferro. O dado é relevante não apenas pelo volume em si, mas pelo que representa em termos de transformação operacional. O número sinaliza que a circularidade deixou de ocupar posição periférica para se consolidar como um vetor estruturante do negócio. A empresa passa a enxergar o reaproveitamento de materiais não apenas como solução ambiental, mas como mecanismo de eficiência produtiva, geração de receita, inovação tecnológica e abertura de novas frentes de mercado.

Essa mudança está associada a uma revisão mais ampla sobre o valor dos materiais ao longo de toda a cadeia produtiva. Se antes a lógica da mineração se encerrava no aproveitamento do minério economicamente viável, hoje a discussão passa a considerar o potencial de uso de materiais antes descartados em diferentes fases do processo. Na prática, isso significa ampliar a capacidade de recuperação mineral, desenvolver coprodutos, criar novos mercados consumidores e integrar a mineração a outras cadeias industriais.

Para a Vale, a evolução da mineração circular reflete justamente a transição de

Foto aérea mostrando área de mineração com estradas de terra vermelha em meio à floresta
Operação Vale em Carajás

um modelo linear para uma lógica orientada à maximização do uso de recursos ao longo de todo o ciclo produtivo. Dentro da companhia, essa agenda está diretamente incorporada à estratégia de Mineração do Futuro e se conecta a uma visão de longo prazo sobre inovação, competitividade e sustentabilidade. A circularidade passa, assim, a ser entendida como alavanca essencial para ampliar eficiência, gerar valor adicional e fortalecer a capacidade de transformação da mineração nos territórios onde ela está inserida.

Circularidade aplicada em escala industrial

O avanço dessa agenda se materializa em uma série de iniciativas já distribuídas pelas operações da companhia. A Vale afirma ter identificado cerca de 100 projetos de mineração circular em andamento, todos voltados ao aproveitamento de materiais e à geração de coprodutos com potencial econômico e industrial. Mais do que projetos experimentais, são iniciativas que vêm sendo incorporadas ao dia a dia operacional e que demonstram como a circularidade pode ser aplicada em escala.

Um dos exemplos mais representativos está no Gelado, em Carajás, no Pará. Na operação, rejeitos de minério de ferro vêm sendo reaproveitados por meio de dragas 100% elétricas, combinando recuperação mineral com ganhos ambientais associados à redução de emissões de CO₂ equivalente. O projeto simboliza bem a convergência entre circularidade e descarbonização: ao mesmo tempo em que recupera valor mineral contido no rejeito, reduz a intensidade de carbono associada à operação.

Outro caso emblemático está em Minas Gerais, na mina de Brucutu, em São Gonçalo do Rio Abaixo. Desde 2023, a Areia Sustentável Vale já ultrapassou 4 milhões de toneladas destinadas ao mercado. O material, originado do beneficiamento do minério, passa a ter aplicação como insumo alternativo e amplia o diálogo entre mineração e construção civil. Trata-se de uma iniciativa particularmente estratégica porque transforma um material residual em produto comercializável, gerando valor econômico adicional e criando novos fluxos de mercado.

Fotografia aérea de uma mina com caminhões de mineração transportando material próximo a pilhas de areia e vagões de trem, com montanhas ao fundo.
Produção de areia oriunda de rejeitos

Ainda em Minas, a Fábrica de Blocos da Mina do Pico reforça esse movimento, ao transformar rejeitos em blocos de pavimentação. A iniciativa exemplifica como a mineração circular pode transcender os limites da planta industrial e se conectar diretamente com soluções aplicadas à infraestrutura urbana e ao desenvolvimento local. Ao converter rejeitos em produtos destinados à pavimentação, cria-se não apenas um novo destino para o material, mas também uma nova narrativa sobre sua utilidade econômica e territorial.

As operações de Capanema e Vargem Grande também aparecem como referências importantes dentro dessa agenda. Segundo a companhia, esses casos demonstram o potencial de integrar segurança operacional, liberação de áreas, eficiência produtiva e geração de valor socioambiental dentro de um mesmo desenho estratégico. A circularidade, nesse contexto, deixa de ser uma solução isolada e passa a funcionar como elemento articulador entre diferentes objetivos da operação.

Os desafios para escalar a mineração circular

Ainda que os resultados sejam expressivos, a própria Vale reconhece que a mineração circular permanece como uma agenda em construção permanente. A escalabilidade das iniciativas depende de variáveis complexas, que envolvem fatores técnicos, econômicos, regulatórios, logísticos e mercadológicos.

Entre os principais desafios estão a adaptação de plantas industriais já existentes, a compatibilização entre os processos tradicionais de beneficiamento e as novas rotas de reaproveitamento, além da necessidade de viabilizar economicamente cada projeto em sua realidade específica. Também pesa o desenvolvimento de mercados consumidores capazes de absorver os coprodutos gerados. Sem demanda estruturada, muitos materiais tecnicamente viáveis podem encontrar dificuldade de expansão comercial.

Imagem do artigo - página 46

Questões regulatórias e logísticas também entram nessa equação. O transporte, a certificação, a padronização e o enquadramento normativo desses materiais são fatores decisivos para garantir escala e competitividade. Por isso, a Vale destaca que cada iniciativa é avaliada individualmente, levando em conta aderência à estratégia da companhia, viabilidade operacional e contexto de mercado.

Circularidade e descarbonização caminham juntas

Ao mesmo tempo, é impossível analisar esse movimento sem considerar o impacto crescente da agenda global de descarbonização sobre a indústria mineral. A pressão por redução de emissões vem acelerando transformações em toda a cadeia produtiva — da mineração à siderurgia, passando pela logística e pela indústria de base.

Nesse cenário, o reaproveitamento mineral ganha força como uma das alavancas possíveis para reduzir a intensidade de carbono. Ao ampliar o uso de materiais já movimentados pela operação e diminuir perdas ao longo do processo, a circularidade contribui diretamente para uma mineração mais eficiente do ponto de vista energético e ambiental.

Na Vale, essa conexão está especialmente representada pelo programa Waste to Value, criado para ampliar o aproveitamento de resíduos minerais e gerar novas aplicações industriais a partir desses materiais. O programa atua justamente nesse ponto de convergência entre eficiência operacional, inovação e redução de emissões, reforçando o papel da circularidade dentro da agenda climática da companhia.

Imagem do artigo - página 46

O reconhecimento externo veio em 2025. O programa de mineração circular da Vale foi selecionado pelo Business

Action Bank, iniciativa do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), como uma das cinco melhores práticas globais de descarbonização. A escolha posiciona a companhia entre referências internacionais no tema e projeta o debate sobre a mineração circular brasileira para além do ambiente doméstico.

O potencial brasileiro no cenário global

Esse reconhecimento também ajuda a ampliar a discussão sobre o potencial do Brasil nesse campo. Na avaliação da Vale, o país reúne condições particularmente favoráveis para assumir protagonismo global em soluções de circularidade aplicadas à mineração. A combinação entre abundância mineral, escala produtiva, tradição operacional e capacidade técnica cria ambiente propício para o desenvolvimento e a expansão dessas iniciativas.

A companhia vem buscando fortalecer esse posicionamento por meio de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento, além de parcerias com universidades, centros de pesquisa e instituições voltadas à inovação aplicada. O objetivo é acelerar o desenvolvimento de novas rotas de aproveitamento mineral, ampliar aplicações industriais e consolidar um ecossistema mais robusto em torno da circularidade.

Imagem do artigo - página 46

Mas a consolidação dessa agenda depende também de um fator cada vez mais sensível no ambiente corporativo contemporâneo: a credibilidade.

Com o crescimento das pautas ESG, também cresce o risco de determinados conceitos serem incorporados mais como narrativa institucional do que como transformação efetiva dos modelos produtivos. A mineração circular não está imune a esse debate.

A resposta da Vale para esse desafio passa justamente pela materialidade das iniciativas. A empresa reforça que a circularidade está sustentada por operações em andamento, indicadores concretos e resultados mensuráveis. Não se trata apenas de discurso ou reposicionamento conceitual. O tema está incorporado ao negócio, com implantação industrial e acompanhamento contínuo de desempenho. Esse caráter tangível tende a se aprofundar nos próximos anos.

Entre as iniciativas com maior potencial de expansão industrial dentro da estratégia de Mineração do Futuro estão a digitalização e a automação das operações, com ampliação do uso de centros remotos de operação, monitoramento contínuo, inteligência artificial e análise avançada de dados para suporte à tomada de decisão e aumento da confiabilidade operacional.

Embora frequentemente associadas ao ganho de produtividade e segurança, essas tecnologias também têm papel decisivo na circularidade. São elas que permitem rastrear materiais com maior precisão, otimizar processos, melhorar recuperação mineral e ampliar o controle sobre ativos e fluxos operacionais — condições essenciais para escalar modelos circulares.

Imagem do artigo - página 46

Novas cadeias de valor para a mineração

O impacto dessa transformação tende a extrapolar os limites da mineração. A economia circular abre espaço para o desenvolvimento de novas cadeias de negócios envolvendo siderurgia, construção civil, fertilizantes, minerais críticos e outros setores estratégicos. Esse movimento amplia a inserção econômica da mineração e fortalece modelos mais integrados entre indústria, infraestrutura e território.

A mineração deixa, assim, de se restringir à extração mineral e passa a ocupar papel mais amplo dentro da economia — conectando matérias-primas, inovação, infraestrutura e desenvolvimento regional. Talvez seja justamente nessa capacidade de conexão que esteja o principal indicador de sucesso da circularidade no longo prazo.

Mais do que reduzir rejeitos ou gerar receita incremental, a agenda da circularidade aponta para algo mais abrangente: a capacidade de produzir valor de forma integrada: valor econômico, ao desenvolver novos produtos e mercados; valor ambiental, ao ampliar o aproveitamento dos recursos e reduzir desperdícios; valor climático, ao contribuir para a redução da intensidade de carbono; e valor territorial, ao criar soluções conectadas ao desenvolvimento das regiões mineradoras.

Foto aérea mostrando complexo industrial de mineração cercado por floresta densa, com um grande reservatório de água ao fundo e cavas de mineração visíveis na paisagem.
Vista da usina de Salobo

Na visão da Vale, é essa abordagem multidimensional que orienta o futuro da circularidade dentro da mineração – uma mineração mais eficiente, mais conectada à inovação, mais integrada às cadeias produtivas e, sobretudo, mais alinhada às transformações que a sociedade exige das grandes operações industriais no século XXI. Mais do que reaproveitar materiais, a circularidade propõe uma revisão profunda da própria lógica de valor da mineração. E o processo já está em curso na Vale.

VALE BASE METALS APOSTA EM COBRE, NÍQUEL E DISCIPLINA PARA LIDERAR EM MINERAIS CRÍTICOS

Francisco Alves

Em pouco mais de um ano, a Vale Base Metals superou suas próprias metas operacionais, mais do que dobrou o EBITDA e passou a se apresentar ao mercado como um candidato a protagonista global no fornecimento de minerais críticos. "Este negócio está em outra trajetória", afirmou Shaun Usmar, CEO da Vale Base Metals, durante o BBM Day realizado em março, no Canadá. "Estamos entregando nossa performance operacional. Mudamos fundamentalmente como fazemos projetos. Estamos destravando crescimento em cobre."

Artigos da edição

    VALE | Circularidade em escala: como a Vale transforma rejeitos em valor | BRASILMINERAL.COM.BR